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3.4 Análise das organizações familiares sob nova perspectiva

4.1.2 Sistema geracional e a transgeracionalidade

Há uma dimensão histórica presente nas ações dos indivíduos (historicidade do sujeito), representada pelos elementos culturais herdados das gerações anteriores e repetidos nos encontros sociais na vida familiar. O processo de transmissão cultural de uma para outra geração liga cultura em um momento histórico com cultura de outro momento histórico. Esse processo é chamado “socialização”, do ponto de vista da família e “desenvolvimento”, do ponto de vista do indivíduo (Greenfield et al., 2000).

O desenvolvimento é construído por meio da interação social, práticas culturais e internalização ou apropriação cognitiva dos elementos simbólicos (Vygotsky, 1998b). A socialização, por sua vez, é representada por um processo de aprendizagem cultural, no nível individual, que ocorre no ambiente familiar. A transmissão dos elementos culturais constituintes da socialização sofre influências do contexto, podendo modificar-se na perspectiva temporal (Greenfield et al., 2000). Mesmo assim, as características básicas do processo de socialização podem ser apreendidas pela análise do sistema geracional até a terceira ou quarta geração. Elas servem de evidências para compreender as ações de um membro da família no tempo presente.

O sistema geracional é um conceito desenvolvido por psicólogos, tendo como referência a teoria sistêmica na área da terapia familiar, o qual é descrito por movimentos verticais (padrões, mitos, segredos, legados familiares) e horizontais (transições de ciclo de vida desenvolvimentais – natalidade, casamento, morte – e impredizíveis – morte precoce, doença crônica) que se dão num espaço temporal. O movimento vertical é considerado transgeracional

(Carter & McGoldrick, 1995) e, na interseção com o movimento horizontal, aumenta a ansiedade no sistema, devido à mudança no ciclo de vida familiar (Simionato-Tozo, 2002)20.A ansiedade, que aparece num determinado ponto de transição do ciclo de vida familiar, por ocasião de um evento (paternidade, por exemplo), reaparece em qualquer outro ponto na história da família e pode alterar o padrão de comportamento ou a dinâmica da família.

De acordo com Carter & McGoldrick (1995), o sistema geracional desenvolve-se em cinco níveis e tem o indivíduo como ponto de referência. Os demais níveis são: família nuclear, família ampliada, comunidade e contexto. Ao considerar a família ampliada como um subsistema de múltiplas gerações (Bradt, 1995), está se reconhecendo que as relações familiares podem ocorrer em diferentes estágios de transição dentro do ciclo de vida familiar. Aquelas que ocorrem dentro de uma geração são consideradas transições intrageracionais e quando ocorrem de uma para outra geração, denominam-se transições intergeracionais. Todas as transições no ciclo de vida familiar são marcadas por rituais e cerimônias de passagem (Friedman, 1995) que, ao cruzarem-se num determinado ponto, os quais variam de acordo com cada grupo social (McGoldrick, 1993, 1995), são consideradas transições transgeracionais.

Os elementos intervenientes nas transições, num grupo social, são a etnicidade e a diversidade cultural que, ao constituírem a complexa rede de relações, “suavizam” os movimentos no ciclo de vida familiar (McGoldrick, 1993). No seu entorno, forma-se um sistema emocional que atenua as diferenças de gênero, condiciona a rotina da casa e o cuidado com os filhos, o grau de liberdade sexual, o tipo de relacionamento por afinidade (sogro/genro, sogra/nora, outros), bem como a proximidade física e emocional entre as diferentes gerações (Simionato-Tozo, 2002).

20 Ansiedade é um conceito desenvolvido com base na psicologia para a intervenção

terapêutica. É considerado um estado emocional associado a um momento crítico da vida de um indivíduo (Friedman, 1995; Hoffman, 1995; Carter & McGoldrick, 1995).

Friedman (1995) afirma que o sistema emocional familiar se dá pelos movimentos espaço-temporais observados em, pelos menos, três gerações. Mesmo que seus membros estejam separados fisicamente, eles reagem aos relacionamentos dentro do sistema familiar maior de três gerações (Friedman, 1995; Greenfiel et al., 2000), o que torna a sua compreensão um fenômeno complexo. Os genetogramas são retratos gráficos da história e do padrão familiar, mostrando a estrutura básica, a demografia, o funcionamento e os relacionamentos entre os membros da família, facilitando, assim, a compreensão da dinâmica dessa dentro do sistema geracional (McGoldrick & Gerson, 1995).

Nos genetogramas estão inscritos os movimentos horizontais da família, assim como a natureza das relações familiares (conflituosas, não conflituosas), na perspectiva transgeracional. A transmissão de bens, valores, saberes e outros tipos de apoio intergeracionais aparece como elemento constituinte do circuito de solidariedade e de reprodução familiar geracional, que também ocorre em espaços sociais diferentes dos familiares. Ainda, as transmissões de elementos culturais evidenciam preferências bilaterais, que podem ser identificadas após visualização de todos os movimentos, no mínimo em três gerações.

Como afirma Peixoto (2000, p. 110):

as preferências são bilaterais, já que os netos também fazem as próprias escolhas: a avó ou o avô preferido do lato paterno ou materno. Assim, eles podem rejeitar toda forma de relação com a linhagem da qual desejam se afastar por um motivo ou outro. Individualizadas, as transmissões são inscritas nas relações de gênero, pois as avós e os avôs desejam deixar a cada um dos netos, em função do seu sexo, uma lembrança particular ou um traço de sua passagem. Mesmo que se apóiem na primogenitura, em uma preferência por um ou outro e no carinho por todos, as relações entre avós e netos são sempre individualizadas (Peixoto, 2000, p. 110).

Essa problemática do individualismo no sistema geracional foi apropriada pelos fundadores da sociologia (Cicchelli, 2000), com o objetivo de compreender as transformações ocorridas na família e a contribuição dessa instituição para a manutenção e a estabilidade dos laços sociais. A perspectiva sociológica tradicional considera os estágios do ciclo de vida familiar como namoro, casamento e morte21. Ao considerar a família como um grupo social permeado por emoções e sentimentos entre o amor e o ódio, que vai do berço (nascimento) ao túmulo (morte), a psicologia apresenta contornos diferenciados na compreensão da dinâmica desse grupo, pelo quadro de interações familiares não suficientemente posto em evidência pela sociologia (Cicchelli, 2000).

Nesse sentido, a compreensão do sistema geracional envolve reconhecer a metamorfose pela qual passa a família à medida que os padrões de relacionamento entre as gerações mudam, pela maturidade física dos seus membros (Preto, 1995). Carter & McGoldrick (1995) delineiam o ciclo de vida familiar iniciado no estágio de “jovens adultos”. A tarefa primária da família estaria sendo encerrada quando é estabelecido um acordo familiar sobre com quem, quando e como esse jovem deveria se casar e, por meio de rituais e cerimônias, conquistaria o direito de seguir para outros estágios, tais como: “o novo casal”, família com filhos pequenos, famílias com adolescentes, família de adultos e família no estágio tardio de vida (Carter & McGoldrick, 1995).

Os estágios do ciclo de vida familiar não são determinados, mas construídos após análise sistêmica da estrutura familiar, a partir do mapeamento dos movimentos de separação e pertencimento dos membros mo ciclo de vida familiar e da história transgeracional. As mudanças nos relacionamentos entre as gerações são o resultado da dinâmica do sistema geracional e, ao ocorrerem, reconfiguram outras organizações das quais este grupo social faz parte.

21 A sociologia tradicional é a vertente funcionalista de Merton, que procura saber como

os indivíduos agem em situações já definidas fora deles e preexistentes a suas interações.