5 A CONSTRUÇÃO DA CONCEPÇÃO E PRÁTICA DA AVALIAÇÃO DO PROFESSOR COORDENADOR DE CURSOS
5.1 SITUANDO O PROFESSOR E A AVALIAÇÃO NO CONTEXTO UNIVERSITÁRIO
A voz do professor reflete os valores, as ideologias e os princípios estruturadores que dão significado às histórias, às culturas e às subjetividades definidoras das atividades diárias dos educadores. É a voz do senso comum e do senso crítico, que os professores utilizam para mediar os discursos da produção, dos textos e das culturas vividas, tal como são expressos nas relações assimétricas de poder que potencialmente caracterizam as esferas públicas78
A voz dos docentes coordenadores de cursos de formação de profissionais da educação deu a esta pesquisa o significado legítimo de sua problematização inicial, expondo de forma contextualizada uma face do pensamento docente, elemento fundamental da didática – a avaliação da aprendizagem.
O professor universitário, intelectual , fruto histórico de um contexto, de suas experiências e vivências como cidadão, como aluno, da cultura, de suas relações sociais, enfim, é ser com pensamento e concepções em permanente construção e contínuo diálogo com o mundo.
Essa rede de acontecimentos e elementos que forjam e constituem a sua concepção de mundo, de educação e de avaliação, orientam o discurso em torno de sua ação didática e as devidas teorizações. "O conjunto das experiências vividas como aluno e como professor, juntamente com as crenças, as percepções, as atitudes, as compreensões, enfim, o conhecimento construído nesta trajetória, compõe as teorias pessoais dos professores, nem sempre explicitadas, que lhes oferecem as bases - no sentido de serem guias - de sua prática pedagógica79".
Na análise de tal construção histórica, fator básico portanto é a indissociabilidade do ato pedagógico e sua manifestação nas ações de avaliação do professor universitário.
A sua prática avaliativa, concebida, desse processo de interações com seus alunos e colegas, conduz constantemente à "reflexão, aprendizagem e a mudança
78 GIROUX, H. Escola crítica e política cultural. São Paulo: Cortez, 1987.p.99.
79 MIZUKAMI, M. G. N. Práticas pedagógicas e escola. São Carlos: INEP, UFSCar, COMPED, 2002.p.77.
do professor, tanto no processo de ser avaliado como na função de avaliador, reforçando a cultura profissional dos professores no quadro de uma concepção de ensino como trabalho, ofício ou como arte80”.
Avaliação é processo de ensino-aprendizagem. Não há que se pensar o processo de ensino-aprendizagem como único, de natureza integrada. Concebê-lo ou analisá-lo dicotomicamente, somente do ponto de vista do ensino, daqueles que ensinam ou da aprendizagem, daqueles que aprendem, Seria uma análise superficial.
Quem ensina, ensina algo a alguém, portanto, as vivências e experiências do professor em seu dia a dia de sala de aula, necessariamente dizem que o é. O professor é o que pensa pedagogicamente e o que realiza didaticamente. Seu compromisso em sala de aula e em especial na formação inicial de professores está intimamente ligado com sua forma de ver e pensar o mundo. Sua prática pedagógica é o retrato mais fiel de sua identidade docente, de suas convicções e de seus compromissos acadêmicos e sociais.
O caso dos coordenadores de cursos de licenciatura é ainda mais específico, pois constituem um grupo seleto, cujo cotidiano na universidade é extremamente dinâmico e enriquecido pelas experiências de condução do projeto pedagógico, qualquer que seja o seu nível de desenvolvimento em cada uma das chamadas licenciaturas, pelas discussões curriculares, pelos fóruns nacionais e locais que discutem a natureza e especificidade dos saberes que norteiam a formação de seus licenciandos nas devidas áreas, pelas vivências administrativas, necessárias à organização de seu curso, enfim de todos os processos e espaços democráticos que reforçam seu papel enquanto peça importante para a qualidade de ensino e a abertura de espaços dialógicos nas salas de aula das licenciaturas.
Muito mais do que seu discurso, a prática pedagógica de um professor revela na dimensão de sua própria existência, as possibilidades da realização de um trabalho intelectual no sentido do enfrentamento e superação das barreiras e desvalorização dos cursos de formação de profissionais em educação.
Por sua vez, a prática avaliativa deste professor, enquanto parte de sua ação didática, revela acima de tudo, com maior especificidade, a sua relação com o
80 BORBA, A. M. Identidade em construção: investigando professores na prática da avaliação escolar. São Paulo: EDUC, 2001.p.47.
processo de produção e socialização do conhecimento, como concebe a formação inicial de profissionais em educação e as relações sociais e de poder mais tênues de uma sala de aula. Esse caleidoscópio pedagógico de idéias e ações compõe o ser educador, o fazer educação, o ser educado, processo dialógico por sua natureza, que move, pela força da rede de processos no interior das salas de aula, a Universidade em direção ao futuro.
É impossível saber que tipo de futuro a sociedade definirá, democraticamente. Mas a universidade dispõe de alguns princípios que devem nortear esse futuro: deve ser democrático; deve construir uma nação soberana interligada ao conjunto do mundo; deve buscar enriquecer culturalmente a humanidade inteira com saber de nível superior; deve superar os problemas das necessidades básicas de toda a população, abolindo o apartheid social atual.81
A avaliação no ensino superior como parte do trabalho pedagógico de professores universitários ainda é hegemonicamente prática solitária, nascente de uma concepção que traz em seu conjunto fundamentos pautados na conferência da quantidade de saberes adquiridos pelos alunos ou na superficialidade da qualidade de seu questionamento crítico, secundarizando as alternativas e oportunidades de estabelecer a unicidade entre teoria e prática, entre experiências e saberes científicos, enfim, entre a valorização da história de vida do professor em formação e do contínuo aprender e disponibilidade para o diálogo permanente entre professores universitários e seus alunos . Avaliar na Universidade é relativizar a importância do que é cobrado do aluno, é também :
considerar a capacidade de pensar e intervir na realidade, também pressupõe aptidões cognitivas e atitudinais amplas para a convivência em sociedade. Em conseqüência, a busca e a construção de sentido para o mundo se tornam o foco principal de um processo educativo. O ensino e a aprendizagem são um desafio, de vez que o aluno não pode ser visto como um depósito de conteúdos. Por isso, não bastam ao professor a competência técnica, o domínio dos conteúdos, mas também se faz necessária a sua competência pedagógica82.
Buscar novos sentidos para a avaliação nas universidades, não é tarefa solitária de professores, alunos, dirigentes ou de políticas públicas voltadas para o tema e nem tampouco no isolamento de qualquer um destes setores, que seja. Para a compreensão do quadro atual em torno das questões avaliativas é imprescindível
81 BUARQUE, C. A Aventura da universidade. São Paulo: Paz e Terra, 1994.p.236.
a análise contextualizada, crítica e permanente do cenário histórico e atual, no qual as relações sociais, nas quais o professor está inserido, para que se clareiem também todos os fatores, cujos desdobramentos explicam como o professor universitário, em especial o dirigente, coordenador de curso de licenciatura pensa sua prática avaliativa, como a conduz e como redimensiona sua reflexão cotidiana subsidiária de sua prática em sala de aula, com vistas à formação do profissional da docência: o professor.
5.2 O CALEIDOSCÓPIO FORMATIVO DO DOCENTE COORDENADOR DE