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Discutir referenciais teóricos, principalmente a partir da mídia-educação, dos novos letramentos e dos estudos de

1.2. TRILHAS E ROTAS

1.2.1. Sobre a desigualdade de acesso

A desigualdade de acesso traz a representação de uma situação- limite, como já foi dito, que nem todos os(as) professores(as) conseguem superar. Na minha prática como pesquisadora e educadora, conheci algumas experiências interessantes que podem ser tidas como boas práticas para o uso do computador nos Anos Iniciais. Pretendo, então, utilizar estas atividades como ponto de partida para uma reflexão teórica sobre a diferença de acesso às mídias digitais, e que auxilie o(a) professor(a) e lidar com esse contexto.

Este cenário de divisão entre ―os que têm acesso‖ ao computador e à internet e ―os que não os têm‖ continua sendo evidenciado nas pesquisas do Cetic.br. Em 2013, os dados das pesquisas apontaram que o computador está presente em metade dos domicílios brasileiros, vide Tabela 1. Como é possível observar, esta porcentagem se divide entre 49% que têm o aparelho em sua casa e 51% que não. No indicador de motivos para a falta do computador, 58% alegam que o custo é elevado e não podem pagar e 31% dizem não tê-lo por falta de habilidade.

Tabela 1 – Proporção de Domicílios com computador.

Percentual % Sim Não

Total 49 51

Área Urbana 53 47

Rural 21 79

Fonte: CETIC.BR (2013).

A mesma pesquisa (CETIC.BR, 2013) aponta que dentre as classes C, D e E poucos têm acesso à internet banda larga. Conclui-se

que a exclusão digital se mostra como mais uma faceta da exclusão social (SILVEIRA, 2003). De uma maneira geral, este não é somente o caso do Brasil, mas de toda a América Latina, em grande parte privada dos benefícios do acesso ao computador conectado à internet, pois mais da metade das suas crianças são pobres e não têm acesso às tecnologias digitais (SILVEIRA, 2003, p.25).

Esse mesmo modelo de produção, do qual os sistemas digitais fazem parte, tem criado um violento mercado de oferta e competitividade. Esse mercado, na medida em que difunde uma ideologia de integração, produz uma profunda exclusão social de acesso aos bens culturais. Se por um lado a oferta é muita, por outro as condições de consumo são bastante diferenciadas. E a questão do acesso a esses equipamentos, sobretudo ao computador, tem se tornado um dos grandes indicadores dessa segmentação social, desse abismo que separa tanto quanto une. Daí a necessidade de estudar o contexto em que o consumo cultural se processa. Nesse movimento metodológico (que problematiza os contextos e as comunidades de apropriação e produção de sentido), o quadro de análise e reflexão torna-se menos determinista e muito mais multifacetado e

complexo (OROFINO, 2003, p. 112).

A equação reflete-se na sala de aula, porém ela não deve ser vista como uma simples soma de dois lados da mesma moeda. Ou seja, não existem somente os que sabem e os que não sabem, pois ainda há muitos outros aspectos deste fenômeno que não podemos ignorar. Primeiramente é preciso compreender que a globalização não é um fenômeno total, logo, os terrenos são desiguais e não temos mapas direcionadores. Em diferentes lugares do Brasil, os contextos podem se apresentar de uma maneira ímpar. Portanto, a primeira parte do trabalho vai buscar compreender,por meio de dados e pesquisas da área, as dinâmicas que compõem esta desigualdade social e econômica.

A pesquisa vê, nos contextos de uso do computador dos quais emergem as práticas que serão posteriormente apresentadas, um conjunto de qualidades. Estas superações podem ser compreendidas como fatos isolados. Porém, suas propriedades podem parecer interessantes para refletir sobre a diferença não como um impedimento, mas como um desafio. Daí, elas possibilitam generalizações que podem

auxiliar outras práticas pedagógicas, e como temas geradores, auxiliar uma atitude de esperança.

Desta forma, esta pesquisa tem aspectos multifacetados, por não ser baseada numa abordagem única. Foi por intermédio da minha experiência como formadora que me liguei a esta problemática, a pergunta surgiu de um silêncio gestado na minha relação com os(as) professores(as) em formação no contexto do campo. Esta reticência foi documentada nos diários de campo elaborados durante as formações (2012-2013) e posteriormente ao refletir sobre as atividades em que os(as) professores(as) me relataram ter buscado superar entraves relacionados ao computador na sala de aula (2014). Porém, frente a esta situação-limite senti a necessidade de organizar por meio de referências teórico-metodológicas o reconhecimento de que é possível transpor a barreira. Portanto, os diários de campo encontrados aqui são um conjunto de anotações de uma professora/pesquisadora que no meio da sua prática lidou com uma situação-limite. A partir deste desafio, encontrei algumas práticas que funcionaram como os temas geradores freireanos, me ajudando a fazer emergir a teoria e as possibilidades práticas que espero, podem auxiliar outras pesquisas.

Durante o período de elaboração do projeto, fui contemplada com uma bolsa de pesquisa para estudar durante o semestre de outono (de setembro a dezembro de 2013) na Universidade de Montreal, no Quebec, Canadá. O objetivo deste estágio foi intensificar a reflexão sobre as pesquisas qualitativas em educação e também sobre como a pesquisa em formação de professores(as) tem se debruçado sobre a questão da diversidade cultural no contexto do Quebec.

No contexto do Canadá, a migração de famílias de diferentes nacionalidades tem trazido outro desafio de lidar com a diferença. A diversidade cultural, socioeconômica, étnica, linguística está presente no cotidiano de muitos(as) professores(as) de uma maneira muito ―visceral‖. Esta experiência colaborou com minha pesquisa, permitindo o conhecimento de práticas pedagógicas para a diversidade cultural na escola, além de me inspirar a realizar uma pesquisa embasada em uma metodologia de pesquisa complexa e não convencional.