• Nenhum resultado encontrado

Sistemas de trabalho na agroindústria de Inhumas

No documento Download/Open (páginas 66-70)

CAPÍTULO II OS TRABALHADORES BÓIAS-FRIAS NA REGIÃO DO MUNICÍPIO

2.2 Sistemas de trabalho na agroindústria de Inhumas

Ao passar por um processo de modernização e diversificação da produção a partir de 1970, a agroindústria canavieira assegurou a sua expansão 6 Este é o termo utilizado por estes agenciadores, o que sugere a preocupação com a quantidade, além da desqualificação dos trabalhadores como pessoas.

7 Há alojamentos com capacidade para alojar até mais de mil trabalhadores. Em virtude da ocorrência de “quebra-quebras” nos barracões, as usinas construíram no meio dos canaviais, longe das cidades, alojamentos para os migrantes.

para além das regiões tradicionalmente produtoras. Nos últimos anos esse processo de modernização ganhou mais visibilidade graças às condições favoráveis do açúcar e do álcool no mercado internacional e pela entrada dos investimentos internacionais nesse setor. Com as mudanças alteraram a dinâmica do mercado de trabalho, as formas de seleção, os tipo de contrato de trabalho, a organização do trabalho agrícola e o perfil dos trabalhadores (NOVAES, 2007).

A empresa Centroalcool continua priorizando a contratação dos trabalhadores migrantes para o seu trabalho na safra de cana. A razão principal da preferência é por esses trabalhadores se dá devido a elevados níveis de produtividade no corte de cana. Eles foram habituados desde criança, ao trabalho duro na terra para assegurar a sobrevivência da família. O trabalho nos canaviais não os amedronta, mesmo quando as exigências impostas os colocam no limite da sua capacidade física que com o passar do tempo deteriora seu corpo. Caso semelhante ao do meu pai, migrante da Bahia que veio para Goiás em busca de melhores condições de vida. Aqui chegando enfrentava de tudo, não tinha medo de nada, parecia que não tinha pena nem de si mesmo. Todo empregador o queria, e ele ainda ficava agradecido. Parece que perde até as saudades da família que deixou para traz, mãe, pai e irmãos, lembro que depois de um longo tempo ele mandava alguém escrever uma cartinha para seus pais, que vieram falecer tempos depois e ele não voltou mais a sua terra natal devido a sua condição financeira.

Existem dois sistemas de corte de cana o mecanizado e o manual. Em Inhumas a empresa usa 80% o sistema manual por possuir apenas duas máquinas para o corte de cana de açúcar em todo o município e mesmo assim não faz o serviço completo em terrenos acidentados sobrando para os cortadores. Segundo informações do Sindicato Rural dos Trabalhadores de Inhumas, para o corte mecanizado os critérios de seleção estão relacionados à especialização, à escolaridade e ao local de moradia próximo da usina. A seleção dos trabalhadores funciona com a integração de diferentes especializações dos mesmos tais como: motoristas, tratoristas, operadores de máquinas, mecânicos e outros. Esses especialistas são contratados diretamente pela usina mediante o contrato de trabalho por tempo indeterminado, e que assegura além dos direitos trabalhistas básicos, o seguro desemprego quando houver demissão.

Segundo Scopinho (1999), a exploração e as doenças a que estão sujeitos esses trabalhadores, o ritmo e a jornada excessiva de trabalho são

67

determinados pela capacidade operacional das colheitadeiras e não do trabalhador. Com isso, essa mão de obra encontra-se subordinado a usina e continua sendo explorados na realização do trabalho.

No sistema manual de corte de cana, as exigências na seleção são outras e o tipo de contrato é por tempo determinado. Nesse contrato, os trabalhadores não recebem, por lei, o seguro desemprego no final do contrato. Para a seleção dos trabalhadores, a indústria prioriza os critérios de habilidade da pessoa, a destreza, a força e a resistência física, fatores fundamentais para assegurar o aumento da produtividade o que caracteriza a intensificação do ritmo de trabalho. O local de moradia é outro requisito básico, de preferência que seja distante do local de trabalho e até mesmo de outras regiões, sendo que na sua maioria são do norte e/ou do nordeste e moram em alojamentos. Na cidade de Inhumas, os trabalhadores ex-migrantes moram na periferia da cidade, enquanto que os canaviais ficam distantes espalhados por todo o município.

Segundo os próprios trabalhadores, estas características é o perfil condizente para a Centroalcool. Em conversa com um cortador de cana, na cidade de Inhumas, obtive um relato que ilustra a exploração dos trabalhadores explicita nessa pesquisa, a sua origem é de Santana (Bahia), relatou que sua procedência desde criança é lidar no árduo e duro trabalho da agricultura em sua região de origem, e que o trabalho no canavial não o assusta (próprio autor, Inhumas, 03/12/2013). E ainda segundo ele, “a usina nos prefere por sermos mais dedicados ao trabalho e gratos à empresa pela a oportunidade do emprego”, inexistentes em suas regiões.

Dentre o contexto da modernização e intensificação da produção, existe a introdução de novas formas de controle do trabalho no corte da cana, dentre elas destaca-se o ganho por produção, pela metragem e pesagem da cana cortada. Tornando-se assim, a lógica da eficiência do corte manual: “Quanto mais se corta, mais se ganha” (NOVAES, 2007). Para serem selecionados pela usina, os candidatos terão que cortar no mínimo dez toneladas de cana/dia. Caso contrário, eles serão demitidos. Geralmente essa demissão ocorre até sessenta dias após a admissão

Isso impõe aos trabalhadores durante a safra a obrigação de obterem o máximo possível de produção/dia, diante da incerteza sobre o futuro imediato. Embora durante a safra os trabalhadores tenham expectativa de trabalho e renda de

oito meses, precisam ter renda para garantir os outros quatro meses que faltam para o término do ano. Com essa incerteza sobre o futuro e o quanto receberão pelo trabalho executado o faz a ultrapassar os limites de suas forças causando-lhes câimbras e a doenças principalmente de coluna e pulmão (ALVES; NOVAES, 2007).

O autor relata que o pagamento por produção na cana diferencia-se de outras formas de pagamento por produção, porque na cana os trabalhadores não sabem, a priori, o valor da sua colheita/dia. Na maior parte dos pagamentos por produção, os trabalhadores trabalham por peça produzida, e estas têm o seu valor fixado antes da realização do trabalho. O valor da cana cortada só é conhecido depois que o trabalho é realizado e outra depende de uma conversão de valores que é realizada pela empresa à revelia dos trabalhadores (ALVES; NOVAES, 2007).

O corte de cana de açúcar não limita apenas à atividade de retirada do solo da cana existente num retângulo (eito) de seis metros de largura por um comprimento (6/1) que depende da resistência do trabalhador. Mas envolve outras atividades como: limpeza da cana, com a eliminação da palha que ainda permanece nela; retirada da ponteira; transporte da cana cortada para a linha central do eito; e arrumação da cana depositada na terceira linha em esteira, (forma de esteira) ou em montes separados um do outro por um metro de distância.

O corte de cana é realizado nas lavouras sob o sol. O trabalhador porta uma vestimenta composta por camisa de manga comprida, calças de brim, perneiras de couro até o joelho contendo três barras de ferro frontais, de botas com biqueira de ferro, chapéu, lenço no rosto e pescoço, óculos e luvas de raspa de couro. Para realização dos cortes são utilizados, os equipamentos: um facão, ou podão de metal com lâmina de meio metro de comprimento, mais uma lima. Como trabalho é realizado sob o sol levam a um elevado dispêndio de energia, o que por si só são elementos prejudiciais à saúde. E o mais agravante ainda é que o trabalhador só vai saber de sua produção depois do trabalho realizado.

Na observação feita na cidade de Inhumas, trabalhadores pareciam que tinham tomado chuva, devido ao suor despendido pela força do trabalho. Alguns quando iam tomar água nos tambores lavavam o rosto e jogavam um pouco sobre o corpo, dizendo que era para dar uma refrescada. Quanto ao salário citado anteriormente, são mais bem remunerados os que têm disposição e maior força física, por produção metros/dia.

69

No documento Download/Open (páginas 66-70)