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5. EDUCAÇÃO FÍSICA ESCOLAR: análises das práticas concretas

5.1 SITUAÇÕES DOS JOGOS NAS ESCOLAS, EVENTOS POSSÍVEIS

Além das competições encontradas especificamente nos jogos praticados nas aulas de educação física, também se fazem presentes nas escolas competições mais organizadas em forma de campeonatos e que envolvem toda ou parte da escola. Nesse sentido, grande parte das escolas organiza anualmente um evento de caráter competitivo entre as turmas de alunos da própria instituição ou de outras. Podemos encontrar diversas intitulações para esses eventos como: Jogos escolares, torneios escolares, gincanas, olimpíadas estudantis, jogos internos, jogos inter-classes, entre outros onde geralmente estão incluídos os jogos desportivos coletivos como futsal, handebol, basquetebol e voleibol, pelos quais os professores de educação física são responsáveis pela organização e realização desse evento.

Essas competições são características por envolverem toda a escola em sua participação, que muitas vezes pára para a realização do evento, o qual é muito esperado pelos alunos. As turmas fazem camisetas, escolhem um nome, criam gritos de guerra, preparam uma grande abertura para o evento. Características das olimpíadas e de grandes jogos/campeonatos mundiais encontram-se presentes nesses eventos, tendo por principal

influencia os esportes, na cerimônia de abertura fazem desfiles das equipes, cantam o Hino Nacional, trazem a “tocha olímpica”, enfim tornam-se uma versão local de eventos internacionais ou nacionais. Assim as aulas de educação física viram um espaço propício para se treinar para os jogos, para formar as equipes, tudo isso visando a vitória da turma.

Geralmente acompanha esses eventos uma premiação para as equipes vencedoras com troféus, medalhas e até uma viagem para a turma campeã. Além dos prestígios e o reconhecimento na escola.

Desta forma, tendo como um dos principais objetivos a busca e desenvolvimento de "talentos esportivos" para a "Glória do Desporto Nacional", as competições esportivas realizadas nos moldes do Esporte de Rendimento, na forma como são concebidas, planejadas, organizadas e realizadas nas últimas décadas deste século, têm se configurado em verdadeiros "campos de guerra", nos quais o confronto e a figura do adversário são elementos primordiais na escolha das estratégias e comportamentos adotados face ao objetivo da conquista da supremacia, da conquista da vitória. Mesmo que essas competições e vitórias sejam irrelevantes... (BARBIERI, 1999, p. 25)

Portanto, temos motivos suficientes para conceber que a escola (ensino formal) ainda não conseguiu romper com a reprodução do modelo de competição esportiva, pelo fato de ainda mantê-la por meio dos estereótipos das competições institucionalizadas, pela ausência de um tratamento pedagógico comprometido com a educabilidade do sujeito e pela falta de compromisso da escola com os desdobramentos das competições no ambiente escolar. Quando a competição apenas acontece na escola, não existe um comprometimento intrínseco aos seus objetivos e função, nesse caso, ela apenas reproduz um sistema espetacularizado (Reverdito et alii, 2008).

O compromisso é exterior aos objetivos e à função da escola, atendendo apenas aos anseios do sistema competitivo institucionalizado e suas transgressões, repelindo de si qualquer responsabilidade pedagógica e valorizando a escravidão pelos resultados.

Castellani Filho (1988) constrói um texto que conta a história de um menino que sonhou que todos em sua escola estavam ajudando a preparar os Jogos Escolares, e que decidiram que todos poderiam jogar mesmo os que “não sabiam”, pois iam ser ajudados pelos colegas que eram mais habilidosos, e também elaboraram regras mais adequadas para aquela competição, onde todos tinham que respeitá-las, não precisando de juiz, estes eram os “Jogos de todos da escola”. Ao fim do texto o autor faz indagações interessantes como: Como você encara o sonho desse garoto? Qual a possibilidade de torná-lo uma realidade em sua escola? Quais as alterações possíveis para isso?

Isto seria possível, segundo Pereira e Silva (2004), rompendo com as simplificações pedagógicas do esporte pelo esporte, ao se inserirem momentos de troca de informações, de diálogos e de discussões sobre esta temática.

Alguns autores defendem um modelo de competição que está conceitualmente impregnado com a responsabilidade da educação do sujeito, como sendo uma competição específica da escola, integrada ao seu Projeto Político Pedagógico; um projeto maior – global e orientado para o processo, enquanto instrumento para o sujeito (Ferreira, 2000; Reverdito et alii, 2008).

Assim, se realmente acontecer dessa forma, a realização do evento não seria mais apenas de responsabilidade da educação física, mas seria uma responsabilidade de toda a escola, por isso a interdisciplinaridade é essencial (Reverdito et alii, 2008).

Nessa perspectiva, Scaglia et alii (2006), entendem a competição como um processo, que não se inicia apenas quando o árbitro apita para começar, ou encerra quando termina o jogo, mas que “desde a preparação do evento marcando o sentido de congraçamento e responsabilidade entre os alunos, passando por uma série de manifestações de relações sociais e culturais, garantindo a participação ativa e motivante de todos, em seu desenvolvimento” (apud Reverdito et alii, 2008) Diminuir-se-ia, dessa forma, segundo os autores, a ênfase sobre o produto e acentuar-se-ia a preocupação de um processo para o sujeito que aprende na e por meio da competição.

Destarte “esses eventos competitivos nas escolas podem ser transformados em “competições pedagógicas”, cientes, portanto, de suas particularidades e função educacional” (REVERDITO et alii, 2008, p.43). Portanto, “as reflexões e ações sobre as competições escolares terão de superar os modelos esportivizados, a visão do adulto em detrimento dos anseios da criança e seu caráter secundário e inferior dentro da escola” (Ibidem). Diante desse processo de transformação didática pedagógica, torna-se necessário superar determinados eventos esportivos, dentro da escola, que estimulam e tentam inculcar, segundo Barbieri (1999, p.26),

“... os valores relacionados com o vencer a qualquer preço; com a premissa de que a existência humana se fundamenta no fato de sermos sempre vencedores; com a concepção de que para alguns possuírem alguma coisa outros deverão não possuí- las ou até perdê-las; com o pressuposto de que só tem realmente valor os vencedores, os primeiros colocados etc., certamente não se adequa à filosofia, princípios e estratégias de uma educação emancipadora, integral e integradora”, a qual pretendemos”.

Dessa forma, é preciso construir os Jogos escolares com a participação de todos da escola, onde o aluno é o sujeito de grande importância e para quem devem ser pensados estes jogos, para que o sonho do menino descrito por Castellani Filho (1988) possa ser uma realidade pedagógica em nossas escolas.

5.2. SITUAÇÕES DE JOGO, SITUAÇÕES EM JOGO - “PIQUE BANDEIRA”