3. TÉCNICAS APLICADAS À ECOVILAS
3.3. SISTEMAS CONSTRUTIVOS: A TERRA
A terra é um material que está presente nas construções desde tempos remotos. Técnicas recentes mostram que o material possui valor não apenas para a autoconstrução, mas para construções industrializadas. Uma de suas maiores vantagens é a facilidade de obtenção, podendo ser retirada do próprio local de construção, o que implica em pouquíssimo deslocamento. Outras características próprias do material são a de regular a umidade ambiente, armazenar calor, não produzir contaminação ambiental, ser reutilizável e preservar materiais que entram em contato com ele, como a madeira (Minke, 2001 apud Isoldi, 2007 pág. 95).
3.3.1 Tijolo adobe
Diante da atual crise energética, as construções com terra se mostram como uma alternativa para construções mais sustentáveis. A técnica de produção do tijolo abode em sua forma vernacular é simples: a terra é amassada com os pés até formar uma mistura homogenea e, posterioemente, coloca-se o barro em formas de madeira (figura 9). A secagem é feita naturalmente, recomenda-se que a secagem dure 10 dias, virando o tijolo a cada 2. (Prompt, 2008 pág. 28).
A composição granulométrica — a porcentagem de areia, silte e argila — do solo é uma informação fundamental para a produção do tijolo, pois a partir dela, é possível verificar quais estabilizadores serão utilizados. No caso do tijolo adobe, Neves e Faria (2011 apud Azambuja, 2019) aponta para um solo arenoso-argiloso, com baixas porcentagens de silte, em que a quantidade de argila não seja muito alta.
Importante salientar que por apresentar características muito variáveis, a análise do solo é imprescindível para seu uso em construções e deve ser realizada com acompanhamento técnico especializados (PROMPT, 2012).
Vários estudos atuais vêm aperfeiçoando a técnica vernácula, que pode chegar a um melhor desempenho acerca de sua impermeabilização, essencial para locais de climas úmidos, como o do Paraná. O estudo do uso de biopolímeros vegetais em
Figura 9: processo de fabricação.
Fonte: Curso de Bioconstrução.
Figura 10: Processo de secagem. Fonte:
Archdaily.
adobe para sua estabilização vem sendo frequentes na América Latina (AZAMBUJA et. al. 2019).
A partir de ensaios de resistência a compressão e absorção de água realizados por Eires (2012) utilizando diversos estabilizadores como a cal virgem hidratada, cimento, aditivos minerais e biopolimeros como amido de milho e de trigo, óleo de linhaça, óleo vegetal usado, entre outros, verificou-se que os óleos contribuem positivamente para a resistência a compressão e impermeabilização. Azambuja et al, (2019) apresenta um ensaio com estabilização a partir de óleo vegetal usado e óleo de rícino, onde os tijolos produzidos foram submetidos a submersão em água por 24 horas (figura 11). Foi observado que os tijolos que receberam adição de óleos vegetais se mantiveram íntegros após as 24 horas submersos, enquanto que os tijolos sem adição desintegraram-se.
Figura 11: ensaio com óleos vegetais em tijolos adobe. Fonte: Azambuja et al, 2019
Os autores ainda mencionam que os tijolos submetidos ao ensaio estão dentro do permitido estabelecido pela norma NBR 10834 (2012) que trata da absorção de água de tijolos de solo-cimento (menor ou igual a 20%). Os tijolos de adobe podem ser usados apenas como vedação, sem uso estrutural.
Sobre o revestimento das superfícies de paredes de terra, Lisbôa (2019 pág.
18) aponta para a necessidade de melhorar as propriedades do solo quando a finalidade é a argamassa, para diminuir o aparecimento de fissuras. O uso do cimento como revestimento acentua as patologias, pois a terra tem propriedade porosa, diferente do cimento, que dificulta trocas gasosas entre a parede e o meio – o resultado é o armazenamento de água dentro das paredes – provocando descolamento.
A composição granulométrica ideal para utilização de argamassa é, segundo Neves et al. (2009 apud Lisbôa), “30-80% de areias, 0-40% de silte e 20-35% de argila”. Caso o solo não seja adequado, deve-se utilizar estabilizantes. Lisbôa (2019 pág. 51) aponta para os resultados de pesquisas feitas com uso de cal e óleos:
Misturas com cal podem ser aplicadas em parede de terra (internas ou externas) e, as misturas de cal e óleo, podem ser aplicadas em paredes externas, podendo até mesmo ser dispensado o acabamento final em climas severos. Assim sendo, a cal é utilizada como aglomerante básico no tratamento das superfícies porosas como as paredes de terra, devido a sua principal vantagem nas trocas de umidade entre as faces internas e externas do edifício.
Kanan (2008 apud Lisbôa, 2019 pág. 51) aponta para várias vantagens no uso da cal em revestimentos de terra, como: rápida absorção e secagem de água;
conservação da construção, uma vez que impedem a deterioração do esqueleto ao absorver a agressão das intempéries; flexibilidade, por sua resistência mecânica e processo de cura mais lenta; durabilidade, pois envelhecem sem provocar danos e possibilitam a manutenção periódica; possui boa inércia térmica. Lisbôa (2019) ainda aponta para a caiação como etapa final, visando a estanqueidade de água da chuva.
Outros métodos de proteção da ação das chuvas e absorção da água são os telhados – popularmente chamados de “chapéu” da construção – e o embasamento e fundação – chamados de “botas” – afastando a terra do contato direto com o solo. Em áreas de grande pluviosidade, é recomendada a utilização de coberturas inclinadas com beiral, evitando o contato direto da chuva através de escorrimento. Para a fundação, utiliza-se concreto ciclópico, alvenaria de pedra e concreto armado (EIRES, 2014 pág. 28).
3.3.2 Solocimento
O solocimento é um tijolo compactado, feito de argila, cimento e areia. A sua fabricação é simples e de baixo custo, podendo ser realizada no próprio local da obra.
Os tijolos não necessitam de queima para sua produção, o que diminui ainda mais o impacto ambiental – o tijolo convencional, por exemplo, requer 1 m³ de madeira a cada mil tijolos, que corresponde em média a seis arvores (PROMPT, 2008 pág. 36).
A proporção entre solo e cimento varia entre 1:10 a 1:14, ou seja, 1 balde de cimento para 10 de solo, por exemplo. A mistura é feita no chão, formando uma camada de 20 a 30 cm de altura, até que se forme uma mistura homogênea. Para verificar o ponto de umidade do material, pode-se realizar testes simples como apanhar um punhado da mistura na mão e verificar se a marca dos dedos permanece no material após apertar – outra forma, é soltar o punhado do material de uma altura de 1 m do solo e observar se ao chocar com o solo o material deve esfarelar, caso contrário o material está muito úmido (PROMPT, 2008).
O tempo para realização da prensa (figura 12) do material após a mistura e peneiração é de aproximadamente 1 hora. Após a prensa, os tijolos devem ser curados à sombra, e empilhados até a altura de 1,5 m, depois de seis horas a sombra os tijolos devem ser mantidos úmidos para que não trinquem – o processo de cura dura em média sete dias (PROMPT, 2008).
3.4. SISTEMAS ESTRUTURAIS: O BAMBU