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1 Introdução

1.1 O trato reprodutor masculino

1.2.1 Sobre a albumina e o trato reprodutor masculino

Antes mesmo de qualquer possível relação da albumina com o trato reprodutor masculino, as hipóteses iniciais a respeito da origem dessa proteína incluíam proposições diversas, nas quais a albumina, possivelmente, fosse o produto de quebra (fragmento citoplasmático) de leucócitos, eritrócitos, plaquetas, células de medula óssea ou de células em geral (Reimann et al., 1934). Outros autores propuseram que a albumina seria derivada do fibrinogênio ou de "humors" circulantes (i.e. antigo nome dado ao sangue e outros fluidos corpóreos) ou sintetizada por qualquer região do intestino, dos pulmões, da pele ou do fígado (Madden & Whipple, 1940; Campbell & Stone, 1957). Dados clínicos e experimentais de Madden e Whipple (1940) forneceram algumas das primeiras evidências sobre a síntese de albumina, estabelecendo o fígado como sítio transcricional ativo no desenvolvimento pós-parto, e atribuindo a presença de albumina em tecidos extra-

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É conhecido por analbuminênico o organismo que possui uma condição alélica variante extremamente rara na qual, por definição, há completa ausência de albumina circulante. Note que a definição carrega uma contradição com relação à observação de Baker, 2002 (ver texto).

hepáticos, como única alternativa, pelo extravasamento dessa molécula pela barreira endotelial de vasos sanguíneos, conclusão essa por anos apoiada (Miller et al., 1951; Miller & Bale, 1954) e, mais recentemente reestruturada, em novas pesquisas (Nahon et al., 1988; Nishio & Dugaiczyk, 1996; Shamay et al., 2005; Ahn et al., 2008).

A síntese da albumina no trato reprodutor masculino foi sugerida, mas não comprovada, em estruturas tais como: próstata (Lindholmer et al., 1974; Elzanaty, 2007), células germinativas e somáticas de testículo (Cheng et al., 1987; Orlando et al., 1988) e células epiteliais da cabeça, corpo e cauda do epidídimo (Shaha et al., 1988). Funcionalmente, já se postulou que a albumina pode alterar a composição lipídica da membrana plasmática do espermatozoide por veículo de troca ou hidrólise lipídica (Go e Wolf, 1985) ou que a presença dessa proteína sérica no testículo humano adulto e no fluido seminal poderia estar relacionada à sua habilidade no transporte de andrógenos, sendo, as células de Leydig, mais ativas na produção esteroidal quando em presença da albumina (Orlando et al., 1988; Melsert et al., 1989). A ocorrência da albumina seminal é ainda correlacionada à qualidade, concentração e motilidade espermática (Lindholmer et al., 1974; Elzanaty et al., 2007). Adicionalmente, de acordo com Fraser (1985) e Langlais e Robert (1985), possivelmente pela via de ativação da fosfolipase, a albumina participaria da indução da reação acrossômica de espermatozoides de mamíferos.

Com a utilização de análises de citometria de fluxo e SDS-PAGE complexos albuminóides já haviam sido identificados no epidídimo (Carles et al., 1992; Fournier- Delpech et al., 1997), como uma nova classe de proteínas andrógeno-dependentes, denominadas glicoproteínas pré-albuminas epidídimo-específicas (PES - caracterizadas pela presença de domínios estruturais glicídicos e proteicos, sendo os últimos relacionados com os domínios de albumina; Fournier-Delpech et al., 1997) capazes de se associarem à membrana de espermatozoides durante sua passagem pelo lúmen do epidídimo (Fournier- Delpech et al., 1997). Isoformas protéicas de PES foram identificadas nos tecidos reprodutivos de ovinos por immunoblotting (Carles et al., 1992), carneiros por SDS-PAGE (Fournier-Delpech et al., 1988) e ratos por imunização heteróloga (Fournier-Delpech et al., 1985; Fournier-Delpech et al., 1997). Em ratos, a avaliação da fertilidade de espermatozoides da cauda do epidídimo ativamente imunizados contra as glicoproteínas PES demonstrou um decréscimo dramático, mas não uma supressão completa, da

capacidade dos espermatozoides do epidídimo de se ligar a zona pelúcida, em comparação com os controles não imunizados (Fournier-Delpech et al., 1985).

O padrão de imunolocalização da albumina ou proteínas similares à albumina em túbulos seminíferos do testículo de murinos ganhou refinamento ao longo dos anos sendo, de todo o sistema reprodutor masculino, o padrão mais detalhado (Everett e Simmons, 1958; Mancini et al., 1965; Sharpe, 1979; Setchell e Sharpe, 1981; Christensen et al., 1985; Gelly et al., 1994).

Muitos são os estudos que reportam uma concentração substancial de albumina no espaço extravascular intersticial do testículo de mamíferos (Everett e Simmons, 1958; Mancini et al., 1965; Sharpe, 1979; Setchell e Sharpe, 1981; Christensen et al., 1985). Mancini et al. (1965) trabalhou com anticorpos conjugados à marcadores radioativos e/ou fluorescentes comprovando, em ratos, a difusão da albumina de vasos sanguíneos para o espaço extravascular e reportando, por autorradiografia, a passagem da albumina sérica pela lâmina basal dos túbulos seminíferos e espaços intercelulares do epitélio germinativo, atingindo o lúmen tubular e dando início à discussão sobre a passagem transendotelial de proteínas do plasma em comparação à dinâmica observada nos sinusóides hepáticos (Sakiyama et al., 1988).

Em 1990, Krishna e Spanel-Borowski, utilizando-se da técnica de imunohistoquímica, corroboram as hipóteses de Mancini et al. (1965) introduzindo o conceito de “leakage” i.e. depósitos de albumina que se estendem da lâmina basal para o lúmen testicular. Christensen e colaboradores (1985), em contraste, ao utilizar a técnica de imunomarcação com ouro coloidal reporta, pela primeira vez, o padrão de identificação da albumina restrito à interação entre células de Sertoli, espermatogônias e espermatócitos primários, ressaltando não observar a presença de albumina além das junções entre as células de Sertoli, observações essas suportadas também pelos estudos imunohistoquímicos realizados com biópsias de testículo humano por Forti e colaboradores. (1989) e posteriormente por Orlando e colaboradores (1988).

Em 1987, Cheng e colaboradores tornam definitiva a associação entre albumina e gônadas masculinas ao conceber o termo Testibumina, relativo à proteína imunologicamente relacionada à albumina e responsiva à testosterona e hormônio folículo-

estimulante, identificada em meios de cultura enriquecidos com células de Sertoli, cuja caracterização por radioiodação em testículo e epidídimo de ratos, apontou maior pico de concentração aos 60 dpp com declínio da concentração até os 150 dpp, quando um platô é atingido.

Por meio de minuciosa comparação dos padrões de imunolocalização das moléculas albumina e transferrina, em 1994, Gelly e colaboradores descrevem estudo ontogenético que se estende desde a morfogênese gonadal (13º dia de gestação) até o desenvolvimento pós-natal (1, 18, 45 dpp) em ratos. Nesse estudo é destaque a concepção de um padrão de imunomarcação estádio-dependente e a hipótese de síntese e/ou internalização por endocitose da albumina pelas células germinativas primordiais e gonócitos, independentemente das células de Sertoli que, no período adulto, entretanto, ao manter forte interação com as células germinativas passariam a acumular albumina.

Por fim, a presença da albumina ou de proteínas similares, conjugadas ou não a grupamentos acessórios, tem sido documentada nos órgãos do trato reprodutor masculino ao longo dos anos, tendo sido destaque sua função primária de proteína carreadora, atrelada ao transporte de hormônios e/ou fatores de maturação/modificação celular e, aparentemente, com secreção controlada por genes especificamente ativados pela testosterona.

1.2.2 Sobre a albumina e um complexo glicoproteico de alto peso

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