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CAPÍTULO 1 DELIMITAÇÕES CONCEITUAIS DO ESTADO: DAS

1.1 A SOCIEDADE E O ESTADO

1.1.5 A soberania

1.1.5.1 Soberania interna e soberania externa: seus prismas

A partir de um desenrolar histórico, demandou-se revisões ao conceito de soberania, justamente para vir a atender aos anseios da sociedade atual. Seu entendimento, advindo do Estado Moderno, tornou-se defasado e não compatível com a realidade de um mundo globalizado. A partir de então, passou-se a perceber que a soberania seria exercível sob duas égides: em um plano interno, onde o Estado imputaria a seu povo, em seu território, seu poder soberano, com todas as características derivadas do Estado Moderno, cuja qual, em um contexto de globalização, não atende aos anseios da comunidade local e internacional; e em contexto externo, a qual garante a independência de cada um dos Estados em plano internacional, garantindo a horizontalidade de poder entre os Estados.

Adentrando à soberania interna, pode esta ser entendida como o poder gerador do direito positivo103, significando, em última apreciação, o próprio poder

supremo. Em decorrência, nenhum outro poder, dentro dos limites territoriais de um Estado, estará sobre o poder estatal.

Deduz-se, então, que a soberania interna teria, como sua base estrutural, a própria ordem estatal doméstica, pois ali estaria localizado o seu poder supremo. Dito de outra forma, o poder supremo se daria apenas dentro do território do Estado (nos limites de sua ordem coercitiva).

Nesta visão, a soberania se demonstraria útil e condizente apenas em uma determinada ordem jurídica, tornando-se inútil e insuficiente quando da emergência

naquelas matérias expressamente previstas nos tratados; estes, sim, são a base para a definição da distribuição de poderes (competências) entre a Comunidade e seus membros. Esta limitação, que é uma característica da soberania compartilhada, é assegurada pelo chamado princípio da subsidiariedade". (ARIOSI, Mariângela F. Direito Internacional e soberania nacional. Revista Jus

Navigandi, Teresina, v.9, n.498, 17 nov. 2004. Disponível em: <http://jus.com.br/artigos/5942>.

Acesso em: 22 set. 2015).

103LIMA, Antonio Sebastião de. Teoria do estado e da constituição: fundamentos do direito positivo.

de um contexto de globalização e de uma sociedade global de Estados, uma vez que se pensa, hoje, em contextos mais amplos que a soberania atrelada apenas à sua ordem jurídica interna. Além disso, nos ensinamentos de Raymond Aron, esta soberania acaba por se tornar perigosa e nociva, visto que os "imperativos jurídicos retiram sua força obrigatória da vontade dos poderes do Estado".104

O declínio da soberania interna já se relatara com a Revolução Francesa, quando então, na Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, de 1789, o poder supremo confrontara-se com ondas crescentes de direitos que fizeram com que esta soberania interna viesse a se esfarelar cada vez mais em prol de outros valores, tais como os direitos humanos. Vislumbra-se o entendimento na seguinte passagem:

Com a Declaração dos direitos do homem e do cidadão, de 1789, e depois com as sucessivas cartas constitucionais, muda a forma do Estado e, com ela muda, até se esvaziar, o próprio principio da soberania interna. De fato, divisão dos poderes, princípio da legalidade e direitos fundamentais correspondem a outras tanta limitações e, em última analise, a negações da soberania interna. Graças a esses princípios, a relação entre Estado e cidadãos já não é uma relação entre soberano e súditos, mas sim entre dois sujeitos, ambos de soberania limitada. [...] Sob esse aspecto, o modelo do estado de direito, por forca do qual todos os poderes ficam subordinados à lei, equivale à negação da soberania [...].105

Discrimina-se o fato da soberania interna estar perdendo seus fundamentos primordiais de existência à medida que o Estado se desenvolve pelos preceitos de direito internacional. Avalia-se, desta maneira, que esta soberania, em sua visão tradicional, não mais se coaduna com a realidade que se encontram os Estados e os próprios avanços da sociedade internacional, a partir de um contexto de globalização e jus cogens.

Quanto ao jus cogens, vale pontuar ser ele fruto de uma necessária verticalização dos pilares estruturais do direito internacional106, incidindo na própria

104ARON, Raymond. Estudos políticos. Tradução de Sérgio Bath. 2.ed. Brasília: UnB, 1986. p.886. 105FERRAJOLI, Luigi. A soberania no mundo moderno. São Paulo: Livraria Martins Fontes, 2002. p.28. 106Nesse sentido, explica Cláudio Finkelstein: "o surgimento e afirmação do 'jus cogens' no direito

internacional contemporâneo preenche a necessidade de uma verticalização mínima do ordenamento jurídico internacional, erguido sob pilares de onde o jurídico e a ética se fundem. A evolução do conceito de 'jus cogens' transcende hoje o âmbito do Direito dos Tratados e da Responsabilidade Internacional dos Estados ao atingir o direito internacional geral e a base da ordem jurídica internacional". (FINKELSTEIN, Cláudio. Hierarquia das normas no direito

postura dos Estados frente às normas deste ramo do direito: vislumbra-se a necessidade de uniformização de determinadas regras, especificamente atreladas ao axioma da paz e aos valores dos direitos humanos. Na preciosa lição de Cláudio Finkelstein:

Ora, é sabido e aceito que tradicionalmente as normas de direito internacional nascem da declaração de vontade dos Estados no sentido de se sujeitar a ela. No entanto, essa ordem incipiente criada por tal mecanismo não tem o condão de exigir seu cumprimento, nem de impor os critérios por ela aceitos, seja pela ausência de um poder de polícia central ou autoridade internacional erigida para cumprir e fazer cumprir o acordado, nem pela unidade de interpretação do que seria universalmente aceito como regra para o estabelecimento de condutas condizentes com a vida em sociedade de Estados.

O jus cogens foi erigido como regra de direito internacional para alterar em parte esta ordem. Por ele, a sociedade internacional reconhece a necessidade de regras uniformes e constantes que visem solidificar essa ordem existente, fruto de séculos de debate acadêmico e embates armados.107

Concentrando-se na soberania externa – marco referencial deste estudo –, esta vem a ser a própria independência, a não-ingerência de qualquer ordem normativa estrangeira a um determinado Estado soberano. É, de fato, o que garante a igualdade de todos os Estados em plano internacional, possibilitando a horizontalidade nas relações estatais. Em outros termos, deduz-se que a soberania externa garante que cada uma das ordens normativas internas possuam, no campo da sociedade internacional, igual valoração, permitindo que Estados com poderes econômicos diferenciados, sociedades desiguais e até mesmo realidades não conexas tenham, perante aquela, iguais poderes de fato.

Examina-se, na soberania externa, uma busca pelo equilíbrio de poder entre os Estados em plano internacional. A partir deste cenário, pode-se entender que a referida soberania tem por excelência buscar a equivalência de poderes, em plano internacional, entre os referidos Estados, ou que "nenhuma potência possui posição de preponderância absoluta e em condições de determinar a lei para as outras"108.

107FINKELSTEIN, Cláudio. Hierarquia das normas no direito internacional: jus cogens e

metaconstitucionalismo. São Paulo: Saraiva, 2013. p.279.

108SCOTT, James Brown. The Classes of International Law: Le Droit des Gens. Washington:

Identifica-se, ainda que precariamente, a regulamentação da soberania externa a partir de dois documentos: a Carta das Nações Unidas, de 1945, e a Declaração Universal dos Direitos do Homem e do Cidadão, datada de 1948.

A partir destes documentos é que se justifica a aplicação do jus cogens à soberania externa: ela deixa de ser exercida a partir da total liberalidade dos Estados para se subordinar ao imperativo de paz e à prevalência dos direitos humanos. Quanto aos direitos humanos, se havia dúvidas quanto ao seu caráter impositivo advido da Declaração de 1948, não mais se questiona sua existência a partir dos Pactos, assinados no contexto da ONU, em 1966. A partir de tais, transformam-se os direitos humanos em limitações não apenas internas, mas igualmente externas à soberania estatal.109

O que se observa, a partir de então, é que se a soberania interna já havia perdido muito de sua supremacia em prol de determinados direitos, igualmente se observa no caso da soberania externa: por mais que esta ainda hoje permaneça necessária, especialmente quanto á liberalidade do Estado em se obrigar internacionalmente, alguns pontos de sua supremacia foram relativizados em prol dos direitos humanos e do imperativo de paz. É que após o mundo assistir ás atrocidades advindas das duas Grandes Guerras, não mais se demonstrou aceitável impor institutos que não permitissem o seu balizamento em prol da paz e dos direitos de cada cidadão – uma vez que, antes de cidadãos nacionais, estes são, de fato, cidadãos globais, e a comunidade internacional não deve, especialmente em contextos de proteção universal e regional dos direitos humanos, medir esforços para limitar a supremacia estatal, seus governos e suas ordens jurídicas internas em prol do bem da própria humanidade.

Logicamente, neste contexto, existem muitas falhas e problemas ainda sem soluções. O primeiro deles seria, a partir da referida normatização da soberania externa por intermédio do próprio direito internacional, as lacunas existentes, ainda sem soluções concretas, para quando um Estado-membro vier a infringir qualquer um dos direitos por ele reconhecidos, ou, por melhor dizer, quando praticar um ato

109FERRAJOLI, Luigi. A soberania no mundo moderno. São Paulo: Livraria Martins Fontes, 2002.

considerado, na sociedade internacional, ilícito, principalmente no tocante aos direitos humanos e à violação da paz.

Incontestavelmente, o jus cogens é um importante ponto de partida para a normatização da comunidade internacional, mas, ainda assim, os Estados, pelo montante de soberania que lhes é própria, podem virem a prever normativas próprias, ou em comum acordo entre eles, por intermédio da cooperação, para fazer valer os direitos humanos em seu interior.