3.4 O DIREITO INTERNACIONAL HUMANITÁRIO
3.4.1 Relação do DIH com DIDH e com DR
3.4.1.2 Outras definições importantes
3.4.1.2.2 Soberania
O título ‘Crise de refugiados’ significa que foi dado um grande valor moral às fronteiras nacionais e à soberania, em detrimento da vida humana. Conforme Bauman, o mundo é unido em estados territoriais soberanos, o que equivaleria a identificar a posse de direitos humanos à uma cidadania do Estado. Por isso esse tópico sobre Soberania, que nesse movimento migratório de pessoas entre as fronteiras internacionais ganha relevância, principalmente quando diz respeito ao papel que o Estado exerce sobre seu território e quando ele decide quem dos não-nacionais podem entrar ou permanecer, quem pode ser recusado a admissão e quem pode ser compelido a sair [48] Essa gerência de território pode ser feita de acordo com a lei, e por essa mesma lei pode haver exceções a esse libre arbítrio em favor daqueles que buscam ‘refúgio’.
Uma questão que suscita controvérsias diz respeito ao direito que um Estado tenha de, fora de suas fronteiras (aplicação extraterritorial), se valer do conceito da soberania para expulsar ‘em caliente’, interceptando aos deslocados que estejam, por exemplo, em barcos em alto-mar, e devolvendo-os ao Estado de Origem. Por exemplo, a decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos, que no caso Sale X Haitian Centers Council, decidiu que o Direito dos Refugiados não se aplica além-fronteiras, ou seja, que os EUA podiam expulsar os interceptados; em 1996, uma decisão da Comissão Interamericana, Report no. 51/96, rejeitou a decisão da Suprema Corte acima referida e decidiu que o non-refoulement aplica-se a refugiados interceptados em alto mar21.
Na prática o que está ocorrendo é que os Estados (por seus navios) estão interceptando deslocados à força em alto-mar sob a alegação de que praticam a ‘busca e salvamento’ desses indivíduos (o que seria permitido pela Convenção de Busca e Salvamento). Mas na verdade esta seria uma medida de controle de fronteiras, exercido
aonde não existe jurisdição (soberania) do interceptador, colocando em risco o direito dos refugiados ao ‘non-refoulement’ e seu direito humano à vida e à liberdade22.
A Austrália já usufruiu da medida de ‘furtar-se’ à responsabilidade pelos indiví- duos que aportam em territórios que estariam sob a sua soberania (no caso das terras insulares). Ela determinou que as aportações nessas terras seriam desviadas para Nova Guiné e Nauru, que assumiriam a responsabilidade pelos deslocados.
O internacionalista Mario Bettati[49] advoga que “a universalização dos direitos humanos contorna a soberania dos Estados e exige que cada um se sinta obrigado a proteger os valores que esses direitos consagram, ainda que para além das fronteiras”. Essa mesma visão de que a soberania sofre uma reavaliação frente a questões de direitos humanos temos na doutrina de Mello, para que mais normas internacionais de direitos humanos, escritas ou costumeiras, determinam condutas que o Estado deve adotar frente a pessoas quer estejam ou não sob sua jurisdição [18]. No entanto, na prática cotidiana, o antigo conceito de soberania exclui indivíduos não somente de um território político, mas exclui-os de sua própria humanidade. São criados espaços de exceção, uma espécie de construção geográfica de fronteiras além das quais as normas legais e políticas não tem aplicação: ali o poder soberano permite matar com impunidade, conforme foi descrito por Agamben - tradução nossa de Gregory & et al, 2009.
A visão “prosaica” dos Estados que se sobressai é de que os direitos humanos dos deslocados forçados ou mesmo dos migrantes indocumentados, de um modo geral, podem restringir o poder da soberania e que a imigração pode colocar em perigo a estabilidade econômica e o bem-estar da população local[33]. O que na prática não ocorre23.
Se o DIP tem sido construído através do entendimento da soberania dos Estados como um atributo para garantir valores e condições de vida para as pessoas que estão sob a jurisdição deste Estado, em razão da dignidade da pessoa humana, esse entendimento deveria levar a outro: o de que os direitos humanos universais são, em princípio, aplicáveis a todos os migrantes (regulares ou irregulares), asylumseekers,
22 Em 06 de dezembro de 2018 a Organização Médico sem Fronteiras comunicou que foi obrigada
a suspender as buscas e salvamentos no Mar Mediterrâneo por políticas da União Européia. Seu navio Aquarius era a última embarcação de busca e salvamento naquela região. Ela atualiza dados numérico relatando 2.133 mortes no Mediterrâneo em 2018. Relata que países europeus permitiram que a Guarda Costeira da Líbia interceptasse 14.000 pessoas no mar e as devolvesse para a zona de combate na Líbia. Extraido de https://www.msf.org.br/noticias/aquarius-e-forcado-interromper-oper acoes-enquanto-europa-condena-pessoas-se-afogarem
23 Em Paris, em 28.05.2018, um refugiado do Mali, Mamoudou Gassama, escalou a parede de um
prédio residencial, expondo a própria vida, para salvar uma criança francesa que estava pendurada no parapeito do quarto andar; Estudos comprovam que as sociedades mais desenvolvidas entrariam em colapso sem a presença de trabalhadoras domésticas migrantes, para suprir os cuidados das tarefas doméstica devido a emancipação da mulher dos países desenvolvidos.- (Parreñas, 2002)
refugiados ou apátridas. [33].Mesmo porque a natureza universal do DIDH não está confinada às bordas de um Estado, pois a Corte Criminal Internacional, baseada no senso da humanidade em comum, tem prioridade sobre a soberania das Nações quando Direitos Humanos são violados.
Existe, portanto, diferentes leituras da jurisdição extraterritorial dos Estados, não existindo uma resposta conclusiva. É um assunto ainda sob discussão. Uma discussão lenta, enquanto indivíduos morrem fisicamente ou morrem pela perda de sua dignidade,o que legitima o envolvimento internacional para a sua proteção.Na realidade, quando se diz que um estado é soberano, não significa que ele seja livre para fazer o que quiser dentro de suas fronteiras; significa que ele tem o dever de proteger sua população das agressões externas, mas também das inseguranças internas; essa forma de comportamento foi intitulada ‘soberania-como-responsabilidade’ [50]. Se um governo não tem essa‘soberania–como-responsabilidade’, não fornece proteção. Isso pode gerar atrocidade e deslocamentos de suas populações. Se um governo falhar na proteção de seu povo, a responsabilidade dessa proteção pode até passar para outros países. Mas isso não será objeto de discussão neste momento, permanecendo somente a noção de que a soberania não pode ser vista como um entrave ao bem comum de nacionais e não-nacionais.