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3. DANOS SOCIOAMBIENTAIS EM TERRAS INDÍGENAS: MECANISMOS DE

3.5 Sistema protetivo regional dos direitos dos povos indígenas

3.5.1 Sistema interamericano de direitos humanos

O sistema regional adotado pelo Brasil consiste no Sistema Interamericano de Direitos Humanos, o qual possui como principal instrumento a Convenção Americana de Direitos Humanos, que estabelece a Comissão Interamericana e a Corte Interamericana. Foi assinada em San José, Costa Rica, em 1969, entrando em vigor em 1978.390 Apenas Estados-Membros da Organização dos Estados

Americanos (OEA) têm o direito de aderir à tal Convenção, atualmente composta por 23 Estados-Partes.391

A Convenção Americana de Direitos Humanos (CADH) – também denominada Pacto de San José da Costa Rica – consagrou-se como o instrumento de maior importância no sistema interamericano devido ao fato de sua natureza autoexecutável (self-executing), o que impõe aos Estados a que a ela tenham ratificado a aplicabilidade imediata de seus termos. Ela reconhece e assegura um catálogo de direitos civis e políticos similar ao previsto pelo Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos. Desse universo de direitos, destacam-se: o direito à personalidade jurídica, o direito à vida, o direito a não ser submetido à escravidão, o direito à liberdade, o direito a um julgamento justo, o direito à privacidade, o direito à liberdade de consciência e religião, o direito à liberdade de pensamento e expressão, o direito à resposta, o direito à liberdade de associação, o direito à nacionalidade, o direito à igualdade perante a lei e o direito à proteção judicial.392

390 O Brasil aderiu à Convenção em 9 de julho de 1992, depositou a carta de adesão em 25 de

setembro de 1992 e a promulgou por meio do decreto n. 678 de 6 de novembro do mesmo ano. O ato multilateral entrou em vigor para o Brasil em 25 de setembro de 1992, data do depósito de seu instrumento de ratificação (art. 74, §2º). (RAMOS, Curso de direitos humanos, p. 293.)

391 Note-se que 25 Estados ratificaram a Convenção Americana – contudo, em 26 de maio de 1998,

houve a denúncia formulada por Trinidad & Tobago e, em 10 de setembro de 2012, houve a denúncia formulada pela Venezuela. (PIOVESAN, Direitos humanos e o direito constitucional internacional, p. 347-9.)

Apesar de não haver menção expressa aos povos indígenas e tribais no texto convencional, não se pode afirmar que o artigo 21 da CADH393 não lhes seria

aplicável. Isso porque o artigo 29, alínea “b”, do mesmo dispositivo, ao estabelecer as normas de interpretação de seu conteúdo, dispõe que nenhuma disposição do texto convencional pode ser interpretada no sentido de “limitar o gozo e exercício de qualquer direito ou liberdade que possam ser reconhecidos de acordo com as leis de qualquer dos Estados-Partes ou de acordo com outra convenção em que seja parte um dos referidos Estados”.394 Essa interpretação, aliada ao disposto no artigo 31 da

Convenção de Viena395 sobre o direito dos tratados, tem sido constantemente

utilizadas tanto pela Comissão, bem como pela Corte Interamericana de Direitos Humanos, para que se vejam efetivamente tutelados os direitos de propriedade dos povos indígenas e tribais. Tais direitos a que se refere o artigo 29, alínea “b”, da CADH, constam precisamente detalhados em outros instrumentos internacionais como a Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos dos Povos Indígenas e a Convenção n. 169 da OIT.396

Em seu preâmbulo, a CADH ressalta o reconhecimento de que os direitos essenciais da pessoa humana derivam não da nacionalidade, mas sim da sua condição humana, o que justifica a proteção internacional, de natureza convencional, coadjuvante ou complementar da que oferece o direito interno dos Estados. Ela enuncia de forma específica que os Estados devem alcançar progressivamente a

393 Art. 21: “Direito à propriedade privada: 1. Toda pessoa tem direito ao uso e gozo de seus bens. A

lei pode subordinar esse uso e gozo ao interesse social. 2. Nenhuma pessoa pode ser privada de seus bens, salvo mediante o pagamento de indenização justa, por motivo de utilidade pública ou de interesse social e nos casos e na forma estabelecidos pela lei. 3. Tanto a usura, como qualquer outra forma de exploração do homem pelo homem, devem ser reprimidas pela lei”.

394 OLIVEIRA, Denizom Moreira de. A efetiva proteção da propriedade comunal da terra dos

povos indígenas e tribais: uma análise sob o enfoque da exploração mineral. Manaus, 2013. Monografia (conclusão de curso em Direito) – Universidade do Estado do Amazonas. p. 35-6.

395 Art. 31: “Regra Geral de Interpretação: 1. Um tratado deve ser interpretado de boa-fé segundo o

sentido comum atribuível aos termos do tratado em seu contexto e à luz de seu objetivo e finalidade. 2. Para os fins de interpretação de um tratado, o contexto compreenderá, além do texto, seu preâmbulo e anexos: a) qualquer acordo relativo ao tratado e feito entre todas as partes em conexão com a conclusão do tratado; b) qualquer instrumento estabelecido por uma ou várias partes em conexão com a conclusão do tratado e aceito pelas outras partes como instrumento relativo ao tratado. 3. Serão levados em consideração, juntamente com o contexto: a) qualquer acordo posterior entre as partes relativo à interpretação do tratado ou à aplicação de suas disposições; b) qualquer prática seguida posteriormente na aplicação do tratado, pela qual se estabeleça o acordo das partes relativo à sua interpretação; c) quaisquer regras pertinentes de direito internacional aplicáveis às relações entre as partes. 4. Um termo será entendido em sentido especial se estiver estabelecido que essa era a intenção das partes”.

plena realização desses direitos, mediante a adoção de medidas legislativas e outras que se mostrem apropriadas (art. 26).397

Em face do catálogo de direitos nela assegurados, cabe a cada Estado-Parte a obrigação de respeitar e assegurar o livre e pleno exercício desses direitos e ainda adotar todas as medidas legislativas e de outra natureza que sejam necessárias para conferir efetividade a tais direitos e liberdades enunciados. Como atenta Thomas Buergenthal:

Os Estados-partes na Convenção Americana têm a obrigação não apenas de “respeitar” esses direitos garantidos na Convenção, mas também de “assegurar” o seu livre e pleno exercício. Um governo tem, consequentemente, obrigações positivas e negativas relativamente à Convenção Americana. De um lado, há a obrigação de não violar direitos individuais; por exemplo, há o dever de não torturar um indivíduo ou de não privá-lo de um julgamento justo. Mas a obrigação do Estado vai além desse dever negativo e pode requerer a adoção de medidas afirmativas necessárias e razoáveis, em determinadas circunstâncias, para assegurar o pleno exercício dos direitos garantidos pela Convenção Americana.398

Os Estados têm, consequentemente, deveres positivos e negativos, ou seja, eles têm a obrigação de não violar os direitos garantidos pela Convenção e têm o dever de adotar as medidas necessárias e razoáveis para assegurar o pleno exercício desses direitos. Por exemplo, se um determinado Estado outorga um contrato para que uma empresa petrolífera explore uma área não se atentando que esse local é uma terra indígena, ele está a violar o artigo 21 da CADH, ainda que não possa demonstrar que seus agentes sejam responsáveis por tais violações, já que o Estado, embora capaz, falhou em adotar medidas razoáveis para proteger os povos indígenas contra tal ilegalidade.