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3. INFÂNCIA E JUVENTUDE NO BRASIL

3.2. Sistema Nacional de Atendimento Socioeducativo

Durante o ano de 2002 o Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda) e a Secretaria Especial dos Direitos Humanos (SEDH/SPDCA), hoje Ministério dos Direitos Humanos, em parceria com a Associação Brasileira de Magistrados e Promotores da Infância e Juventude (ABMP) e o Fórum Nacional de Organizações

34 Governamentais de Atendimento à Criança e ao Adolescente (FONACRIAD), realizaram encontros estaduais, cinco encontros regionais e um encontro nacional com juízes, promotores de justiça, conselheiros de direitos, técnicos e gestores de entidades e/ou programas de atendimento socioeducativo. O escopo foi debater e avaliar com os operadores do SGD a proposta de lei de execução de medidas socioeducativas da ABMP bem como a prática pedagógica desenvolvida nas Unidades socioeducativas, com vistas a subsidiar o Conanda na elaboração de parâmetros e diretrizes para a execução das medidas socioeducativas33.

Como resultado desses encontros, acordou-se que seriam constituídos dois grupos de trabalho com tarefas específicas embora complementares, a saber: a elaboração de um projeto de lei de execução de medidas socioeducativas e a elaboração de um documento teórico- operacional para execução dessas medidas34.

Em fevereiro de 2004 a Secretaria Especial dos Direitos Humanos (SEDH) em conjunto com o Conanda e com o apoio do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), sistematizaram e organizaram a proposta do Sistema Nacional de Atendimento Socioeducativo (Sinase).

Assim, o documento teórico-operacional para execução das medidas socioeducativas aplicadas aos adolescentes autores de ato infracional foi aprovada pela Resolução nº 119, de 11 de dezembro de 2006, do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda), tendo sido publicado neste mesmo ano.

Insta registrar, entrementes, que nos termos do inciso I, Art. 2º, da Lei nº 8242, de 12 de outubro de 1991, que criou o Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda), a este compete “elaborar as normas gerais da política nacional de atendimento dos

direitos da criança e do adolescente, fiscalizando as ações de execução, observadas as linhas de ação e as diretrizes estabelecidas nos arts. 87 e 88 da Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990”.

Assim, o Sinase surgiu como uma proposta de sistematizar e qualificar o atendimento conferido até então ao adolescente autor de ato infracional, visando romper com os resquícios punitivista e assistencialista do Código de Menores e promover um serviço pautado nos princípios dos direitos humanos.

33

BRASIL. Secretaria Especial de Direitos Humanos. Sistema Nacional de Atendimento Socioeducativo (SINASE). Brasília: CONANDA, 2006, p.15.

34

35 O Art. 2º da Resolução nº 119/2006 preconiza que “O Sinase constitui-se de uma

política pública destinada à inclusão do adolescente em conflito com a lei que se correlaciona e demanda iniciativas dos diferentes campos das políticas públicas e sociais”.

Ademais, o Sinase caracteriza-se como “(...) um conjunto ordenado de princípios,

regras e critérios, de caráter jurídico, político, pedagógico, financeiro e administrativo, que envolve desde o processo de apuração de ato infracional até a execução de medidas socioeducativas” (Art. 3º, Resolução nº 119/2006).

Dessa forma, o Sinase parte da proposta de integração com outras políticas públicas, por meio de alinhamentos conceitual, estratégico e operacional, calcada, principalmente, em bases éticas e pedagógicas.

O Sinase se caracteriza como uma política pública destinada à inclusão do adolescente autor de ato infracional que se correlaciona e demanda ações das mais diversas áreas das políticas públicas e sociais. Essa política tem interfaces com diferentes sistemas e políticas, e por isso exige uma atuação que concilie a responsabilização do adolescente (com a necessária limitação de direitos determinada por ei e aplicada por sentença) com a garantia dos direitos previstos constitucionalmente na Constituição Federal.

Assim, o Sinase se propôs a dar maior organicidade e humanizar o atendimento a esse adolescente que infringiu, visando auxiliá-lo na construção de seu projeto de vida por meio da oferta de serviços de escolarização formal, profissionalização, esporte, arte e cultura, além do atendimento psicossocial.

Para uma melhor compreensão dos papéis de cada Ente federativo definido pelo Sinase, cumpre trazer a lume os tipos de medidas socioeducativas previstas no Estatuto da Criança e do Adolescente, elencadas no seu Art. 112, veja-se:

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Art. 112. Verificada a prática de ato infracional, a autoridade competente poderá aplicar ao adolescente as seguintes medidas:

I - advertência;

II - obrigação de reparar o dano;

III - prestação de serviços à comunidade; IV - liberdade assistida;

V - inserção em regime de semiliberdade; VI - internação em estabelecimento educacional; VII - qualquer uma das previstas no art. 101, I a VI.

Quanto à divisão de competências, deve-se destacar que à União compete, dentre outras atribuições, formular e coordenar a execução da política nacional de atendimento socioeducativo. Aos Estados coube a responsabilidade pela execução das medidas de meio fechado (internação e internação provisória) e de semiliberdade, enquanto que aos municípios à execução das medidas de meio aberto (liberdade assistida e prestação de serviço à comunidade).

Dessa forma, no tocante à execução das medidas socioeducativas, a responsabilidade assim se divide:

Outrossim, deve-se ressaltar que para a Lei nº 12.594/2012 as medidas socioeducativas objetivam: (i) a responsabilização do adolescente quanto às consequências lesivas do ato infracional, sempre que possível incentivando a sua reparação; (ii) a integração social do adolescente e a garantia de seus direitos individuais e sociais, por meio do

cumprimento de seu plano individual de atendimento, e; (iii) a desaprovação da conduta

infracional, efetivando as disposições da sentença como parâmetro máximo de privação de liberdade ou restrição de direitos, observados os limites previstos em lei.

Esses objetivos conferem à medida socioeducativa uma dupla natureza:

37 cometido, e pedagógica, porquanto busca a sua integração social por meio da instrumentalização de um Plano Individual de Atendimento pautada na garantia dos seus direitos individuais e sociais (educação, saúde, profissionalização, esporte, cultura etc). O Sistema Nacional de Atendimento Socioeducativo35 traz a seguinte definição:

As medidas socioeducativas possuem em sua concepção básica uma natureza sancionatória, vez que responsabilizam judicialmente os adolescentes, estabelecendo restrições legais e, sobretudo, uma natureza sócio-pedagógica, haja vista que sua execução está condicionada à garantia de direitos e ao desenvolvimento de ações educativas que visem à formação da cidadania. Dessa forma, a sua operacionalização inscreve-se na perspectiva ético-pedagógica. (Grifos nossos)

Essa concepção está alinhada aos princípios de direitos humanos, mormente às normas de direito internacional, das quais o Brasil é signatário, e se afasta da concepção puramente assistencialista ou simplesmente punitivista, para adotar uma concepção de que o adolescente é responsável pelos atos praticados, contudo, o seu processo de responsabilização perpassa por uma proposta pedagógica, onde por meio do seu Plano Individual de Atendimento (PIA) o adolescente poderá construir o seu projeto de vida.

Os Arts. 52 e 53 da Lei nº 12.594/12 estabeleceu os requisitos para a implementação do Plano Individual de Atendimento (PIA), senão vejamos:

Art. 52. O cumprimento das medidas socioeducativas, em regime de prestação de serviços à comunidade, liberdade assistida, semiliberdade ou internação, dependerá de Plano Individual de Atendimento (PIA), instrumento de previsão, registro e gestão das atividades a serem desenvolvidas com o adolescente.

Parágrafo único. O PIA deverá contemplar a participação dos pais ou responsáveis, os quais têm o dever de contribuir com o processo ressocializador do adolescente, sendo esses passíveis de responsabilização administrativa, nos termos do art. 249 da Lei no 8.069, de 13 de julho de 1990 (Estatuto da Criança e do Adolescente), civil e criminal. (Grifos nossos)

Art. 53. O PIA será elaborado sob a responsabilidade da equipe técnica do respectivo programa de atendimento, com a participação efetiva do adolescente e de sua família, representada por seus pais ou responsável. (Grifos nossos)

O PIA tem o objetivo de garantir a compreensão de cada adolescente enquanto pessoa, na sua singularidade e individualidade, que tem um plano construído com ele e para ele.

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38 O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) trouxe a concepção de adolescente como uma pessoa em condição peculiar de desenvolvimento (Art. 6º), impondo, portanto, que o adolescente deve ser compreendido em sua individualidade, ou seja, em razão do seu contexto familiar, social, físico e psicológico. Isso faz com que todas as áreas envolvidas no atendimento ao adolescente (judicial, administrativa, pedagógica, de saúde, segurança, família e comunidade) devem respeitar a ideia de que cada jovem é único, e dessa mesma forma deverá ser o seu desenvolvimento no seu processo socioeducativo.

Assim, o Plano Individual de Atendimento (PIA), além de ser apropriado a cada um, deve ser personalizado. O PIA funciona como um plano de trabalho, que dá instrumentalidade para o desenvolvimento pessoal e social do adolescente em cumprimento de medida socioeducativa, respeitando a visão global e plena do ser humano e da educação. Nesse sentido, o PIA é construído como um plano de estratégias e ações a serem desenvolvidas pelo adolescente, segundo diretrizes fixadas por eixos de garantia de direitos fundamentais (educação, saúde, profissionalização, esporte, cultura, convivência familiar e comunitária etc), visando a construção do seu projeto de vida e da sua visão de mundo.

Dessa forma, o PIA é elaborado a partir de um estudo de caso, uma reunião, com a equipe técnica do programa de atendimento socioeducativo (assistente social e psicólogo), com o socioeducador de referência do adolescente, com o jovem e sua família, buscando trabalhar sobre a singularidade no coletivo. No estudo de caso serão sistematizadas as informações referentes ao contexto sociofamiliar do adolescente, as circunstâncias que o levaram à prática do ato infracional, suas aptidões, habilidades, interesses, motivações e suas características pessoais e condições para superação das suas dificuldades.

O foco do estudo é sempre o próprio adolescente, a sua história, as suas características, os afetos e desafetos, os encontros e os desencontros, as rivalidades, os envolvimentos na prática de atos infracionais que marcaram sua vida, para, a partir daí, ocorrer uma construção coletiva do projeto de vida do jovem.

A respeito do PIA, é importante realizar duas considerações. A primeira diz respeito à participação do jovem na construção do instrumento. Enquanto pessoa em condição peculiar de desenvolvimento, o adolescente encontra-se em um processo de autonomia relativa, tornando-se o fomento ao protagonismo a ferramenta para que ele alcance uma autonomia progressiva.

39 Deve-se destacar, no entanto, que o protagonismo aqui defendido não se refere à um ativismo irresponsável e desenfreado, mas de uma ação diretiva, pautada numa diretividade democrática, ou seja, em um processo de direcionamento do jovem para que, em vez de inibir, estimule o exercício de níveis crescentes de autoconfiança, de autodeterminação, de autonomia.

Para Antônio Carlos Gomes da Costa36:

A diretividade democrática e progressivamente decrescente do educador é o meio. A autonomia e a autotelia são o fim da modalidade de protagonismo juvenil. A autonomia é a normatização da conduta do adolescente a partir de si próprio, e a autotelia é o estabelecimento por ele mesmo dos fins da sua atuação em relação a si próprio e da realidade que o cerca.

Para o autor, essa diretividade para o protagonismo deve estar pautada na educação. Segundo relatório37 elaborado por Jacques Delors para a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), para dar conta da missão que os tempos lhe impõem, a educação deve ser capaz de organizar-se em torno de quatro grandes pilares, a saber: (i) Aprender a ser: preparar-se para agir com autonomia, solidariedade e responsabilidade. Descobrir-se, reconhecendo suas forças e seus limites e buscando superá-los. Desenvolver a autoestima, o autoconceito, gerando autoconfiança e autodeterminação. Construir um projeto de vida que leve em conta o bem estar pessoal e da comunidade; (ii) Aprender a

conviver: ter a capacidade de comunicar-se, interagir, não agredir, decidir em grupo, cuidar de

si, do outro e do lugar em que se vive, valorizar o saber social. Compreender o outro e a interdependência entre todos os seres humanos. Participar e cooperar. Valorizar as diferenças, gerir conflitos e manter a paz; (iii) Aprender a fazer: aprender a praticar os conhecimentos adquiridos. Habilitar-se a ingressar no mundo do trabalho moderno e competitivo, tendo como foco a formação técnica e profissional, o comportamento social, a aptidão para o trabalho em equipe e a capacidade de tomar iniciativas; (iv) Aprender a conhecer: dominar a leitura, a escrita, a expressão oral, o cálculo e a solução de problemas. Despertar a curiosidade intelectual, o sentido crítico, a compreensão do real e a capacidade de discernir. Construir as bases que permitirão ao individuo continuar aprendendo ao longo de toda vida.

36

COSTA, Antônio Carlos Gomes da. Protagonismo Juvenil: adolescência, educação e participação democrática. Salvador, Fundação Odebrecht, 2000, p. 01.

37

BRASIL. Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO). Educação: Um Tesouro a Descobrir. Relatório para a Unesco da Comissão Internacional Sobre Educação para o Século XXI. Disponível em: http://unesdoc.unesco.org/images/0010/001095/109590por.pdf. Acesso em: 07.mai.2018

40 Com base nesses quatro pilares, Antônio Carlos Gomes da Costa defende que deles emergem as quatro competências que o jovem, para ser autônomo, solidário e competente, deverá desenvolver: Competências pessoais (aprender a ser); Competências sociais (aprender a conviver); Competências produtivas (aprender a fazer); Competências cognitivas (aprender a aprender)38. Para o autor39:

A proposta até aqui desenvolvida pode ser resumida em dois grandes objetivos: ampliar a educação ao conjunto da experiência humana (ser, conviver, fazer e aprender) e estendê-la ao longo de toda a vida, transcendendo os limites da instituição e da idade escolar.

[...]

O propósito do protagonismo juvenil, enquanto educação para a participação democrática, é criar condições para que o educando possa exercitar, de forma criativa e crítica, essas faculdades na construção gradativa de sua autonomia. Autonomia essa que ele será chamado a exercitar de forma plena no mundo adulto.

[...]

O grupo é o espaço de conquista e afirmação da identidade pessoal e social do jovem, além de, por seu caráter espontâneo, ser o espaço de procura experimentação em que o jovem vai exercitar sua autonomia, ainda que relativa, em relação ao mundo adulto.

[...]

O protagonismo juvenil procura preparar os jovens para tomada de decisões baseadas em valores não apenas lidos e escutados, mas vividos e incorporados em seu ser.

Dessa forma, a participação do adolescente na construção do PIA objetiva trabalhar a sua autonomia e as quatro competências acima elencadas, fazendo com que a partir desse processo, o jovem possa ser o autor da sua própria história, que ele seja o protagonista da reconstrução da sua trajetória.

A segunda consideração em relação ao PIA é que ele deve ter como proposta a construção de um projeto de vida. Na construção de PIA a garantia dos direitos não é um fim em si mesmos, ou seja, a oferta dos serviços de educação, saúde, profissionalização, esporte, cultura etc não é realizada para a simples satisfação do direito, mas buscando um processo reflexivo a ser realização pelo adolescente a partir dessas atividades, como ponto de partida para que esse jovem projete a sua vida para além dos muros dos Centros Socioeducativos.

Por isso a importância da participação da família. Neste processo, a família é corresponsável no processo de socialização do jovem.

38

COSTA, Antônio Carlos Gomes da. Op. Cit., p. 02.

39

41 Como pôde se ver, o arcabouço normativo e principiológico estabelecido pelo Sistema Nacional de Atendimento Socioeducativo (Sinase) afastou-se do modelo assistencialista e repressivo estabelecido pelo Código de Menores, voltando-se para uma proposta onde a responsabilização do adolescente esteja pautado em uma proposta pedagógica e individualizada do seu atendimento, visando trabalhar a sua autonomia e potencialidades, a fim de construir uma nova trajetória dentro dos padrões de convivência familiar, comunitária e social.

Não obstante ao aqui exposto, como ver-se-á mais adiante, na prática todo esse processo pedagógico ainda sofre resistência de uma cultura enraizada e originária dos resquícios do Código de Menores, o que tem levado à um encarceramento massivo de adolescentes, notadamente os negros, pardos e pobres.

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