• Nenhum resultado encontrado

5.2 ANÁLISE DO CURSO DA AÇÃO NA COLHEITA CANAVIEIRA MECANIZADA

5.2.1.1 Situação #1: Abertura de eito com o operador 1

A pedido do líder, o operador 1 deu início a abertura de um eito, na altura definida pela liderança. Enquanto esperava o tratorista chegar, a colhedora entrou na rua, iniciando o corte da cana, a qual ficava depositada no bojo do elevador até o transbordo começar. O tratorista então chegou e, orientado pelo operador via rádio em qual lado ele deveria se alinhar, começaram a colher juntos. Não demorou para o operador 1 avisar ao parceiro (via rádio): “Oh, (nome), vamo presta atenção, se não me prensa” (Figura 5.10). Parecia que o tratorista estava com dificuldade para manter o caminho entre as linhas certas, acompanhando a colhedora. Depois de 50 segundos de operação, o operador pediu: “oh, (nome), bota 34 aí”. Depois de 1 minuto, o operador orientou: “Vá para cima29, gurizão. Vai olhando sempre o elevador, (nome), cê olha nele que cê não sai fora”. E repetia, “para cima”.

Figura 5.10 - Transbordo e colhedora abrindo eito

Fonte: Fotografia de autoria própria

O operador seguiu orientando o tratorista: “Pode colocar segunda B, primeira B, devargazinho mesmo, três por hora, quatro (km) por hora. Aí você tem mais domínio do trator (transbordo), dá mais tempo pra fazer manobra, subir e descer”. O transbordo saia amassando duas ruas ao longo do seu percurso. A máquina conseguia colher essas ruas amassadas depois.

Após três minutos adentrando o eito, o operador comentou: “aí dá para ver a rua tranquilo”. Para a pesquisadora isso não era possível. Ele se guiava pelos divisores de linha para não perder as ruas, pois a cana era forte.

O tratorista tinha que ser bom na operação:

Pesquisadora: Se não sai pisoteando tudo?

Operador 1: Anhan, pisoteando, prensando a máquina. Cê viu no começo lá como ele tava, prensando pra cá? Prensa elevador, enrosca.

P: O elevador tava quase saindo, não foi?

O1: Tive que puxar para cá, se não ia enroscar, aí ia danificar o elevador, aí pronto. Ano passado passei nervoso com essa máquina, por causa de elevador. Trocou uns três elevador.

“Enroscar” a esteira no transbordo significava que a parte de baixo da esteira do elevador podia entrar na parte mais alta da carga se eles não prestassem atenção.

A frequência com que o operador olhava para o transbordo era alta, comparada a uma operação de colheita normal. Em uma dessas verificações, o operador buzinou e avisou para o parceiro: “para cima”.

Pesquisadora: Mas o trator sofre ali, hein?

Operador 1: Sofre. Fácil não. Por isso que é bom a gente tá com a rádio num canal só os dois, pra ir ficar mais fácil de falar pra ele (...) Cê viu, no outro canal tava um converseiro, né, aí a gente vai falar, aí corta, muitas vezes não escuta. Aí dá um acidente.

Também listou os acidentes possíveis:

Pode enroscar o elevador, né, e puxar a máquina. O tratorista pode vim pra cima da máquina pegar ali no despontador, na cabine do trator. (...) Pode pegar o pneu do trator, no divisor de linha e estourar. (...) É muita coisa que cê tem que cuidar (operador 1).

Atravessou o carreador e continuou abrindo o eito do talhão seguinte, ainda alertando o colega: “um pouquinho pra cima, vem para cima” (operador 1). Ao atravessar o carreador, a plantação mudou. A cana estava acamada atrapalhando a visão das ruas. Por isso, em determinado trecho ainda da primeira linha de abertura, o operador percebeu que estava “cortando” rua. Deu ré até achar o ponto onde tinha se desalinhado, e retornou a colher a rua perdida. Pelo vídeo registrado, acredita-se que ele conseguiu distinguir seu erro através do traçado das rotas da colhedora e do transbordo pelo retrovisor, já que o tratorista, acompanhando-o, também se desalinhou das ruas que estava amassando.

Antes desse evento acontecer, o primeiro transbordo tinha sido substituído por um segundo vazio. Passado um tempo colhendo com a nova tratorista, o operador comparou: “viu que ela é melhor para abrir eito do que o outro? Então, não prensou nenhuma vez até agora o elevador” (operador 1). A atual tratorista tinha três anos na função, enquanto o primeiro era mais novo no serviço. A frequência com que o operador olhava para o transbordo era menor, comparada ao primeiro parceiro. Quase nunca ele olhava.

Mais adiante, outro tratorista foi alocado, um terceiro, porque o segundo transbordo começou a falhar mecanicamente. Os colegas diagnosticaram que algum sensor do veículo deveria ter sido deslocado e, por isso, a falha.

O operador seguiu abrindo o eito até que a rua que colhia findou em um carreador de dematação. Ele suspendeu a suspensão da colhedora e fez a manobra no carreador, e mandou o tratorista sair mais à frente para fazer a manobra ali também. Então manobraram (180°) e voltaram para a rua adjacente à que eles colheram antes. A Figura 5.11 mostra a colhedora esperando o transbordo finalizar a manobrar: a seta vermelha indica a linha de cana que tinha acabado de ser colhida e a linha azul indica o carreador de dematação.

Figura 5.11 - Dematação

Fonte: Fotografia de autoria própria)

Quando o transbordo se emparelhou ao seu lado direito, retomaram a colheita.

Não tem problema não (se referindo a surpresa de ter encontrado a dematação). Vou tirar umas quatro ou cinco ruas desse lado aqui (esquerdo), aí depois eu começo a levantar aquelas ruas (as ruas amassadas do lado direito, o lado do transbordo) (...) Agora vou tirando de uma em uma, até dá espaço para caber um trator aqui (operador 1).

Quando o transbordo coubesse, eles trocariam de lado na operação. O tratorista então se posicionaria nas ruas já colhidas e a colhedora, nas ruas amassadas.

Operador 1: Um pouco, mas aqui tá bom, a cana não tá muito forte. Tem lugar que é mais fechado, que você não vê nada. Tem vez que você corta umas rua, hein!

O operador 2 disse que gostava de abrir eito, pois dava uma “despertada”. Até 2017 as colhedoras tinham Global Positioning System (GPS) instalado, mas desinstalaram os equipamentos em 2018. “Ajudava demais o operador. Abrir eito era fácil, até tereré dava para fazer” (operador 4).