3.2 A HISTORICIDADE DA LÍNGUA
3.2.1 Sistema e norma
Nesse contexto, Coseriu (1972), de um lado, compreende como sistema as possibilidades, as diretrizes e os limites funcionais de realização de uma língua. Nesse caso, o linguista considera dentro do sistema as possibilidades léxico-gramaticais da língua. Por outro lado, existem as normas correspondentes a tudo que é estabelecido e efetivamente utilizado, quer dizer, são as possibilidades do sistema que são concretamente usadas. Longhin-Thomazi (2014) distingue, portanto, “entre o que é funcionalmente possível (sistema) e o que é tradicionalmente realizado (norma)” (LONGHIN-THOMAZI, 2014, p. 18). O nível da língua histórica de um lado irá abarcar a historicidade e tradicionalidade dos textos, como vimos no tópico anterior; e de outro, a historicidade da língua englobará o sistema e a norma. A historicidade da língua, portanto, é o lugar onde residem as variações linguísticas, as escolhas linguísticas e nos modos tradicionais de dizer dos falantes, seja variação diatópica
(geográfica), social (diafásica) e estilística (diastrática) (LONGHIN-THOMAZI, 2014; KABATEK, 1996). São essas variações que identificam os homens como pertencentes a certos grupos de falantes (KABATEK, 1996).
Coseriu (1979 [1973]), ao contrapor a dicotomia de Saussure com a tricotomia fala, norma e sistema, em que entre o sistema e a fala tem-se a norma, buscava propor uma linguística do falar pois, para ele, a língua é considerada um aspecto do falar:
‘[...] é necessário colocar-se primeiramente no terreno do falar e tomá-lo como norma de todas as outras manifestações da linguagem’ (inclusive da ‘língua’). E, em vez de considerar, como Pagliaro, a parole como ‘o momento subjetivo da língua’, seria mais conveniente considerar a língua como ‘o momento historicamente objetivo do falar’. De nosso ponto de vista, o estudo da língua é estudo dum aspecto do falar, que não é abstrato nem exterior ao próprio falar e que, naturalmente, é fundamental, pois o falar é sempre histórico: é sempre ‘falar uma língua’ (COSERIU, 1979 [1973], p. 123).
Dessa forma, o autor argumenta que, se há uma linguística das línguas (o falar no nível histórico) e há também uma linguística do texto (o falar no nível individual), deveria existir também uma linguística que atendesse questões referentes ao falar no nível universal, ou seja,
[...] em nossa opinião, a lingüística do falar em sentido estrito seria uma lingüística descritiva, uma verdadeira gramática do falar. E, precisamente, uma gramática indispensável tanto para a interpretação sincrônica e diacrônica da “língua” quanto para a análise dos textos. De fato, do ponto de vista sincrônico, a língua não oferece apenas os instrumentos da enunciação e de seus esquemas, mas também instrumentos para a transformação do saber em atividade; e, do ponto de vista diacrônico, tudo o que ocorre na língua só ocorre pelo falar. Por outro lado, a análise dos textos não pode ser feita com exatidão sem o conhecimento da técnica da atividade lingüística, pois a superação da língua que ocorre em todo o discurso se pode ser explicada pelas possibilidades universais do falar (COSERIU, 1979 [1973], p. 214).
O falar está contido no nível universal e diz respeito aos fenômenos linguísticos que são comuns a todas as línguas, tendo duas propriedades fundamentais: uma, corresponde à natureza universal das línguas em que, a partir do seu caráter sígnico, identifica-se o que é e o que não é pertencente à determinada língua; e a outra propriedade diz respeito ao falante, mais especificamente, à capacidade biológica e universal do falar “[...] não determinada historicamente, que todos, como falantes, possuímos” (COSERIU, 2007, p. 131). Prosseguindo por esse caminho, a norma, para Coseriu (1979 [1973]), é tradicionalmente estabelecida sócio e culturalmente e varia de comunidade para comunidade. Duarte (2001), a partir da noção de norma de Coseriu, salienta que a norma – enquanto uso intermediário entre a fala e a língua – é que estabelece o que é usual, normal, isto é, o que se diz, e também o que
não é dito dentro de uma comunidade linguística. Assim, a norma é coerciva, enquanto a língua (sistema) não é: “Por exemplo, a norma consagrou ‘infeliz’ e não ‘desfeliz’, embora essa última possibilidade exista na estrutura da língua portuguesa. A norma seria, pois, a realização da langue, e a parole, a realização da norma [...]”(DUARTE, 2001, p.160) (grifos do autor). O sistema, nessa ótica, é composto por entidades mais abstratas realizadas de diferentes modos válidos e compreende, portanto, as possibilidades de uma língua. A língua deve ser compreendida senão como objeto histórico, estando incluído nesse domínio o conceito de competência linguística que corresponde a “um saber intuitivo ou técnico dependente da cultura nos três planos independentes entre si do falar em geral, da língua particular e do discurso ou texto” (COSERIU, 1992, p. 8).
Considerando a fundamental relevância dos postulados de Coseriu (1972) para os estudos linguísticos, Faraco (2008) diz que a perspectiva tricotômica (sistema, norma e fala) de Eugenio Coseriu, no início da década de 50, assume nos estudos linguísticos o lugar de superação da visão dicotômica de língua (langue/parole), postulada por Saussure. Nesse sentido, Coseriu (1972) afirma que uma norma não corresponde ao que “se pode dizer”, pois essas possibilidades são cabíveis ao sistema, mas sim ao que já foi dito e o que tradicionalmente se diz em determinada comunidade. A norma, nesse sentido, está ligada à normalidade, isto é, ao que é normal, corriqueiro, habitual, usual e recorrente em uma comunidade de fala (FARACO, 2008). Sobre o conceito de norma, argumenta Faraco (2008, p. 35):
É importante deixar claro que a ideia de norma, embora nascida no interior do arcabouço teórico estruturalista de inspiração saussuriana, não perde sua vitalidade quando transposta para outros quadros teóricos. E isso por força do que nos impõe a empiria: qualquer modelo teórico da linguagem verbal tem, inexoravelmente, de se posicionar frente à variabilidade supraindividual, ou seja, frente às diferentes variedades que constituem uma língua. Assim, se adotarmos um olhar gerativista, diremos que a cada norma corresponde uma gramática. Se adotarmos um olhar variacionista (sociolinguístico ou dialetológico), será produtivo equiparar norma e variedade (FARACO, 2008, p. 35)
Diante do exposto, é fundamental deixarmos claro que a presente dissertação se ocupa, por um lado, com o que “se pode dizer”, isto é, com o que é cabível ao sistema – este aqui
compreendido a partir do sistema internalizado na mente do falante (CHOMSKY, 1981,
1986) –, no sentido de investigar a presença ou ausência do Tu e Você na posição de sujeito e, igualmente, o que essa “escolha linguística” (norma) pode revelar em termos da marcação do
uma preocupação com texto histórico, pois, através de suas marcas tradicionais, podemos
perceber quais possíveis fatores influenciam na variação dessas formas de tratamento e,
também, na escolha do correspondente por uma forma em detrimento de outra.
Trilhando por esse caminho, dentro da constituição da história do texto e da língua, optamos por nos ancorar teórico-metodologicamente por dois vieses. O primeiro, já amplamente apresentado é o conceito de TD, para a investigação do texto e do perfil social dos correspondentes como dados extralinguísticos. O segundo, até agora pouco explorado, mas que tem um peso crucial para a análise intralinguística, corresponde ao Parâmetro do Sujeito Nulo (PSN) (CHOMSKY, 1981, 1986 e seguintes) que é uma teoria fulcral para os estudos histórico-diacrônicos atuais. Nesse viés, incluímos também o procedimento metodológico quantum-qualitativo laboviano (2004, 2008 [1972]), isto é, considerando dados intra e extralinguísticos na observação da variação de Tu e Você na posição de sujeito.
Como, infelizmente, não temos acesso à língua falada do passado, partimos de dados linguísticos de textos próximos do falar pernambucano da época (a saber: séculos XIX e XX) que nos revelam um possível ou, ao menos, parcial processo de mudança paramétrica no que se refere ao comportamento do sujeito nulo, como por exemplo a entrada de formas de tratamento como o Você no quadro pronominal brasileiro (DUARTE, 1995; KATO; DUARTE, 2014). Assim, compreendemos que “a língua é algo que se cria e recria continuamente no falar” (KABATEK, 1996, p. 20) e, portanto, que o falar é a materialização concreta da capacidade inata de todo ser humano à linguagem. A partir dessa perspectiva, pretendemos investigar nas cartas pessoais pernambucanas como o conhecimento inato do PB de seus falantes revela-se através do uso do Tu e do Você na posição sujeito em diferentes séculos e, com isso, observaremos o que possivelmente o desempenho tem provocado na estrutura da língua por meio das pistas que nos revelam o texto e suas tradições.
3.2.2 Sobre o Parâmetro do Sujeito Nulo (CHOMSKY, 1981, 1986): breves incursões