2 DISCURSOS SOBRE INFORMAÇÃO
2.1 SOBRE A UNIDADE E A DIVERSIDADE: EFEITOS DE INFORMAÇÃO
Nosso objetivo, nesta seção, é relacionar as questões criticadas por Pêcheux (2004) sobre a unidade e a diversidade linguística com o modo como são produzidos sentidos para a noção de informação. Para isto, problematizamos o trajeto de sentidos instituídos para esta noção a partir de designações como “sociedade da informação” e “sociedade do conhecimento” e as relações de poder que as atravessam.
A afirmação de Gadet e Pêcheux (2004, p. 35) de que a política atravessa a história da Linguística - não sob uma forma de contradição simples e monótona do tipo opositiva como o par “ditadura x liberdade”, mas muito mais complexa - é uma afirmação que serve para dizer também que a política (e o político) atravessam as práticas midiáticas. E se há o político, há contradição. Lemos (2008, p. 76) assevera que o grande mito da modernidade foi o sonho de uma sociedade de comunicação transparente, em que a difusão da informação se daria através de redes cibernéticas. O autor argumenta que tal ideia de comunicação racional e sociedade iluminada (sem ambiguidades) é um sonho
42
totalitário e essas relações de forças que circulam na sociedade são de natureza política.
Os efeitos de sentido produzidos para a noção de informação a associam a um produto que estaria disponível para todos (Informação para todos; Informação vale ouro; A informação emancipa o indivíduo; Informar-se para subir na vida! etc.). O produto, que encena a diversidade, mostra-se sob o modo da possibilidade de realizar inclusão (no sentido em que circula no discurso politicamente correto): todos devem informar-se; a informação está disponível a todos; deve-se facilitar a informação. Esse funcionamento aponta para a correção dos desvios e supressão de desigualdades produzindo efeitos de universalidade.
Dias (2009), traça uma consistente reflexão sobre o modo como as noções de informação e de conhecimento se relacionam no discurso das novas tecnologias e como os sentidos do termo conhecimento, na sociedade contemporânea, deslizam para os sentidos de informação. A autora coloca que:
“Sociedade da Informação” e “Sociedade do Conhecimento” não têm o mesmo sentido, embora se articulem discursivamente no jogo metafórico da substituição contextual, conforme nos ensina Pêcheux. Na relação com as novas tecnologias, o sentido de um é constitutivo do sentido do outro, mas não é o mesmo sentido. (DIAS, 2009, p. 20).
O que se depreende dessa relação, por sua sustentação nas condições de produção das práticas sociais capitalistas, é a maneira como a noção de informação funciona como conhecimento silenciando o processo da prática científica. Desta maneira, a informação aparece como se fosse um dado, um produto que estivesse disponível para todos de maneira igual, como se os sujeitos fossem todos iguais. Apagam-se as diferenças, generaliza-se o social. E apagando as diferenças não há lugar para se falar de analfabetos, nem de portadores de necessidades especiais, muito menos dos que não tem acesso à tecnologia. Apaga-se o fato de que sempre há, num caixa eletrônico, alguém que
43
precisa de ajuda para ver seu extrato bancário, pagar uma conta ou realizar um saque, bem como é silenciada a dificuldade de algumas pessoas colocarem em funcionamento as funções elementares de um celular. Mas circula na sociedade que há informações, que elas estão por ai para quem quiser, pois os sujeitos devem se informar!
No jornalismo, aparecem sob o efeito de evidência as condições em que as informações se constituem e circulam, ou seja, as informações são tomadas, muitas vezes, como se fossem o real, como se fossem “uma” (única) verdade. Tal funcionamento instaura um efeito de produto-verdade, visto que os sentidos que circulam sobre a informação a relacionam ao visível, ao crível, ao tangível. É como se todos tivessem condições de se informar e a informação, enquanto efeito, chegasse-estivesse-fosse transparente e literal. Como já afirmamos, fundam-se, nesse cenário, discursos sobre o excesso (injuntivamente sobre a falta), e também sobre a novidade da informação. Efeitos de sentido sobre o que seja a novidade e o excesso, nessas condições, fundam a concepção de que o sujeito estaria ultrapassado, a não ser que se informasse continuamente das novidades que nem sempre são novidades, mas que são simuladas como se fossem.
O que fica significado como comunicação, no discurso midiático, funciona à maneira da unidade, associada a meio, a canal; e sendo somente meio não afetaria o produto, nem o sujeito, contudo Orlandi (2005, p. 12) observa que os meios em que circulam os sentidos não são neutros, e assim a comunicação não funciona de maneira lógica, termo a termo, numa relação ideal falante-ouvinte, a maneira do esquema comunicacional jakobsoniano.
O que Orlandi (2010) observa sobre as noções de dados e interação quanto ao modo como aparece no discurso dos internautas e cientistas da informação, no espaço do discurso eletrônico é importante, pois a autora salienta que se estamos de acordo que a linguagem não é transparente, que os sujeitos não são a origem de si e que os sentidos são produzidos em processos em que
44
funciona a determinação histórica, é possível resignificar tais noções. Interação, desta forma, resignifica-se como produção/prática de gestos por sujeitos que ocupam específicas posições discursivas na relação com este processo de significação.
Em relação à noção de dados, Orlandi (2010) adianta que no discurso não tratamos com dados, mas com fatos de linguagem, de diversas naturezas. O fato tem materialidade, visto que há um processo histórico de constituição que o possibilita, ou seja, não é um mero produto. Logo, segundo a autora, há fatos de linguagem que se transformam em informações, e informações nesse processo adquirem o formato de textos, de imagens, de sons, de vídeo, que são as chamadas “multimídias”. São diferentes materialidades significantes (LAGAZZI, 2009) com seus específicos modos de significar, pois conforme mostra Pêcheux (1997a) no discurso temos menos informações do que efeitos de sentidos.
45