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6 DESDOBRAMENTOS

6.2 Sobre as possibilidades de ser mulher na Jurema

6.2.3 Sobre apenas ser o devir mulher na Jurema

Eu nunca quis ser igual a todo mundo... na minha época as mulher tudo tinha que ficar em casa cuidando de marido... aí eu quis ser puta! Hoje as mulé é tudo puta... se eu nascesse hoje eu ia querer ser dona de casa! [Gargalhou!]

O discurso articulado da Mestra nesse ponto mais uma vez entra em desacordo com o de Cristal, no sentido de que Paulina possuía desde sempre o desejo intrínseco de ser livre, de mudar e ser dona do próprio destino, de não repetir e não cumprir com o que estava pré- determinado para ela historicamente. Já Cristal não faz articulação crítica às estruturas que lhe

eram impostas, não questiona os papéis femininos determinados pela sociedade e pela religião, e não questiona a necessidade de seu antigo sacerdote de controlar seus “dons” mediúnicos. Aceitou durante muito tempo aquela condição como destino, e o desejo de mudança veio a partir de uma demanda coletiva, de uma necessidade de doação ao outro, ao coletivo. Então, dentro da própria estrutura ela (re)significa a noção de destino, para dar conta da inadequação que a vida lhe impunha.

O contraste entre as duas narrativas nos retorna à crítica da liberdade como um valor universal, a-histórico, valor este defendido nas teorias liberalistas, que, como dito antes, influenciaram fortemente as teorias feministas nas discursões em torno da ideia universal de liberdade feminina. Reforçamos uma vez mais que o movimento universalizante em torno das primeiras teorizações femininas foi de grande importância para os primeiros avanços em direção às mudanças de contextos gerais de dominação e violência de gênero.

Somente ao fim do século XX entra em jogo os debates da impossibilidade de universalização das experiências femininas, já que a própria categoria “mulher” não seria universal, frente às diferenças de classe, etnia/raça, dentre outras que foram aparecendo ao logo do tempo, ficando um pouco escanteado os debates em torno da religião.

Ainda amparados na crítica de Mahmood (2006), as teorias feministas sobre o conceito de agência e desejo autônomo de liberdade,

[...] uma questão raramente problematizada nestas análises é a universalidade do desejo de ser livre das relações de subordinação e, para as mulheres, das estruturas de dominação masculina, um desejo que é central no pensamento liberal e progressista e pressuposto pelo conceito de resistência que o próprio autoriza. (p. 128).

Se, de modo geral, buscamos avançar na compreensão de que a mulher pode ser um sujeito autônomo, pode ser dona do seu próprio corpo e destino, e com isso poderia encontrar formas de emancipação e desvencilhamento de situações de dominação, como compreender as experiências femininas baseadas em concepções de desígnios divinos? Quando o corpo é templo do sagrado e a missão é dada por uma divindade suprema? Estaria a mulher inserida nesse contexto fadada à opressão? Ou, ainda, a única forma de mudança e de bem viver seria o rompimento total com suas crenças?

E sobre o oposto, quando o desejo de liberdade é inerente e a vontade de mudança é relativamente autônoma, quais as reais possibilidades de uma subjetividade feminina livre? Quais os limites da liberdade feminina a partir dos contextos em que se inserem?

Inicialmente, portanto, pode-se pensar que o modo de vida está associado a uma prática de liberdade, uma possibilidade de criação, invenção e produção de formas de (re) existência ao que foi historicamente definido como aceitável. Entretanto, o universo do possível pode estar distante de sua concretização na realidade. Aquilo que seria a invenção de uma liberdade autônoma e criativa pode se tornar a reiteração de repertórios e regras de conduta. É neste ponto que a ideia de prescrição se insere como uma quebra, uma armadilha e possibilita um questionamento sobre o potencial presente nesses discursos que pretendem a liberdade dos sujeitos. As práticas de liberdade, as formas criativas de vida e as existências éticas e estéticas podem ser capturadas pelos discursos feitos com tom imperativo, que invocam a patrulha das condutas, sob o argumento de que esse movimento é justificável pelo ideal de liberdade que se almeja. (SANTOS, 2018, p.102). Longe de conseguir respostas para as inquietações acima, propomo-nos antes a tomá- las como ponto de partida para a compreensão de uma subjetividade feminina em devir (Deleuze e Guattari, 2008). Dessa forma, afastamo-nos do caráter prescritivo de pretensas subjetividades, e nos apoiamos nas infinitas possibilidades de ser mulher, ou ainda nas infinitas possibilidades de ser mulher no culto a Jurema Sagrada.

Devir, para Deleuze & Guattari (2008), não é transformar-se em, imitar ou se identificar. Refere-se antes a variações intensivas de movimento e repouso, velocidade e lentidão. Ou seja, o devir é, ao mesmo tempo, rápido e lento demais para a percepção porque excede suas categorias. Devir são acelerações e desacelerações, intensificações e relaxamentos de graus de intensidade, captados através da percepção por zonas de vizinhança que delineiam esquemas de composição (contrário à percepção por códigos e classificações que esboçam esquemas de representação). (SANTINI; CAMELIER, 2015, p.105).

Apontamos, então, para os infinitos caminhos possíveis da construção de uma subjetividade feminina no culto a Jurema, com temporalidades múltiplas, velocidades diversas, e existências e significações próprias, a partir dos encontros e desencontros com o outro e com o(s) mundo(s) – sendo este material ou espiritual. Para além disso, não apenas trazer à tona essas infindas formas possíveis de ser mulher e de construir uma subjetividade feminina, mas desafiar, a partir dessas possibilidades, nossas próprias categorias de pensamento. Apontar caminho para um entendimento de agência feminina menos preocupada com prescrições e pensada para além de um sujeito liberal universal.

7 ENTRE O VIVIDO E O NARRADO: MUITAS CONEXÕES, ALGUMAS