3.1 HISTÓRICO DO CONCEITO
3.1.3 Soberania alimentar
Foi a Via Campesina35que trouxe para o debate público, durante a Cúpula Mundial da Alimentação (1996) organizada pela FAO, em Roma, a concepção de soberania alimentar,
35 A Via Campesina é um movimento global que incorpora muitas organizações campesinas de todo o mundo que
tornando-a importante no debate sobre alimentação e questionando a Segurança Alimentar defendida pela FAO.
Aqui cabe registrar que a soberania alimentar é uma formulação originada no interior dos movimentos e organizações sociais vinculados a pessoas, povos e comunidades que plantam alimentos (campesinos) no mundo inteiro, e que se sentiam injustiçados pelo atual modelo de produção de alimentos. Seu desenvolvimento está atrelado à pluralidade política como alternativa ao modelo hegemônico da ditadura alimentar.
Essa perspectiva considera que, para ser livre e exercer seu direito de autodeterminação, um povo precisa ser soberano; e essa soberania pressupõe, necessariamente, o direito à alimentação de acordo com as decisões, os saberes e os modos de vida de cada território.
A soberania alimentar implica, também, na proteção dos mercados domésticos contra os produtos excedentários que se vendem mais baratos no mercado internacional e contra a prática de dumping (venda abaixo dos custos de produção). Isso se constitui numa ruptura e numa alternativa a partir das propostas dos pequenos e médios agricultores, com relação à organização atual dos mercados agrícolas posta em prática pela OMC.
Nesse sentido, para Paul Nicholson (ELKARTASUNBIDEAK, 2007), a comida não é global, a comida é local, vinculada a certas sementes, e há um modelo de produção e uma cultura. Para o autor, a identidade de um povo é sua comida e a gestão de seus recursos ambientais. É um direito de toda humanidade que a comida não seja utilizada como uma arma. Para ele, os povos indígenas e negros sempre confiaram na soberania alimentar, não davam esse nome, mas por caminhos diferentes confiavam neles mesmos para produzir o que comiam, tal e como queriam, adequando à cultura, historicamente.
São os movimentos sociais organizados internacionalmente que colaboram na desconstrução das verdades únicas impostas pelo agronegócio, afirmando o caminho da soberania alimentar como a alternativa, escolhida pelos povos e comunidades tradicionais e pelos movimentos sociais anticapitalistas, para superar a crise alimentar e a ditadura da alimentação químico-dependente.
A soberania alimentar baseada na produção para o mercado local permite que os agricultores e os consumidores tenham parte ativa das decisões sobre quais alimentos serão produzidos e como serão produzidos. Assim é possível respeitar os diferentes ecossistemas nos quais a agricultura se desenvolve de forma harmoniosa (MONTAGUT; DOGLIOTI, 2008). A soberania alimentar, portanto, situa-se no centro de estratégias de resistência à comida imposta
e de ínfima qualidade, produzida industrialmente e que destrói a natureza e arruína milhões de campesinos.
Como resultado, a soberania alimentar torna-se um conceito fundamental para articular a luta dos povos em defesa da alimentação, como um bem de valor cultural e imaterial em oposição ao seu valor como mercadoria para atender aos interesses do mercado. É uma urgente reivindicação dos povos pela sua autonomia territorial-ambiental num contexto em que a economia global é centralizada macroeconomicamente em grandes blocos supranacionais.
Após o Fórum Mundial de Soberania Alimentar (2007) em Mali, na África, onde se reuniram mais de 500 representantes de mais de 80 países de organizações de campesinos, campesinas, agricultores, familiares, pescadores tradicionais, povos indígenas, povos sem-terra, trabalhadores rurais, pastores, comunidades, consumidores, movimentos ecologistas e urbanos, essa concepção de soberania alimentar ganhou mais alguns pontos importantes. Além de ser um direito que os povos têm de produzir seus próprios alimentos, é agora também considerado um dever. Toda a população que deseja ser livre e autônoma tem a obrigação de produzir seus próprios alimentos. Portanto, é mais do que um direito, uma condição política.
Esse Fórum teve o objetivo de formar um consenso na definição de soberania alimentar para servir como bandeira de luta para toda humanidade que não é beneficiada pelo sistema alimentar hegemônico. A declaração de Nyéléni (2007) é até hoje considerada a principal definição de soberania alimentar:
A soberania alimentar é um direito dos povos a alimentos nutritivos e culturalmente adequados, acessíveis, produzidos de forma sustentável e ecológica, e seu direito de decidir seu próprio sistema alimentício e produtivo. Isto coloca aqueles que produzem, distribuem e consomem alimentos no coração dos sistemas e políticas alimentares, por cima das exigências dos mercados e das empresas. Defende os interesses de, e inclui às futuras gerações. Oferece-nos uma estratégia para resistir e desmantelar o comércio livre e corporativo e o regime alimentar atual; canalizar os sistemas de alimentação, agricultura, pastoreio e pesca para que sejam geridos por produtores locais. A soberania alimentar dá prioridade às economias locais e mercados locais e nacionais; dá poder aos camponeses e à agricultura familiar, pesca artesanal e pastagem tradicional; coloca a produção, distribuição e consumo de alimentos com base em sustentabilidade ambiental, social e econômica. A soberania alimentar promove o comércio transparente, que garante renda decente para todos os povos e os direitos dos consumidores de controlar sua própria alimentação e nutrição. Garante que os direitos de acesso e gestão de nossa terra, nossos territórios, nossas águas, nossas sementes, nossa pecuária e biodiversidade, estejam nas mãos daqueles que produzem a comida. A soberania alimentar implica novas relações sociais livres de opressão e desigualdades entre homens e mulheres, povos, grupos raciais, classes sociais e gerações (FÓRUM MUNDIAL DE SOBERANIA ALIMENTAR, 2007, tradução e grifo nosso).
A soberania alimentar é um marco diretor integral que recolhe um conjunto de princípios que protegem o espaço de autodeterminação e autonomia de pessoas, comunidades, povos e
países, para definir políticas agrícolas e alimentares, modelos próprios de produção e padrões de consumo de alimentos.
A Via Campesina descreveu sete princípios da soberania alimentar:
Quadro 2 - Princípios da soberania alimentar 1.Alimentação é um Direito
Humano Fundamental
Todos devem ter acesso à alimentação nutritiva e culturalmente adequada em quantidade e qualidade suficientes com plena dignidade humana. Cada nação deveria reconhecer o acesso à alimentação como um direito constitucional.
2.Reforma Agrária É necessária uma reforma agrária autêntica que proporcione às
pessoas sem terra e aos produtores, especialmente às mulheres, a propriedade e o controle sobre a terra que trabalham e devolvam aos povos indígenas seus territórios. O direito à terra deve estar livre de discriminação de gênero, religião, raça, classe social ou ideologia. A terra pertence a aqueles que nela trabalham.
3.Proteção à Natureza (Pachamama)
Implica no cuidado e uso sustentável dos recursos naturais, especialmente terra, água, sementes e raça de animais. As pessoas que trabalham na terra devem ter o direto de praticar a gestão sustentável dos recursos naturais e de preservar a diversidade biológica livre de direitos de propriedade intelectual restritivos.
4.Reorganização do Comércio de Alimentos
As políticas agrícolas nacionais devem priorizar a produção para o consumo interno e a autossuficiência alimentar. As importações de alimentos não devem desprezar a produção local nem reduzir seus preços.
5.Eliminar a Globalização da Fome
O controle cada vez maior das empresas multinacionais sobre as políticas agrícolas tem sido facilitado pelas políticas econômicas das organizações multilaterais como a OMC, o Banco Mundial e o FMI. Se requer a regulação e o estabelecimento de impostos sobre o capital especulativo e o cumprimento estrito de um Código de Conduta.
6.Paz Social Todos têm o direito de estar livres de violência. A alimentação não
deve ser utilizada como uma arma. Os níveis cada vez maiores de pobreza e marginalização na área rural com a crescente opressão das minorias étnicas e populações indígenas, agravam as situações de repressão e violência no campo. A urbanização forçada, a repressão e o racismo com os produtores de pequena escala não podem ser tolerados.
7.Controle Democrático Os produtores de pequena escala devem ter uma intervenção direta na
formulação de políticas agrícolas em todos os níveis. A organização das Nações Unidas e as organizações relacionadas terão que passar por um processo de democratização para permitir que se faça realidade. Todos têm direito à informação certa e franca e a um processo de tomada de decisões abertas e democráticas. Esses direitos formam a base de uma boa governança, reponsabilidade e igualdade de participação na vida econômica, política e social, livre de qualquer forma de discriminação. Em particular se deve garantir às mulheres rurais a tomada de decisões direta e ativa em questões alimentares e rurais.
De acordo com esses princípios, a soberania alimentar assume uma maior complexidade para questionar e propor um novo modelo de alimentação a partir da agroecologia. Trata-se de um conceito plural e aberto. Ele demonstra que refletir a questão alimentar e pensar soluções para ela envolve a democracia (o povo precisa decidir o que come e como planta), o comércio internacional (os países precisam ser soberanos nas transações internacionais), a política (reforma agrária é fundamental para produção sustentável de alimentos), tutela ambiental (sem respeitar Pachamama não se produz alimentos saudáveis) e o Sumak Kawsay (pressupõe se alimentar bem para ter qualidade de vida).
Por isso, soberania alimentar assume também uma maior complexidade jurídica, sendo necessárias abordagens interdisciplinares envolvendo o estudo do direito constitucional, ambiental, agrário, comercial, internacional, civil e do consumidor.
3.2 RECEPÇÃO JURÍDICA DO CONCEITO DE SOBERANIA ALIMENTAR NOS PAÍSES