2 OS FIOS TEÓRICO-METODOLÓGICOS: DAS BASES DO DIZER
2.2 SOBRE A TEXTUALIDADE E OS FATORES PRAGMÁTICOS
Marco Polo descreve uma ponte, pedra por pedra. - Mas qual é a pedra que sustenta a ponte? – pergunta Kublai Khan.
- A ponte não é sustentada por esta ou aquela pedra – responde Marco –, mas pela curva do arco que estas formam.
Kublai Khan permanece em silêncio, refletindo. Depois acrescenta:
- Por que falar das pedras? Só o arco me interessa. Polo responde:
- Sem pedras o arco não existe (CALVINO, 2009, p. 79).
A Linguística Textual (LT) surgiu em meados da década de 1960. No princípio, ocupava-se apenas dos textos escritos e com o processo de produção. Hoje, segundo Marcuschi (2008, p. 73), a LT se preocupa tanto com a produção como com a compreensão de textos na modalidade oral e escrita. Conceituando, de maneira mais precisa, ―a LT pode ser definida como estudo das operações linguísticas, discursivas e cognitivas reguladoras e controladoras da produção, construção e processamento de textos escritos ou orais em contextos naturais de uso‖.
Marcuschi (2008) observa que, até os anos 1980, a LT tratava o texto em suas propriedades cotextuais e, a partir dos anos 1980, já define o texto como um evento comunicativo, deslocando o foco para a questão pragmática, com a análise da intencionalidade e, particularmente, da situacionalidade. Vai-se do cotexto ao contexto.
Segundo Indursky (2010), da década de 1960 até os dias atuais, é possível identificar três fases distintas dos estudos no campo da LT. A primeira fase ficou conhecida como transfrástica, uma vez que os estudiosos da LT entendiam o texto como uma extensão da frase. A diferença entre frase e texto é meramente de ordem quantitativa. Em suma, os estudos do texto são uma extensão dos estudos da frase. Na segunda fase, os estudos da LT priorizaram a descrição do texto em sua totalidade. Essa fase ficou conhecida como a gramática do texto, caracterizando-se como uma espécie de prolongamento da linguística descritiva. Estudavam-se, por exemplo, as relações referenciais e correferenciais. Buscava-se transferir para o objeto texto o conhecimento que estava voltado apenas para o objeto frase. Em suma, buscava-se uma gramática que contemplasse o texto no lugar da frase. Por fim, surge uma terceira fase, a que permanece até os dias atuais e que se configura pela junção do processamento do texto com os fatores pragmáticos. Essa fase será pormenorizada neste capítulo, considerando que traz contribuições relevantes para se compreender o fenômeno investigado e para o ensino da língua. Essas contribuições revelam-se muito produtivas para quem considera o texto como ponto de partida e de chegada, como é o caso do docente de LP.
Indo ao encontro das contribuições da LT e tomando como base as reflexões propostas por Foucault, acerca da questão da autoria, Orlandi (2012b, p. 104) estende a noção de autoria para a função enunciativa do sujeito, considerando que a função-autor é assumida toda vez que um texto é produzido com
[...] coerência; respeito aos padrões estabelecidos, tanto quanto à forma do discurso como às formas gramaticais; explicitação; relevância e, entre várias coisas, ―unidade‖, ―não contradição‖, progressão‖ e ―duração do seu discurso‖.
Como já foi dito anteriormente, esses elementos tornam o sujeito visível enquanto autor. E somente é identificável o sujeito que se faz visível no discurso. Para Orlandi (2012b), embora o texto do aluno possa apresentar distintas posições enunciativas acerca de um determinado assunto, é imprescindível que o efeito de unidade se produza. Esse efeito surge pela voz do sujeito-autor.
Assim, para assumir a função sujeito-autor, partimos da premissa de que é necessário conhecer aquilo que faz um texto ser texto, ou seja, a textualidade, um conjunto de sete fatores que tornam o texto a unidade básica quando se faz uso da linguagem. Definidos por Beaugrande e Dressler (1981), os fatores da textualidade envolvem três dimensões do texto. São eles: a coerência (nível semântico), a coesão (nível sintático), e intencionalidade, a aceitabilidade, a situacionalidade, a informatividade e a intertextualidade (nível pragmático). A seguir, tratamos de cada fator especificamente.
Para Koch (1997, p. 42), apesar de os conceitos de coesão e coerência serem os dois lados de uma mesma realidade, que é a construção dos sentidos, trata-se de elementos distintos:
Podemos conceituar coesão como o fenômeno que diz respeito ao modo como os elementos linguísticos presentes na superfície textual se encontram interligados entre si, por meio de recursos também linguísticos, formando sequências veiculadoras de sentidos. [...] A coerência diz respeito ao modo como os elementos subjacentes à superfície textual vêm a construir, na mente dos interlocutores, uma configuração veiculadora de sentidos. A coerência, portanto, longe de constituir uma mera qualidade ou propriedade do texto, é resultado de uma construção feita pelos interlocutores, numa situação de interação dada, pela atuação conjunta de uma série de fatores de ordem cognitiva, situacional, sociocultural e interacional.
Por isso, muitos estudos realizados no campo da LT tratam das marcas das atividades cognitivo-discursivas que acontecem na produção de um texto pelo sujeito. Essas marcas e seu inter-relacionamento são os responsáveis pela produção de sentido do texto. O sentido nunca está no texto, mas se constrói a partir dele. Considerando que os estudos da LT não se preocupam apenas com o mapeamento dos elementos que compõem o texto, mas de mostrar como esses elementos funcionam, análises dessa natureza se revelam produtivas para se compreender o processo de constituição de sujeitos-autores nos textos que produzem. Além disso, as concepções de linguagem que não valorizam o sujeito não comportam o debate que está sendo proposto.
Apesar de as contribuições da LT terem se presentificado ao longo dos últimos anos no espaço de sala quando se ensina a escrever, os conceitos de coesão e coerência ainda não foram suficientemente incorporados pelos alunos e professores no contexto da educação básica, conforme defende Guimarães (2012).
Ambos os conceitos têm acepções parecidas, mas dizem respeito a elementos distintos do texto. Para Koch, a coesão é a propriedade que indica as ligações linguísticas significativas que se encontram na superfície textual e conferem unidade de sentido ao texto. A coerência, por sua vez, trata da conexão do conjunto de ideias, com vistas à formação de um todo lógico.
Tomando como base as sugestões de Halliday/Hasan, Marcuschi (2008) afirma que podemos encontrar nos textos cinco grandes mecanismos de coesão, quais sejam: 1. Referência (pessoal, demonstrativa, comparativa); 2. Substituição (nominal, verbal, frasal); 3. Elipse (nominal, verbal, frasal); 4. Conjunção (aditiva, adversativa etc.); 5. Coesão lexical (repetição, sinonímia, colocação, etc). Koch (2009), por sua vez, propõe a organização dos mecanismos de coesão em duas grandes categorias, a coesão referencial e sequencial, as quais abrangem uma série de operações específicas na construção da urdidura do texto. Apesar da nomenclatura distinta, verificamos aproximações e ou desdobramentos nessas questões conceituais acerca dos recursos coesivos. Quanto à coerência, mesmo que seja difícil explicá-la por meio de um conceito, percebemos que esse elemento da textualidade está sempre relacionado ao estabelecimento de sentido do texto. Em suma, a coesão diz respeito à unidade da forma e a coerência, à unidade de sentido do texto.
Esses dois elementos da textualidade já haviam sido bem explorados pela linguística transfrástica e pela gramática do texto. Na terceira fase da LT, os autores acrescentaram cinco fatores de ordem pragmática para explicar o que é texto, já sinalizados, anteriormente, neste capítulo, e retomados agora. Os primeiros fatores, a intencionalidade e a aceitabilidade, dizem respeito diretamente ao locutor e interlocutor do evento comunicacional. Segundo Guimarães (2012, p. 24),
O produtor e o receptor do texto compõem a dupla ligada a uma concepção intersubjetiva da intenção do texto. Quando alguém produz um texto, tem por objetivo despertar o interesse daquele que lê ou ouve, ou seja, guia-se por uma dada intencionalidade. O receptor – ouvinte ou leitor -, por sua vez, condiciona sua aceitabilidade, ou seja, a atividade de construção do sentido do texto, a dados recursos oferecidos pelo texto, que atinjam os objetivos de comunicação desejados, entre esses recursos, situam-se, em primeiro plano, a coesão e a coerência [...]
Dessa forma, percebe-se que, por meio da intencionalidade, o autor do texto se propõe a provocar um determinado efeito sobre seu interlocutor, seja solicitar, reclamar, persuadir, provocar riso etc. A aceitabilidade, por sua vez, não se trata da mera aceitação ou recusa do interlocutor diante da leitura e do consumo do texto, como o nome sugere, mas da necessidade de aceitar as instruções presentes no texto para poder decodificá-lo. Ambos os fatores estão intrinsecamente relacionados à coesão e à coerência textuais. Em resumo, a intencionalidade está voltada para o locutor e a aceitabilidade para o interlocutor.
O terceiro fator, a situacionalidade, indica a pertinência e a importância do texto em relação ao contexto. Situações formais e informais exigem tratamentos diferenciados da informação. É preciso mobilizar o conhecimento contextual para produzir e receber textos. A informatividade é o fator que trata do grau de novidade da informação que o texto apresenta. Segundo Costa Val (2006, p. 14), ―o ideal é o texto se manter num nível mediano de informatividade, na qual se alternam ocorrências de processamento imediato [...] com ocorrências de processamento mais trabalhoso, que trazem a novidade‖. Por fim, o último fator é a intertextualidade, conceito forjado no âmbito dos estudos literários e tomado de empréstimo pela Pragmática e pela LT. O termo surgiu oficialmente quando Kristeva (PAULINO, 2010), com base em Bakhtin, declarou que todo texto é um mosaico de citações. O conceito pode ser dividido em dois tipos, que indicam as diferentes formas de
apropriação textual. A intertextualidade pode manifestar de maneira explícita, por meio da epígrafe, citação, referência e alusão; e de maneira implícita, por meio da paráfrase, da paródia e do pastiche. Quando se trata da leitura, análise, compreensão e interpretação de textos, é necessário reconhecer que ―inúmeros textos só fazem sentido quando entendidos em relação a outros textos, que funcionam como seu contexto‖ (COSTA VAL, 2006, p. 15).
Esmiuçando essas noções que dizem respeito à textualidade, Charolles (apud COSTA VAL, 2006, p. 21) defende que um texto se revela coerente e coeso quando satisfaz a quatro critérios: a repetição, a progressão, a não-contradição e a relação ou continuidade.
Segundo Charolles, a repetição, também conhecida como continuidade, trata da necessária retomada de elementos ao longo do texto. O reaparecimento desses elementos confere-lhe unidade, nos plano conceitual e linguístico; a progressão, por sua vez, é a contrapartida da repetição, uma vez que um texto não pode se limitar à repetição. É importante que apresente informações novas a partir dos elementos retomados. Esses acréscimos garantem a progressão do texto, elevando, consequentemente, seu nível de informatividade; o terceiro requisito é a não- contradição, considerado nas dimensões internas e externas do texto. É imprescindível que o texto respeite os princípios lógicos fundamentais, para não contradizer as informações que arrola nem contradizer a realidade externa; por fim, a relação, também conhecida como articulação, trata da congruência do texto. Ampliando a noção proposta por Charolles, Costa Val (2006, p. 27) concebe a relação como ―maneira como os fatos e conceitos apresentados no texto se encadeiam, como se organizam, que papéis exercem uns com relação aos outros‖.
As fases da LT e essas noções foram apresentadas de forma condensada, porque o propósito deste capítulo não é detalhar a trajetória dos estudos do texto nem enveredar pelos meandros de cada conceito, mas traçar as contribuições teóricas dessa área de conhecimento para fundamentar o presente estudo. Em resumo, para compreender o funcionamento da autoria, é preciso compreender o funcionamento do texto, considerando os aspectos linguísticos, discursivos e interacionais.
Passemos, a seguir, para a fundamentação teórica acerca da noção de texto, pondo em evidência seus aspectos discursivos, a noção de gêneros textuais e a concepção de linguagem como forma de interação, como propõe Bakhtin.