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No Brasil, o ensino superior9 teve como marco inaugural a transmigração da Família Real Portuguesa, em 1808. O Príncipe João VI criou, no País, instituições isoladas de ensino superior, com a finalidade de formação de profissionais, como médicos, engenheiros e advogados. Esta concepção de ensino superior centrada na formação profissional foi implementada pela

9 Luiz Antônio Cunha (1986), no livroUniversidade Temporã, considera o ensino de filosofia, teologia e

Revolução Francesa (1789), reforçada pelas medidas reformadoras de Napoleão I. Citando Cunha (1988, p.13-14):

A universidade era muito mal vista pelos revolucionários franceses, devido ao espírito corporativo quase medieval nela prevalecente, e à utilização da cultura clássica para barrar a entrada das ciências experimentais e do enciclopedismo. Em suma, a universidade era vista como um aparelho ideológico do Ancien Regime. Sucessivos decretos revolucionários, aos quais se juntou o decreto napoleônico de março de 1808, produziram profundas mudanças no panorama do ensino superior. Foram criadas a escola politécnica, a faculdade de ciências e a faculdade de letras; as escolas de medicina e de direito foram promovidas a faculdades. Essas, mais a de farmácia, foram articuladas a uma rígida regulamentação profissional. Tudo isso se justificava perfeitamente pelo positivismo difuso da burguesia francesa (avant la lettre), para quem a fragmentação da universidade em instituições de ensino profissional, ainda que formalmente pertencentes à universidade, resolvia ao mesmo tempo dois problemas: a demolição de um dos aparelhos de formação dos intelectuais da antiga classe dominante e a preparação dos novos intelectuais para a viabilização do bloco histórico em formação.

Foi este modelo de ensino superior o implantado no Brasil, a partir de 1808. Um ensino secularizado, visando à formação dos burocratas necessários ao Estado e em instituições isoladas. Para Fávero (2000a, p.19), os cursos tinham como função “(...) formar, sobretudo, profissionais para o Estado e especialistas na produção de bens simbólicos, e, num plano talvez secundário, profissionais liberais.” Dentro desta lógica, foram criadas as primeiras faculdades de medicina do Brasil. O Curso Médico de Cirurgia na Bahia foi criado pelo Decreto de 18 de maio de 1808 e, no Hospital Militar do Rio de Janeiro, a Escola Anatômica, Cirúrgica e Médica, por meio do Decreto datado de 5 de novembro do mesmo ano.

matemática nos colégios jesuítas no Brasil Colônia como ensino superior.

Cunha (1986) relata que os cursos de medicina nasceram nos hospitais militares, com o intuito de formarem médicos e cirurgiões para a Marinha e o Exército, tendo em vista a guerra da França. Nesta perspectiva, os médicos formados não se ocupavam do atendimento à população: ela era atendida pelos barbeiros e sangradores, muitos deles escravos. Exemplifica tal tendência, afirmando que na Capitania de São Paulo, em 1808, havia apenas dois profissionais formados em medicina em atuação: o cirurgião-mór das tropas e o físico-mór.

A partir de 1808, segundo Cunha (1986), o ensino superior brasileiro passou por um processo de reestruturação e ampliação10. Os estudos realizados nos cursos de filosofia dos colégios jesuítas, como a matemática, a física, a química, a biologia e a mineralogia, foram transferidos para os cursos de medicina, para a Academia Militar e, posteriormente, também para a Escola Politécnica. Portanto, durante todo esse período, o ensino superior no Brasil se constituiu dos cursos de medicina, engenharia e direito, a partir dos quais

formou-se o núcleo do ensino superior sobre o qual veio a ser edificado o que existe até hoje, ligado à sua origem por ampliação e diferenciação. (...) A independência política, em 1822, veio apenas acrescentar mais dois cursos, de direito, ao rol dos já existentes, seguindo a mesma lógica de promover a formação dos burocratas na medida em que eles se faziam necessários (CUNHA, 1986, p.76).

10 Vale ressaltar que esse processo de ampliação e reestruturação não se restringiu ao ensino superior. Com a transmigração da família real para o Brasil outras instituições passaram por processos similares, provocando alteração no panorama cultural do País. Foi construído um aparelho administrativo similar ao de Portugal, ampliou-se o aparelho militar bem como o aparelho repressivo do Estado para a manutenção da ordem interna. A produção agrícola e manufatureira foi fomentada pela política econômica joanina. E o

No processo de diferenciação dos cursos que constituíram o “núcleo do ensino superior” no Brasil, os de farmácia e odontologia, em algumas instituições - como as de Porto Alegre, Recife, Belo Horizonte, São Paulo, Rio de Janeiro, Ceará, Florianópolis -, antecederam os de medicina. O histórico das instituições de ensino na área da saúde, no período de 1832 a 1930, pode ser encontrado no Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1930,) no sítio da Fundação Oswaldo Cruz. Nesta publicação, no verbete

“Escola Livre de Farmácia e Química Industrial de Porto Alegre” encontra-se o seguinte relato:

O fato de a Faculdade de Medicina de Porto Alegre11 ter se originado de uma escola de farmácia era bastante comum na época. A partir da república, várias escolas de ensino médico de nível superior, principalmente de farmácia e de odontologia, começaram a surgir nas capitais ou mesmo nas maiores cidades dos principais estados do país. A escassez de recursos para a implantação dos cursos de medicina explica, em parte, a escolha pelos cursos menores e, por isso, menos dispendiosos. Quando se fundava um curso médico a partir dessas escolas de farmácia e odontologia, estas acabavam tornando-se apenas cursos anexos às faculdades de medicina. Em sua origem, o curso farmacêutico nasceu a partir da lei do ensino médico de 1832, que estabeleceu que ele deveria funcionar atrelado às faculdades de medicina do Rio de Janeiro e da Bahia, as únicas reconhecidas no Império.

A Escola de Farmácia de Ouro Preto era uma exceção, tendo sido criada em 1839, desvinculada do curso médico. Já o ensino da odontologia no país só foi autorizado pela Reforma Sabóia, aprovada pelo decreto n° 9.311 de 25/10/1884, como curso anexo aos cursos de ciências médicas e cirúrgicas das faculdades de medicina do Rio de Janeiro e da Bahia. Quanto à obstetrícia, desde a reforma do ensino médico de 1832 foi previsto um curso particular para parteiras ministrado pelo professor de partos nas faculdades de medicina. Pela Reforma Sabóia, a obstetrícia era também um dos cursos anexos às faculdades de medicina do Império. Logo, tornou-se costume uma mesma instituição de ensino reunir os cursos de medicina, de farmácia, de odontologia e de obstetrícia (ESCOLA LIVRE DE FARMÁCIA E QUÍMICA INDUSTRIAL DE PORTO ALEGRE, 2005, p.4).

equipamento cultural da Corte foi reproduzido na Colônia (CUNHA, 1986).

11 A Escola Livre de Farmácia e Química Industrial de Porto Alegre foi criada em fevereiro de 1896 e começou a funcionar em 1897. A criação desta escola foi facultada pela Constituição Republicana de 1891, que estabeleceu um ensino descentralizado, possibilitando aos estados organizarem o seu sistema escolar completo. No Rio Grande do Sul, o estado apenas ocupou-se com o ensino primário, liberou para a iniciativa particular o ensino secundário e superior. Tal atitude teve grande influência na Reforma de Ensino sabóia, como discute Luiz Antônio Cunha, em A Universidade Temporã(1988)

Os cursos de odontologia, como os de farmácia, não compunham o rol dos cursos superiores oficiais no Brasil, que para a área da saúde eram apenas o de medicina ministrados nas Escolas do Rio de Janeiro e da Bahia.

Eram ministrados em instituições isoladas, normalmente particulares e ocasionalmente provinciais. Quando foram oficialmente reconhecidos, passaram a ser cursos anexos às faculdades de medicina.

Essas peculiaridades marcam a trajetória histórica desses cursos no País e sua vinculação, como cursos anexos, às faculdades de medicina.