2.9 Considerações acerca do ensino da maquiagem teatral para a Licenciatura em teatro no Brasil
2.8.1 Sobre a escassez de material bibliográfico
Um problema que por muitas vezes limita o ensino e o aprendizado da Maquiagem Teatral nos cursos universitários brasileiros é a pouca bibliografia sobre o assunto em língua portuguesa. A carência de material bibliográfico que nos possibilite dialogar com teóricos sobre a maquiagem é quase nula. As poucas publicações em língua portuguesa que se dedicam ao assunto são pequenos trechos de autores que abordam a questão da maquiagem como signo teatral, ou em citações de experiências de alguns diretores de teatro que utilizaram a maquiagem em algum trabalho e pontuaram a sua funcionalidade.
A professora Monica Magalhães destaca em um artigo seu, a carência de material bibliográfico sobre a Maquiagem Teatral, como uma das limitações para o estudo e ensino desta Arte:
De início, enfrenta-se uma barreira pela escassez de literatura específica, de informações e de profissionais capacitados nessa área. As poucas obras encontradas, normalmente em outros idiomas, enfocam principalmente o uso das técnicas. Os livros que privilegiam um pensamento sobre a criação da caracterização ainda estão aquém da demanda em relação ao ensino e à prática, que vêm se fazendo cada vez mais presentes nas escolas, festivais de Teatro e mercado de trabalho (MAGALHÃES, Monica. Caracterização teatral: uma arte a ser desvendada. In: TELLES, Narciso, FLORENTINO Adilson. Cartografias do ensino de teatro. Uberlândia: Edufu, 2009, p. 209)
Através das respostas dos questionários enviados aos professores para esta pesquisa, concluímos que é notória a unanimidade em relação à bibliografia sobre o tema. Os seis professores apontam para essa lacuna e, cada um ao seu modo, está desenvolvendo ou já desenvolveu pesquisas na tentativa de criar um repertório nos estudos da Maquiagem Teatral e, dessa forma, proporcionar a estudantes, pesquisadores e até mesmo aos curiosos sobre o assunto, uma possível bibliografia. A história da maquiagem no Teatro presente nos conteúdos programáticos é abordada de forma sucinta, por conta da carga horária destinada à disciplina, assim
como pelo pouco material existente, o que caracteriza uma lacuna sobre o assunto61. Cabe ao estudante interessado em ter um conhecimento maior, buscar mais informações sobre os conteúdos históricos em outras pesquisas.
Existem publicações em língua estrangeira, como explica Magalhães na citação acima, mais especificamente em inglês, mas a aquisição desse material requer uma pesquisa em sites internacionais, que aumentam o seu custo ou, quando possível, adquirir em viagens para fora do Brasil.
Há alguns anos começaram a surgir pesquisas em nível de pós graduação stricto sensu que iniciaram uma discussão sobre a maquiagem, com o objetivo de preencher a referida lacuna. Alguns pesquisadores do tema dissertam sobre a maquiagem na construção de personagens ou da cena, outras sobre estudos semióticos, sobre processos criativos, entre outros.
Tal fato nos permite acreditar que em alguns anos poderemos encontrar livros sobre a Maquiagem Teatral com menos dificuldade que hoje. O que não deixa de ser um alento para os professores e estudantes que desejam se dedicar mais a conhecer sobre a história da Maquiagem Teatral, por exemplo.
Alguns trabalhos de conclusão de dissertação de mestrado e de tese de doutorado já apresentados, pontuam o corpo desta pesquisa sobre os estudos da Maquiagem Teatral no Brasil, mas que ainda não foram publicadas, e que podem ser utilizadas como referencial teórico sobre o tema para outras pesquisas e preparação de aulas.
Nesse segmento, um trabalho de dissertação de mestrado que faz um percurso da história da maquiagem já citada neste capítulo, é da autoria do Professor Marcelo Denny Leite, da ECA/USP. O seu trabalho, intitulado As funções expressivas e comunicativas da maquiagem na arte teatral (2004), apresentado como requisito para a obtenção do título de Mestre em Artes Cênicas, é uma das poucas publicações em língua portuguesa sobre o assunto. Leite inicia a sua pesquisa sobre a maquiagem
61 O professor Marcelo Denny Toledo Leite, preenche em parte esta lacuna, com a sua dissertação de
mestrado defendida na USP, em 2004, intitulada: Funções expressivas e comunicativas da maquiagem teatral, na qual dedica um capítulo a história da maquiagem na formação das civilizações. A Professora Monica Magalhães também preenche tal lacuna em sua dissertação de mestrado, defendida na UFF, em 2005. O maquiador Duda Molinos e a historiadora Ana Carlota Vitta fizeram publicações sucintas acerca do assunto.
nas primeiras civilizações de que se tem conhecimento, perpassa pela maquiagem no Teatro oriental até chegar a maquiagem no Teatro ocidental, apresentando- nos um bom panorama histórico sobre o assunto.
A professora Monica Magalhães da Escola de Teatro da UNIRIO utilizou como tema para a sua dissertação de Mestrado, o processo criativo da composição da maquiagem para o espetáculo Partido, do Grupo Galpão, de Minas Gerais, com o título: Um rosto para a personagem: o processo criativo das maquiagens do Espetáculo teatral Partido (2004), pela Universidade Federal Fluminense. E a sua tese de doutorado, apresentada em 2010, na mesma universidade trata da análise da construção do sentido da maquiagem de um modo geral, da maquiagem cênica e da body painting, com o título: Maquiagem e pintura corporal: uma análise semiótica (2010).
O professor de Maquiagem Teatral aposentado, Jesus Fernando Vivas de Souza, da Universidade de Brasília, apresentou em 2004, no PPGAC/UFBA, a dissertação intitulada A maquiagem na construção da personagem (2004). Um trabalho primoroso sobre as origens da maquiagem no Teatro grego, passando pela fisiogonomia62, estudada pelo filósofo, gramático e sofista Pólux, na Grécia antiga até ao processo de criação da maquiagem para um espetáculo do Curso livre de Teatro da UFBA.
A professora Renata Cardoso apresentou a dissertação intitulada: O Mambembe: Uma experiência de criação de maquiagem na formação de atores pelo PPGAC – UFBA em 2008, que trata da criação da maquiagem durante os processos de ensaio de um espetáculo.
A professora Monica Magalhães ressalta a importância do surgimento de outras pesquisas sobre a maquiagem teatral como alguns trabalhos de conclusão de graduação: “É interessante observar que as poucas pesquisas em TCC e em pós graduação passam pelo não conhecimento e pela escassez de literatura. (Depoimento ao pesquisador em 30/08/2015)”
No entanto, as publicações sobre as técnicas de maquiagem apresentando o passo a passo de como executar as maquiagens, as publicações são em língua inglesa e o acesso a elas não é simples. Algumas podem ser encontradas em sites
web de compras, como por exemplo, o amazon.com, ou, podem ser adquiridas em viagens fora do Brasil.
Desse modo, chega-se à conclusão que pesquisas em Artes Cênicas voltadas para o ensino da Maquiagem Teatral existentes assim como outras que estão sendo realizadas poderão preencher essa lacuna a longo prazo. Quanto ao acesso a esse material já produzido, só através de pesquisa pela internet, buscando-se as suas localizações nos sítios virtuais dos programas de pós-graduação, onde estas foram desenvolvidas e nas bibliotecas virtuais das respectivas universidades.
Quanto maior o volume de pesquisas sobre a Maquiagem Teatral, melhor para a atuação de estudantes, professores e pesquisadores. Sendo assim, o ensino das disciplinas voltadas para o tema terá um repertório mais amplo e fomentará o surgimento de outras pesquisas, incentivando também o surgimento de novos profissionais na área, preferencialmente que possam aliar a prática profissional ao ofício de educador.
O licenciando em Teatro precisa estar preparado para os desafios que a educação nos oferece em todos os seus campos. Cada um tem o direito de escolher os caminhos para o seu trabalho com o que mais se identifique. Para aqueles alunos em que desperte o interesse nos elementos visuais da encenação e que souberem tirar proveito em sua prática pedagógica, uma esta experiência de ensino da Maquiagem Teatral será de grande utilidade.
No contexto da sala de aula, os futuros professores irão se defrontar com muitas das dificuldades que envolvem os processos educacionais. Na realidade da educação pública brasileira, questões como espaço físico, carga horária e recursos materiais, entre outros, vão exigir desses professores organização e articulação para colocar em prática o caráter artístico do ensino do Teatro, que se coadune com o estatuto da instituição em que trabalham, aliando o formato das aulas ao caráter didático, para que o Teatro se configure ao seu sistema de aprendizagem.
Diante dessa perspectiva, a inserção do ensino da Maquiagem Teatral, como instrumento pedagógico na aula de teatro no ensino formal, na perspectiva da interdisciplinaridade, pode ser um caminho para despertar o interesse dos alunos pela ludicidade, formas, cores e texturas, estimulando-os ao conhecimento e entendimento das funções e potencialidades desta arte, gerando descobertas relevantes junto às turmas e, possivelmente, despertando o interesse, para o surgimento de futuros profissionais nesse segmento.
Ao analisar o trabalho de meus colegas que gentilmente dedicaram parte do seu tempo para responder os questionários, fornecendo os dados para as reflexões nesse capítulo, é notório o interesse em fazer o seu trabalho com a melhor qualidade possível. Para atingir bons resultados, é preciso vencer muitos obstáculos, desde a estrutura física, a falta de recursos materiais de boa qualidade, passando pela bibliografia quase inexistente, entre outros fatores.
O exercício das disciplinas de Maquiagem Teatral exercita o fazer artista do aluno, aproximando-o do universo das artes visuais empregadas no teatro e das suas diversas possibilidades no contexto de um espetáculo. Durante o aprendizado das técnicas, articulado com as demais atividades de Teatro no contexto da sala de aula, os alunos tem acesso ao universo das formas, cores, texturas, um breve conhecimento da anatomia facial, despertando a curiosidade, que o levará a pesquisar sobre esse universo, em ferramentas como a internet, livros, programas de peças e outros materiais acessíveis.
É importante ressaltar que é preciso dar o tempo necessário ao aluno para entender e absorver os conteúdos, com liberdade para explorar o seu rosto e corpo com a maquiagem, para a elaboração de imagens, que a princípio serão um reflexo do seu universo interior. Com isso, eles poderão aprimorar o seu traçado, aperfeiçoar os desenhos e absorver mais informações sobre imagens, formas e cores, até alcançar bons resultados, pensando nos aspectos físicos e psicológicos de um personagem e na relação da maquiagem com o contexto do espetáculo para a qual estiver sendo concebida.
A concretização deste capítulo propõe reflexões sobre a inserção das disciplinas ligadas à Maquiagem Teatral no formato atual dos cursos de Licenciatura em Teatro nas universidades brasileiras. Foram criadas novas Licenciaturas em Teatro nos últimos anos, com o advento da Restruturação e Expansão das Universidades Federais (REUNI), porém, em muitas delas, o quesito estrutura física é um fator negativo, haja vista que as aulas de Maquiagem Teatral requerem um laboratório específico, com uma estrutura mínima para atender às necessidades básicas, para o ensino e prática das técnicas desta disciplina.
Ainda há um enorme caminho a ser percorrido, aponto no próximo capítulo as minhas sugestões dentro do contexto do ensino do Teatro, refletindo a cerca do papel do professor de maquiagem teatral na Licenciatura em Teatro, ressaltando de que
maneira o aprendizado da referida disciplina pode ser importante na sua prática docente.
Capítulo 3