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CAPÍTULO 3 – DESIGN COMO PROCESSO

3.2 Sistemas de compreensão

Figura 17 - Ugo la Pietra

Outro nome relevante dentro no Design Radical foi o do arquiteto, diretor, cartunista, artista, professor e designer Ugo La Pietra, que é assim apresentado no catálogo da exposição Design Radical de 1972: “Suas pesquisas se concentraram não

36 'The metamorphoses that the object must undergo are those charged with the values of myth, sacredness, and magic by the reestablishment of relations between production and use, going beyond the fictitious links between production and consumption ... The alternative image (which is, then, the hope of an image) is that of a more serene, relaxed world, in which actions find their full meaning, and in which life is possible with only a few more or less magical implements. Objects like mirrors — that is, reflection and measure'

apenas em problemas práticos de produção em massa e nos usos de novos materiais, mas também em problemas teóricos relacionados à morfologia e ao papel social do design” (MOMA, p.224).

O trabalho aqui selecionado trata de parte de sua série de “sistemas desequilibrantes”. Mais particularmente analisaremos “Il Commutatore”, trabalho sobre o qual Ugo la Pietra afirma em entrevista à Emanuela Quinz:

de fato, o Piano Inclinato (Commutatore) é uma espécie de manifesto programático, que alude - por meio de objetos sugestivos de desvio - à decodificação do ambiente e à superação de códigos impostos. Este programa de trabalho e pesquisa foi completado por toda uma série de intervenções (ao mesmo tempo objetos, instalações, performances), que realizei na década de 197037 (2014, p.55).

O objeto em questão, que trata de duas tábuas de madeiras retas, conectadas por um eixo central que as permite dobrar, e com apoios no chão para reclinamento dos pés, representa um objeto simples, porém de grande impacto conceitual, ao se pensar as consequências possíveis de se olhar o espaço a partir de outras perspectivas. O projeto oferece também uma contemplação meditativa. Ao se inclinar sobre as tábuas de madeira, o usuário se coloca em um posição inusitada em relação ao seu espaço circundante e pode, a partir de então, observar a realidade sob inusitados pontos de vista.

Sobre esse sistema desequilibrante, no site de Ugo La Pietra, é disponibilizada ainda a seguinte definição do objeto/proposta no portfólio do projetista:

Este objeto particular pode ser considerado como a ferramenta emblemática de todo o trabalho de pesquisa no ambiente urbano. Muitas vezes, através do seu uso, La Pietra foi capaz de ver coisas que não eram imediatamente legíveis, foi muitas vezes usado também por outras pessoas. Instrumento não apenas de conhecimento, mas também de compreensão e proposta, criado em um momento em que o chamado "design radical" construiu objetos evasivos e utópicos.38

37 en effet, le Piano Inclinato (Commutatore) constitue une sorte de manifest programmatique, qui fait allusion - par le biais d'objets fortement suggestifs - au décodage de l'environnement et au dépassement des codes imposés. Ce programme de travail et de recherche s'est trouvé complété par toute une ´série d'interventions (á la fois objets, installations, performances) que j'ai réalisées dans les années 1970.

Como aponta Bondía (2002, p. 22), conhecimento é diferente de experiência, pois com a obtenção do conhecimento não necessariamente se estabelece uma vivência intracional. Ao ressaltar o trecho acima, retirado da entrevista concedida pelo autor do objeto e do subtítulo da obra, destacamos a palavra “compreensão”, ou seja, o usuário vai buscar nessa nova perspectiva gerada na relação com o objeto uma nova forma de compreender o mundo, de se corresponder com ele, ou seja, de experienciá-lo.

Essa diferença salutar dialoga diretamente com a possibilidade de intração sobre a qual buscamos refletir nesta investigação, pois o projeto acima evidencia não apenas um “design emocional” (aos modos de Donald Norman, 2008), ou seja, um design que gera um desejo e um consumo, sem trabalhar na esfera da transformação reflexiva do usuário. O que buscamos analogamente é uma proposta de design intracional que considere as relações enquanto emaranhados de constituição mútua (como elucidado por Ingold, 2017) que permitam ao objeto modificar e ser modificado a partir da relação com o usuário, constituindo-se como uma experiência.

La Pietra explica que essa experiência que ele propõe com seus objetos deslocam o participante e os levam à descontinuidade, quer dizer, causam um movimento disruptivo que auxilia a repensar as visões tradicionais de mundo. Ainda segundo La Pietra, vemos que:

As imersões são um convite a um comportamento que se afasta da realidade para descobrir um tipo de "privacidade" que é uma separação e um meio de testar as possibilidades de intervenção por meio de elementos disruptivos que podem deslocar termos codificados e tradicionais. Desse modo, movimenta-se uma dinâmica de relação, com o comportamento livre do indivíduo dando sentido às potencialidades inerentes à presença espacial.39 (PIETRA apud MOMA, 1972, p. 226)

Questo particolare oggetto può essere considerato come lo strumento emblematico di tutto il lavoro di ricerca sull’ambiente urbano. Molte volte, attraverso il suo uso, La Pietra ha potuto vedere cose che non erano di immediata lettura, molte volte l’ha fatto usare ad altre persone. Uno strumento non solo di conoscenza ma anche di comprensione e proposta, realizzato in un momento in cui il cosiddetto “design radicale” costruiva oggetti evasivi e utopici.

Tradução construída com auxílio da pesquisadora Alice Almeida Gontijo.

39 Immersions are an invitation to a behavior that departs from reality to discover a kind of 'privacy' that is a separation and a means of testing the possibilities for intervention by way of disruptive elements

A palavra italiana commutatore40 é traduzida para o português como interruptor, mas possui também o significado de transformação, utilizada na matemática para se referir à troca de fatores numa operação, e na eletrônica com o sentido de transformador de fases. O termo mutare possui em sua etimologia latina o mudar, que permite ao usuário transformar sua forma de ver o mundo.

Como Ugo La Pietra (2014) afirma, essa ferramenta incomum marca suas explorações do ambiente urbano a partir da década de 70. Trazido para o campo que nos interessa nesta pesquisa, esse objeto nos permite demonstrar a capacidade do design para possibilitar ao corpo experienciar outras formas de estar no mundo, permitindo construir, a partir dessa experiência, uma nova consciência e visão relacional do corpobjeto.