CAPÍTULO 2 – Teoria e crítica da noção de sistema no Curso de Linguística Geral
2.3 Sistema: estado e funcionamento da língua
Como foi possível notar por meio da análise dos trechos do CLG que tratam da noção de sistema, tal noção está relacionada à caracterização de alguns dos principais conceitos e noções que compõem o quadro teórico de Saussure. De modo geral, o sistema se relaciona, de forma direta, à delimitação dos conceitos de língua e de signo linguístico, aos princípios da arbitrariedade e do valor, e a diversas noções subjacentes, como a de relação, diferença, oposição e sincronia. Esses elementos, por sua vez, também têm sua constituição dependente da noção de sistema, o que evidencia certa reciprocidade na delimitação dos princípios que compõem a teorização saussuriana, estabelecendo, desse modo, uma via de mão dupla.
No que tange especificamente à definição da noção de sistema no CLG, encontramos apenas um trecho dedicado a defini-la diretamente. No entanto, em concordância com o trecho encontrado, foi possível notarmos, ao longo de toda a nossa análise, que a compreensão da
noção de sistema oscila entre a possibilidade de entendê-la como um estado de língua ou como o modo de funcionamento da língua, ou seja, um mecanismo. Os adjetivos e expressões adjetivas que acompanham o termo sistema na definição apresentada na edição também corroboram para essa diferenciação: quando se fala em sistema linguístico, pode-se compreender a língua enquanto uma sincronia; quando se fala em sistema de valores, pode-se compreender a língua como a rede de relações que fazem com que ela funcione sempre da mesma maneira.
Entretanto, a nosso ver, trata-se apenas de pontos de vista distintos, isto é, de maneiras diferentes de se considerar o mesmo objeto; desse modo, consideramos válido afirmar que esses dois pontos de vista não são, portanto, excludentes. Afirmamos isso, pois, assim como a visão sincrônica da língua não impossibilita o ponto de vista diacrônico, entender o sistema como um estado de língua não impossibilita que ele seja também entendido como funcionamento. Em vez disso, uma vez que é o ponto de vista sincrônico da língua que permite pensar seu funcionamento enquanto um sistema, essas duas óticas, ao que parece, complementam-se. Como afirma, De Mauro (1967):
O caráter sistêmico da língua impõe igualmente que a Linguística desenvolva suas pesquisas, antes de tudo, no plano em que coexistem as diferentes unidades e estruturas possíveis, ou seja, sobre o plano da contemporaneidade e da coexistência funcional: esse plano é chamado por Saussure de sincrônico ou, mais exatamente, idiossincrônico. O estudo idiossincrônico não exclui, nas intenções de Saussure, o estudo diacrônico, isto é, o estudo da evolução de um sistema e de uma de suas partes através do tempo, assim como também não exclui a comparação de sistemas e de partes de sistemas geneticamente aparentes, nos quais a Linguística do século XIX colocava todo o trabalho dos linguistas. (DE MAURO, 1967, p. x, grifo do autor, tradução nossa). 37 Se, segundo o que é exposto por De Mauro (1967), o objeto de estudo da Linguística, ou seja, a língua, só pôde ser delimitado por Saussure quando pensado a partir de um enfoque sincrônico das línguas observáveis, então esses dois modos de compreender o sistema no CLG não se eliminam. É verdade que cada uma dessas óticas pode levar a compreensões distintas da noção de sistema, ocasionando considerações até mesmo antagônicas – tais como “o sistema de língua muda” e “o sistema de língua não muda”. No entanto, se a língua, enquanto sistema de
37 « Le caractère systémique de la langue impose également que la linguistique développe ses recherches avant
tout sur le plan où coexistent les différentes unités et structures possibles, c’est-à-dire sur le plan de la contemporanéité et de la coexistence fonctionnelle : ce plan est appelé pas Saussure synchronique ou, plus exactement, idiosynchronique. L’étude idiosynchronique n’exclut pas, dans les intentions de Saussure, l’étude diachronique, c’est-à-dire l’étude de l’évolution d’un système et d’une de ses parties à travers le temps, pas plus qu’elle n’exclut la comparaison de systèmes et de parties de systèmes génétiquement apparentés, dans laquelle la linguistique du XIXe siècle plaçait tout le travail du linguiste ».
signos, pertence ao que é chamado no CLG de “Linguística sincrônica”, então considerar o sistema enquanto funcionamento da língua e considerá-lo como um estado de língua são pontos de vista que podem ser entendidos como complementares, e não excludentes.
Assim, torna-se notável que nossa investigação de como a noção de sistema é constituída no CLG mostrou que ela possui, de fato, um caráter central na teorização de Saussure exposta na edição, uma vez que sua caracterização envolve outros componentes igualmente fundamentais das elaborações do linguista. Tendo isso em vista, a seguir nos dedicaremos à análise da noção de sistema em outros três documentos saussurianos: o “Mémoire sur le système primitif des voyelles dans les langues indo-européennes”, e os conjuntos de manuscritos “Da essência dupla da linguagem” e “Notas para o curso três”.
Com essas análises, buscaremos investigar de que modo a noção de sistema é caracterizada por Saussure em cada um desses documentos, evidenciando as semelhanças e as diferenças existentes entre essas caracterizações e aquela que constitui a noção em questão no CLG. Essa investigação auxiliar-nos-á tanto a apontar direções para refletir sobre os aspectos da noção saussuriana de sistema que fazem com que ela constitua uma via de mão dupla, quando contraposta às concepções de estudiosos anteriores e contemporâneos a Saussure, como também nos ajudará a vislumbrar a sua trajetória de elaboração.