4.4 Percepção dos entrevistados sobre a atuação dos comitês de auditoria
4.4.2 Sob a perspectiva dos membros dos comitês de auditoria
De acordo com o roteiro de pesquisa detalhado no capítulo 3.2 Coleta de dados: estratégia, instrumento e dinâmica; aplicado aos membros dos comitês de auditoria, a seguir são apresentadas e discutidas as principais percepções envolvendo a importância do comitê de auditoria para as boas práticas de governança corporativa nas instituições financeiras.
É entendimento dos membros dos comitês de que ambos os comitês de auditoria analisados possuem uma estrutura e uma forma de atuação semelhante. No início das atividades dos comitês não havia uma estrutura de atuação estabelecida, sendo que aos poucos se criaram um método e procedimentos de atuação com agenda pré-definida.
Como principais funções dos comitês os membros destacaram o acompanhamento e a supervisão dos trabalhos da auditoria interna e externa atentando para os aspectos relacionados à qualidade, objetividade e independência de atuação, como forma de garantir o fechamento do processo contábil; acompanhamento dos processos de monitoramento e de gestão dos riscos; prevenir a ocorrência de fraudes corporativas e apoiar o conselho de administração.
Os comitês de auditoria não possuem funcionários, sendo que o bom funcionamento depende substancialmente do apoio das áreas de Auditoria Interna, Gestão de Riscos, Controladoria e Contabilidade. Além dessas áreas, a eficácia dos trabalhos do auditor externo contribui de forma relevante para o atingimento dos objetivos. Garantir a qualidade, objetividade e a independência dos trabalhos da auditoria interna e externa é um fator crítico de sucesso. Esse controle é exercido através da discussão do planejamento anual dos trabalhos, dos principais riscos, e do resultado dos trabalhos. Além disso, o comitê avalia os auditores internos e externos quanto à capacidade técnica do quadro de profissionais,
adequação das horas de treinamento, tamanho e número de horas contratadas, utilização de ferramentas adequadas. Como forma de garantir a independência dos auditores internos e externos, a substituição ou troca somente pode ser feita mediante prévia consulta ao comitê de auditoria.
Quanto ao estágio de desenvolvimento dos comitês de auditoria, a percepção dos membros é de que funcionam bem e que a implantação foi um grande avanço. Existe a percepção de que houve uma importante evolução na cultura de controle das instituições financeiras, para as quais os CEOs passaram a dedicar mais tempo e investimentos na discussão sobre a melhoria do ambiente de controles internos, sendo que a própria certificação da seção 404 da SOX consistiu em uma grande contribuição nesse sentido.
No que se refere aos benefícios da implantação dos comitês de auditoria para o público relacionado das instituições financeiras, de acordo com a percepção dos membros dos comitês de auditoria podem ser destacados os seguintes principais benefícios: (i) para os colaboradores houve um avanço na mitigação das fraudes corporativas com a criação do canal de denúncia, com garantia de preservação do sigilo do denunciante, onde todos podem apresentar denúncias sobre fraudes, procedimentos inadequados ou mesmo desvios de condutas; (ii) para as instituições financeiras o comitê contribui para o fortalecimento das funções dos auditores internos e independentes, reduzindo os conflitos de agência; (iii) para o mercado de capitais existe a percepção de melhora no disclousure e qualidade das demonstrações financeiras e suas respectivas notas explicativas com a adoção das boas práticas de governança corporativa, notadamente para os investidores institucionais e estrangeiros que reconhecem e valorizam a função dos comitês. Entretanto, existe a percepção de que os representantes dos fundos públicos preferem ter assento no conselho fiscal, pois ainda não confiam nos processos das organizações; e (iv) como benefícios para os órgãos reguladores (BACEN) a percepção dos membros é de que a implantação dos comitês de
auditoria constitui-se em um importante canal de discussão e para exigirem providências sobre as coisas que precisam ser melhoradas. Além disso, a supervisão dos comitês sobre as atividades dos auditores internos e externos é um fator positivo que assegura o cumprimento das normas internas e externas, qualidade do ambiente de controles internos e a confiabilidade das demonstrações financeiras.
A implantação dos comitês de auditoria introduziu uma nova dinâmica nas rotinas dos principais executivos, notadamente no que tange a maior necessidade de conhecer, discutir e assumir a responsabilidade pela gestão dos riscos inerentes aos negócios. Não basta somente cumprir o orçamento de resultados, os executivos passaram a ser cobrados sobre o gerenciamento dos riscos do negócio. No passado essas funções eram exercidas pelo conselho de administração e pelo CEO de forma pouco estruturada. Para os executivos das áreas de Controladoria, Contabilidade, Auditoria as mudanças foram ainda mais radicais, criou-se a necessidade de periodicamente prestarem contas de suas atividades de forma mais estruturada. Os comitês de auditoria contribuem para a governança corporativa assegurando a existência e o cumprimento das regras, bem como a qualidade e a transparência na divulgação das informações relevantes aos stakeholders. Contribuem também com a mitigação dos riscos de fraudes corporativas através do acompanhamento dos instrumentos de gestão de riscos e assegurando a eficácia e o funcionamento dos processos corporativos e do ambiente de controles internos.
Como medidas que poderiam ser aperfeiçoadas na legislação, os membros dos comitês de auditoria consideram a: (i) necessidade de eliminação da possibilidade da existência de comitês de auditoria formados por diretores estatutários com funções executivas, prejudicando a independência; (ii) eliminação do rodízio compulsório dos membros, deixando a critério das instituições financeiras a sua constituição, obedecendo aos critérios de independência; e (iii)
eliminação pela CVM da possibilidade de adoção conselho fiscal “turbinado” em substituição aos comitês de auditoria.
De forma geral, os membros dos comitês de auditoria consideram que os comitês de auditoria das empresas “A” e “B” possuem adequada composição, autoridade necessária para desempenharem suas funções, recursos suficientes e diligência no cumprimento de seu papel e atribuições.