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Situando os processos de hierarquização social

No documento Travessias de gênero na perspectiva feminista (páginas 186-192)

O diálogo com a literatura e o desenvolvimento de pesquisa junto a um segmento populacional atravessado por uma diversi- dade de características sociodemográficas, levou-me a reconhe- cer a importância da compreensão da chefia feminina como um fenômeno multideterminado. Em um trabalho pioneiro, Castro (1991) já defendia a importância dos/as estudiosos/as da temática “mulheres chefes de família” estarem atentos/as ao entrelace de determinadas categorias sociais – sempre articuladas ao contexto sociopolítico –, pois significa reconhecer que a interconexão de fatores como gênero, classe, raça/etnia e geração influenciam os processos vividos pelos grupos sociais e indivíduos. Tal perspec- tiva permite entender os grupos e os sujeitos como socialmente situados, mostrando a impossibilidade de se pensar em mulheres chefes de família “genéricas”, pois elas pertencem a um determi- nado grupo racial/étnico, a uma faixa de idade/geração, têm uma determinada relação com a estrutura produtiva – que vai definir- lhe status ocupacional, nível de renda, escolaridade e ainda um certo habitus de classe (BOURDIEU, 1994) – e, portanto, viven- ciam trajetórias e experiências distintas.

Os processos de hierarquização social podem ser compreen- didos através de categorias relacionais que Britto da Motta (1999a) chama de “conjuntos” ou “sistemas de relações sociais” e cons- titui, cada um desses conjuntos, uma das dimensões básicas da vida social das quais as mais determinantes seriam as classes so- ciais, os gêneros, as idades/gerações e as raças/etnias. Assim, as diferenças, hierarquias, conflitos ou alianças expressos por essas dimensões são provisórios, implicando “lugares sociais” que se al- ternam no tempo e no espaço e esses múltiplos “pertencimentos” estão articulados, pois, como lembra Louro (1997, p. 51), “não po- dem ser percebidos como se fossem ‘camadas’ que se sobrepõem

umas às outras como se o sujeito fosse se fazendo ‘somando-as’ ou agregando-as”. Cada uma dessas dimensões funciona segundo uma lógica específica (CASTRO, 1991), mas que se interpenetram e se articulam − às vezes até contraditoriamente −, definindo di- ferentes “lugares” para os sujeitos e, portanto, possibilidades e limites para seu pensar e agir sobre o mundo.

Ao funcionarem com uma lógica própria, cada uma dessas categorias poderá ter maior ou menor peso a depender dos dife- rentes contextos (SAFFIOTI, 1994), o que significa dizer que não há uma dimensão que se sobreponha permanentemente às outras, mas que essas agem articuladamente a partir da interconexão en- tre sistemas de opressão (HILL COLLINS, 2000). Daí, ser chefe de família adulta e branca de classe média, ao invés de jovem pobre e negra, constitui dimensões que não podem ser separadas, pois uma identidade reflete e termina por reforçar a outra, integrando uma experiência que vai produzir diferentes níveis de acesso aos bens culturais e materiais, envolvendo aspectos desde a auto-es- tima até a possibilidade de realização de projetos de vida.

Crenshaw (2002, p. 177), através da noção de intersecciona- lidades, ressalta a potencialidade desses eixos de opressão de se interceptarem, redefinindo-se mutuamente, cabendo, portanto, ao/à pesquisador/a buscar “capturar as conseqüências estruturais e dinâmicas da interação entre dois ou mais eixos de subordinação [...] que estruturam posições relativas de mulheres, raças, etnias, classes” e grupos de idade (completo eu) e que irão “constituir aspectos dinâmicos ou ativos do desempoderamento” de muitas/ os (mulheres, negros/as, idosos/as minorias sexuais), ou inversa- mente, do empoderamento de outros/as (homens, jovens adul- tos/as, brancos/as, heterossexuais).

Acredito que a adoção de perspectivas de análise interseccio- nais permite expandir o foco de análise para além de uma mera descrição de similaridades e diferenças entre os sistemas de opres-

são, focalizando, prioritariamente, as formas como eles se entre- laçam e os estudos sobre relações de gênero são exemplares nessa perspectiva de dar conta da interface de um conjunto de relações que dão sentido à vida social. Já bastante discutido e consolidado como importante campo de análise e teorização do mundo social, gênero torna-se uma categoria importante para o entendimento de como as sociedades humanas construíram e interpretaram as diferenças entre os sexos e, simultaneamente, permite seu ques- tionamento “a partir dos vários espaços em que ele se constrói: a família, o mercado de trabalho, as instituições, a subjetividade” (SOUZA-LOBO, 1991, p.79).

No entanto, como bem lembra Sorj (1993, p.6): “nem tudo é uma questão de gênero...”. Mesmo quando o objeto de um estudo tem como eixo principal relações de gênero, faz-se ainda “ne- cessário trabalhar com outras categorias sociológicas como classe, etnicidade, gerações sociais, que nos alertam para a diversidade de experiências”. Assim, o trabalho de pesquisa junto a mulhe- res chefes de família tem me permitido compreender a relevância teórico-metodológica e o caráter heurístico da categoria geração para o deslindar das relações em curso nesse contexto. Por outro lado, contrariamente, na busca de compreensão da trama das in- terseccionalidades, essa categoria ainda não é vista consensual- mente com o mesmo estatuto teórico atribuído a gênero, classe ou raça, a despeito de seu poder explicativo no tocante à constru- ção social da periodização das experiências dos sujeitos. E o ar- gumento basilar daqueles que criticam o seu uso como dimensão fundante da vida social, se sustenta na idéia de que gênero, classe, raça/etnia “produziriam polaridades e ou contradições, enquanto geração seria apenas hierárquico”, como denuncia lucidamente Britto da Motta (2000, p. 6). Em outras palavras: tratar-se-ia de uma contradição “menor” que, ao operar numa lógica distinta, não seria geradora de processos de diferenciação entre os indi-

víduos, mas ao contrário, tenderia a homogeneizar experiências, podendo inclusive, “diluir” diferenças, como por exemplo, de gê- nero ou classe.

Em um instigante trabalho intitulado Geração, a diferença do

feminismo, Britto da Motta (2000, p. 5) dialoga com o feminismo,

denunciando a invisibilidade dessa categoria para um movimen- to teórico e político cuja característica predominante historica- mente, lembra, com fina ironia, tem sido a “antiga sintonia com o tempo social” – isso, num momento em que, completa, pro- vocativa, as próprias feministas históricas vivenciam sua condi- ção etária de mulheres que “já não são mais tão jovens...”. Mas, não são apenas as feministas que resistem a reconhecer “o lugar” do par conceitual idade/geração como categoria ontológica e re- lacional. Das mais variadas matizes teóricas são dirigidas críticas aos “limites” do poder explicativo dessa categoria, apresentada com uma pluralidade de sentidos – em parte decorrente da nebu- losidade das diferenças em torno do modus operandi de grupos de idade e de geração – e, em alguns contextos, simplificada em seus processos de diferenciação social, referindo-se prioritariamente à formação de coletivos etários marcados pela co-existência em um mesmo tempo social.

Importantes analistas sociais apontam para a necessidade de considerar que o conceito opera, exatamente, numa dire- ção oposta àquela sinalizada pelos seus detratores, pois, inver- samente, articula uma diversidade de marcadores, reforçando a “convergência sincrônica” dos processos de hierarquização so- cial segundo Sarmento. Portanto, “geração não dilui os efeitos de classe, de gênero ou de raça na constituição das posições sociais dos sujeitos”; ao contrário, articula-se a esses outros marcadores, “numa relação que não é meramente aditiva nem complementar, antes se exerce na sua especificidade, activando ou desactivando parcialmente esses efeitos” (2005, p. 3).

Assim, uma das dificuldades de trabalhar geração decorre de sua alegada imprecisão teórica e dos obstáculos para a demarcação do seu objeto. Importa, portanto, ainda que brevemente, inven- tariar algumas contribuições para pensar a amplitude de sentidos e contextos envolvendo geração e que terminam por dar corpo a uma Sociologia das Gerações.

Uma das mais importantes contribuições a esse campo de es- tudos é o trabalho de Mannheim (s.d.), originalmente publicado em 1928, onde o autor sinaliza com um conceito de geração en- quanto um fenômeno cultural que corresponderia à partilha, en- tre pessoas nascidas em uma mesma época, dos mesmos fatos e acontecimentos históricos – o que geraria uma certa experiência e consciência comum durante todo o curso da vida. Este sentido tem sido mantido na Sociologia das Gerações e parece ser o mais consensual entre os cientistas sociais que trabalham com esta no- ção de geração associada a um grupo etário com uma identidade comum – as gerações “da resistência à ditadura”, da “revolução sexual”, “pós-queda do muro de Berlim”, entre outras.

Outros autores, como Grun (1999), vão problematizar esse sentido de geração, inserindo alguns elementos críticos, ao refle- tirem que esse senso partilhado de pertencimento pressupõe, ne- cessariamente, um “meio social relativamente homogêneo”, além de “expectativas de futuro análogas”, o que se torna bastante raro nas sociedades do presente, com seu elevado nível de complexi- dade das relações sociais. Dessa forma, afirma a esse respeito:

Diferentes agentes, coetâneos, cronologicamente, irão divergir fortemente na sua idade social, a medida em que as diferentes classes sociais e mesmo os grupos dentro delas dão um signifi- cado diverso e periodizam, também de forma diferente, as várias etapas da vida pessoal de seus membros. (1999, p.72).

Com essa consideração, o autor sinaliza para a possibilidade de pensar conflito de gerações não apenas num sentido de “en-

tre” diferentes gerações, mas também numa dimensão “intra”, isto é, dentro de uma mesma geração, o que reforça a idéia de que as experiências de idade/geração são atravessadas por outras hie- rarquias, reforçando assim os processos de diferenciação social. Ainda assim, não se pode negar que geração tem um grande peso na construção das identidades, também no sentido de que per- mite o encontro entre duas histórias – a individual e a coletiva, como bem lembra Peçanha e Morel. A esse respeito, comentam as autoras:

O conceito de gerações sociais chama a atenção para a dimensão coletiva das biografias individuais. Nesse sentido, o fator rele- vante na sua definição não seria o ciclo biológico dos indivíduos, mas sim a vivência comum de experiências históricas significa- tivas (1991, p.70).

Bourdieu (1983, p. 112-113), em seu breve e inspirado texto, de nome sugestivo – A ‘juventude’ é apenas uma palavra –, vai lembrar ainda que o que chamamos de gerações, expresso nas di- visões entre as idades são meramente arbitrárias, pois são passí- veis de manipulação segundo os interesses dominantes. “Somos sempre o jovem ou o velho de alguém. É por isto que os cortes, seja em classes de idade ou em gerações, variam inteiramente e são objetos de manipulação”, visto que são socialmente construí- dos através das lutas entre os diferentes grupos sociais em disputa pelo poder e por privilégios.

Assim, o tempo dos indivíduos, vivido simultaneamente como idade e geração, é tempo biográfico e tempo histórico, como re- flete Britto da Motta (2000, p. 7). Portanto, através desta noção de tempo social é que nos situamos numa “linha cronológica” – enquanto criança, jovem, adulto ou velho – como “categorias ou grupos de idade” aos quais são permitidos ou vedados desejar, ex- pressar ou “realizar, ou não, tal ou qual ação social”.

Gênero, geração e família: o caso das mulheres

No documento Travessias de gênero na perspectiva feminista (páginas 186-192)