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2 DAS RELAÇÕES ENTRE RITMO E PROCESSOS FONOLÓGICOS

2.1 Sobre a natureza dos Processos Fonológicos

David Stampe (1973), baseado nos fundamentos da Fonologia Natural, realizou um trabalho descritivo sobre a natureza e a aplicação dos processos fonológicos. De acordo com ele, um processo fonológico é uma atividade mental e que tem a finalidade de fazer substituições na fala:

A phonological process is a mental operation that applies in speech to substitute, for a class of sound sequences presenting a specific common difficulty to the speech capacity of the individual, an alternative class identical but lacking the difficulty property. (STAMPE, 1973, p. 1)

Para corroborar a idéia de que os processos fonológicos são atividades mentais – e não apenas fenômenos físicos – o pesquisador afirma que esses processos ocorrem independentemente do modo como os sons são fisicamente pronunciados. Como exemplo, cita algumas palavras, como bed e bet, que mantêm a mesma distinção de

duração, mesmo quando pronunciadas silenciosamente ou apenas no nosso pensamento. Segundo Stampe (1973), essa é a maior evidência de que essas substituições são mentais.

Embora o autor assuma que as substituições são processos mentais, considera que as mesmas são claramente motivadas pelo caráter físico da fala, ou seja, suas propriedades morfofonológica, mecânica, temporal e acústica. Para sustentar sua afirmação, ele cita quatro evidências de extrema relevância sobre esse ponto de vista: (i)

as classes de sons estão organizadas de acordo com as propriedades acústico- articulatórias que possuem em comum; (ii) outro fator físico que pode motivar uma

substituição é o contexto em que essa classe de sons ocorre, como por exemplo, processos de assimilação e desassimilação; (iii) o terceiro tipo de evidência é a que o

autor chama ‘substituição opcional’, cuja aplicação depende da atenção dada à articulação. É o que ocorre nas distinções fonológicas que encontramos em discursos formais e informais, por exemplo; (iv) as substituições fonológicas exibem graus de

generalidade de acordo com grau de dificuldade física envolvida na articulação de vários sons para os quais eles se aplicam.

Para Stampe (1973, p. 09), essas substituições fonológicas põem em dúvida o fato de ser ou não a fala motivada por propriedades físicas. De acordo com o autor, embora elas ocorram mentalmente, são físicas na teleologia, ou seja, sua função é maximizar as características perceptuais da fala e minimizar suas dificuldades articulatórias.

Phonological processes are mental operations performed on behalf of the physical systems involved in speech perception and production [...] In my opinion, mental speech (as distinct from certain other sorts of thinking which employ language) is simply a sublimated variety of physical speech, and its rhythm is essentially identical. […]since it seems that mental speech may be physical in origin, there seems no difficulty in attributing the phonological substitution that it shares with physical speech to its physical origins. (STAMPE, 1973, p. 9)

Ao discutir a organização dessas substituições (dos processos fonológicos, propriamente ditos), o pesquisador afirma que a teoria assumida por ele sugere que os sistemas de processos fonológicos são reais e que as formas subjacente e superficial

existem e se inter-relacionam, de fato. Isso quer dizer que, uma vez que os processos realizam substituições, estas são substituições ocorrendo na “performance” (física e

mental) dos enunciados. Neste momento, o autor retoma a dicotomia “competência”/“performance” cunhada por Chomsky (1965), referindo-se à “performance” para caracterizar os processos fonológicos como a liberdade que cada

falante tem de empregar tais substituições na fala quando o sistema da língua assim o exigir.

De acordo com o autor, quando as regras fonológicas são inatas – e não- adquiridas – elas governam o comportamento fonético. Ao contrário, quando essas mesmas regras são adquiridas (ou aprendidas), não governam nosso comportamento fonético. Para ele, é imprescindível que se faça a distinção entre os processos que são inatos e as regras fonológicas que são adquiridas. Em outras palavras, as regras que o falante traz para a língua seriam os processos e, as regras que a língua traz para os falantes, as regras fonológicas.

O autor sugere, ainda, que a aplicação desses processos não ocorre em seqüência, mas sim, de forma não-linear. A fim de corroborar sua hipótese, o autor analisa três processos – silabação, flapping, apagamento do flepe25 – presentes em

várias pronúncias de uma mesma frase (por exemplo, “divinity fudge”) no Inglês

Americano. As pronúncias e os processos apontados por Stampe estão distribuídos no quadro abaixo. As transcrições marcadas com o asterisco representam as formas consideradas impronunciáveis (STAMPE, 1973, p. 59):

(2) 0. outros processos * d « v i @ « i ˆ @d Z 1. silabação * d « . v i @ . « . i ˆ @d Z 2. flapping * d « . v i @R . « . i ˆ @d Z 3. nasalização da vogal d « . v i @R . « . i ˆ @d Z

4. apagamento do flepe d « . v i @. « . i ˆ @d Z 5. silabação * d « . v i @« » . i ˆ @d Z 6. nasalização da vogal d « . v i « » . i ˆ @d Z 7. harmonia do shuá26 d « . v i @i » . i ˆ @d Z 8. redução d « . v i @ . i ˆ @d Z 9. silabação * d « . v i @ . i ˆ @d Z 10. flapping d « . v i @ R . i ˆ @d Z 11. nasalização do flepe d « . v i @ R . i ˆ @d Z 12. apagamento do flepe d « . v i . i ˆ @d Z 13. silabação * d « . v i i » ˆ @d Z 14. nasalização da vogal d « . v i i » ˆ @d Z

A partir dessa análise, o autor pôde concluir que, além de os processos interagirem uns com os outros, eles ocorrem de forma não-linear, pois, como pode ser observado, determinados processos ocorrem repetidamente e de forma aleatória. E é essa “reaplicação” dos processos que, segundo Stampe (1973, p. 60), caracteriza a não- linearidade de sua aplicação.

Stampe (1973) estabelece uma dicotomia entre processos fonológicos de reforço

(ou “fortalecimento”) – ditongações, inserção de segmentos, abertura de vogais, entre outros – e processos fonológicos de redução (ou “enfraquecimento”) – monotongações, centralização de vogais, processos de sândi vocálico, entre outros. De acordo com o autor, os primeiros fariam parte do eixo paradigmático, por visarem a preservação da estrutura fonológica e serem, portanto, favorecedores do ouvinte. Já os processos de “redução” fariam parte no eixo sintagmático e seriam favorecedores do falante, por visarem uma maior facilidade articulatória (a chamada “lei do menor esforço”). Sendo assim, na próxima subseção, será apresentada a caracterização de alguns processos

26 Crystal (1997, p. 241) caracteriza o termo “shuá” como um fonema vocálico e descreve a posição dos

articuladores no momento de sua produção, do seguinte modo: “centre of tongue raides between half- close and half-open; lips neutrally spread; no firm contact between rims and upper molars”. Xavier e Mateus (1990, p. 328) afirmam que o termo schwa “designa uma vogal neutra, não acentuada e reduzida, como a vogal correspondente, em português [europeu], à letra «e» quando entre consoantes ou em final de palavra”.

fonológicos presentes no PB de acordo com essas duas categorias cunhadas por Stampe (1973).