5. Os Novos Desafios da Sociedade Pós-Industrial
5.2. Dos Clusters aos Sistemas Regionais de Inovação
5.2.2. Sistemas Regionais e Nacionais de Inovação
Na visão recente das capacidades de inovação diferirem no território, os estudiosos primeiramente incidiam nos sistemas nacionais de inovação65
. No início dos anos 90 mostram interesse crescente na dimensão regional da dinâmica da inovação66, em resultado das disparidades regionais existentes na UE apesar da globalização. É por isso que a dimensão política da inovação tem ganho relevo, no quadro dos sistemas regionais de inovação. Dado que os países continuam com as suas agendas cheias de programas e projectos de inovação, estes sistemas tornam-se instrumentos de análise importantes. Efectivamente, os estudos sobre o gap tecnológico entre as regiões da UE sugerem uma relação positiva entre a performance económica regional e a inovação (nos vários indicadores: patentes, despesa em I&D, emprego em I&D).
Um sistema regional de inovação (SRI) pode ser definido como um conjunto de relações económicas, políticas e institucionais que ocorrem numa dada área geográfica e que geram um processo colectivo de aprendizagem, conducente à rápida difusão do conhecimento e das melhores práticas (Nauwelaers e Reid, 1995). Entre os estudos sobre SRI, salientam-se os de Cooke (1996), Asheim e Isaksen (1997), Braczyk et al. (1998) e de Patel e Pavitt (1999)67. Outros estudos relacionados, que realçam a dinâmica de inovação em sistemas industriais de regiões específicas, são os de Porter (1990) e Storper (1995)68, e ainda os de Cooke e Morgan (1994) sobre os clusters industriais de Silicon Valley; 3ª Itália e Baden-Württemberg.
65 É o caso de Freeman e Dosi, autores referidos em Avermaete (2004). 66 Tais como Cooke e Lundvall, autores referidos em Avermaete (2004). 67
E ainda os estudos de Landabaso e Higgins, autores mencionados em Braczyk et al. (1998).
Trata-se de sistemas complexos que, muitas vezes, se identificam com meios inovadores, distritos industriais e clusters industriais (Karaömerlioglu, 1998). Também Camagni (1991) os relaciona com “meios inovadores”; Porter (1990) com “clusters industriais”; Maillat (1991) com “políticas de inovação regional”; Cooke e Morgan (1994) com “redes de negócio”; Camagni (1995) com “redes de inovação” e com “complexos tecnológicos” especializados69
. Para Grosjean e Crevoisier (1998), os SRI são subsistemas territoriais de produção que podem coexistir numa mesma área ou região, não havendo um modelo único para os mesmos (Nelson, 1993). Devem ser “contexto-sensitivos” e interdisciplinares (Storper, 1996), de modo a cruzar conceitos e experiências desenvolvidas em diferentes áreas-sistema, desde os complexos regionais e tecnopólos às redes de negócio e transferência tecnológica70
.
Por outro lado, os sistemas nacionais de inovação (SNI) dão uma ideia da complexidade de que se reveste a dinâmica da inovação a nível nacional. Os trabalhos mais conhecidos sobre SNI são os de Lundvall (1992) e Nelson (1993). Podem considerar-se como componentes integrantes de um SNI quatro subsistemas fundamentais (Leoncini, 1996), cuja interacção dinâmica gere os fluxos do processo global de difusão da inovação71
: Tecnológico; Industrial; Mercado e Institucional. Karaömerlioglu (1998) define um SNI como sendo um conjunto de elementos e relações responsáveis pela produção, difusão e utilização de novo conhecimento com utilidade económica e cuja origem é delimitada pelo estado nacional. Por sua vez, os SRI fazem parte integrante de um SNI, na medida em que compreendem os processos tecnológicos no seio de uma área local, onde existe uma aglomeração de empresas ou indústrias. A figura seguinte mostra os elementos que em geral compõem um SNI:
69 E ainda Meyer-Krahmer com o conceito de “potencial de inovação regional” e Eright (1996) com o de
“clubes industriais”, autores referidos em Braczyk et al. (1998).
70
Saxenian; Scott; Cooke e Morgan, autores mencionados em Braczyk et al. (1998).
Figura 5.2.2.1 – Principais Elementos de um Sistema Nacional de Inovação
Fonte: Laranja (1999)
Legenda:
Funções
- Hard Functions: I&D e prestação de serviços científico-tecnologicos;
- Soft Functions: Transferência tecnológica; difusão de conhecimento; normas de implementação
(standards; certificações); financiamento; treino; coordenação profissional; entre outras.
Componentes
- Organizações: científicas (laboratórios; centros de investigação); de ligação (centros de inovação; parques tecnológicos); sociais; normativas (standards; certificações); políticas (ministérios; concelhos nacionais); burocráticas (agências públicas; centros de ciência); educacionais; financeiras; empresas/sectores de negócio;
- Instituições: Formais – Patentes; leis; critérios para alocação de recursos para I&D Informais – Normas de comportamento (convenções); códigos de conduta
Ligações
Com mediação do mercado – transacções
Sem mediação do mercado – fluxos de informação; conhecimento; qualificações
A fim de operacionalizar convenientemente um SNI, devem considerar-se dois grandes grupos de matrizes (Laranja, 1999):
Funções Componentes Ligações Hard functions Soft functions Organizações Instituições (Formais/Informais)
Com mediação do mercado
Sem mediação do mercado Sistema Nacional de
1) Matriz Geral do Sistema - compreende as Funções e as Organizações Componentes; 2) Matrizes de Inter-Relações – compreendem as inter-relações entre as:
2.1) Funções do Sistema de Inovação e a Capacidade Tecnológica Empresarial; 2.2) Funções do Sistema de Inovação e os Padrões de Inovação Sectoriais.
Apresentam-se em anexo (Anexo I) esquemas-exemplo destes grupos de matrizes, com aplicação ao caso português. Para operacionalizar estas matrizes no terreno, a fim de reunir a informação necessária sobre o estado e evolução dos sistemas para a inovação das empresas objecto de estudo, os dados devem constar de um inquérito específico cujas questões incidem sobre as variáveis que devem figurar nessas matrizes. A ideia fundamental consiste em observar o conjunto de mecanismos e actividades desenvolvidas, de forma agregada para cada função por diferentes componentes. No nosso país, os principais obstáculos a este nível referem-se a aspectos relacionados com:
- a formação e treino, havendo necessidade de incentivar programas de especialização a um nível pós-graduado e de aumentar o nível de formação tecnológica com enfoque no cliente e desconcentrada para sub-regiões;
- os fundos de capital, havendo necessidade de aumentar as ligações com capital de risco, parques, bases e centros de incubação, treino de gestão;
- a tecnologia, havendo necessidade de adequar procura e oferta e não dar demasiado ênfase a uma delas. Em Portugal, dá-se mais ênfase ao lado da oferta e menor relevância a aspectos de procura, sobretudo relacionados com a capacidade de: encurtar projectos, levar a cabo auditorias, efectuar benchmarks, incentivar a formação em gestão de parques e centros de inovação e a criação de interfaces para difusão de informação entre sistemas científicos e PME, para adequação às reais necessidades destas bem como da região onde estão inseridas (Laranja, 1999; Heitor, 1999).
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