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Capítulo II - Percurso Metodológico

2. Sobre as Categorias do Trabalho

Pode-se perceber um movimento circular que engloba duas metades. “[...] o círculo entre narratividade e temporalidade não é um círculo vicioso, mas um círculo saudável, cujas duas metades se reforçam mutuamente” (RICOEUR, 1983, p. 15-16).

Ricoeur acrescenta um elemento importante na produção de sentido das narrativas por meio das quais a história se apresenta: o esquecimento. Para ele, memória, história e esquecimento são partes de um processo de significação da vida humana. Ao esquecer, os sujeitos que narram privilegiam e também desconsideram fragmentos do passado. O esquecimento distancia a memória do fato. “[...] o esquecimento continua a ser a inquietante ameaça que se delineia no plano de fundo da fenomenologia da memória e da epistemologia da história.” (id., 2014, p. 423). A reflexão de Ricoeur (ibid., p. 198) apresenta variações na concepção dos objetos históricos a serem pesquisados. Segundo ele, a história pode pesquisar desde uma ideia global até a ideia de história de uma comunidade ou indivíduo, podendo ela ocupar-se de uma macroestrutura ou de uma microestrutura.

Ricoeur aponta três fases para a produção científica da história. Estas são fases não hierárquicas que compõem o que ele denomina operação historiográfica:

Propusemos a palavra “fase” para caracterizar os três segmentos da operação historiográfica. Não deve haver aqui qualquer ambiguidade concernente à utilização do termo: não se trata de estágios cronologicamente distintos, mas de momentos metodológicos imbricados uns nos outros. (id., ibid., p. 147).

A fase documental ou memória arquivada objetiva a elaboração da prova documental (vai desde as buscas de testemunhas da história até a organização de arquivos); a fase da explicação e compreensão se refere ao sentido de verdade que o texto apresenta e a forma como será defendida diante dos questionadores. Por fim, a fase da representação historiadora compreende, especificamente, a produção de texto desenvolvida a partir da escrita.

Para a realização dessa dissertação, a pesquisadora inspirou-se nas reflexões de Ricoeur e buscou testemunhos da história, fazendo uso da subjetividade das narrativas evocadas por intermédio das memórias de pessoas pertencentes à Associação Comunitária Monte Azul, podendo ser trabalhadores atuais e egressos da instituição, voluntários e ex-alunos, que foram convidados para participar da pesquisa.

[...] tudo tem início no testemunho [...], não temos nada melhor que o testemunho, em última análise, para assegurar-nos de que algo aconteceu, a

que alguém atesta ter assistido pessoalmente, e que o principal, se não às vezes o único recurso, além de outros tipos de documentação, continua a ser o confronto entre testemunhos (RICOEUR, 2014, p. 156).

Também para a realização desta dissertação, a categoria “Esperançar” foi utilizada. Para Paulo Freire, o sentido da palavra esperança se desloca, se anima e se transforma em ação. A esperança é uma espécie de ímpeto natural possível e necessário

“[...] é condimento indispensável à experiência histórica. Sem ela, não haveria história, mas puro determinismo. Só há história onde há tempo problematizado e não pré-datado.

A inexorabilidade do futuro é a negação da história” (FREIRE, 2002, p. 29). Esperançar é um neologismo que emprega o sentido de ação ao que poderia ter o sentido de apatia (aqui referindo-se a esperar). Esperançar é construir o futuro: “[...] o futuro com que sonhamos não é inexorável. Temos de fazê-lo, de produzi-lo, ou não virá da forma como mais ou menos queríamos”. (FREIRE, 2001, p. 141).

Freire afirma que as ideias por si só não realizam, não fazem história. As ideias são construções que se concretizam por intermédio das realizações humanas:

Os homens [...] ao terem consciência de sua atividade e do mundo em que estão, ao atuarem em função de finalidades que propõem e se propõem, ao terem o ponto de decisão de sua busca em si e em suas relações com o mundo, e com os outros, ao impregnarem o mundo de sua presença criadora, através da transformação que realizam nele, na medida em que dele podem separar-se e, separando-se, podem com ele ficar, os homens, ao contrário do animal, não somente vivem, mais existem, e sua existência é histórica (id., ibid., p. 51).

A categoria Esperançar requer lançar o olhar para outras categorias de Paulo Freire que a completam. São elas Sonho, Situações-limites, Atos Limites, Inédito Viável, Ser Mais

O sonho, segundo Freire é “[...] uma conotação da forma histórico-social de estar sendo de mulheres e homens. Faz parte da natureza humana que, dentro da história, se acha em permanente processo de tornar-se” (FREIRE, 2001, p.126).

Afirma Freire:

Fazendo-se e refazendo-se no processo de fazer história, como sujeitos e objetos, mulheres e homens, virando seres da inserção no mundo e não da pura adaptação ao mundo, terminaram por ter no sonho também um motor da história. Não há mudança sem sonho como não há sonho sem esperança. (ibid., p. 126).

Os homens sonham sonhos individuais e sonhos coletivos. Em verdade, os sonhos

individuais se realizam e realizam o social, por meio das relações. É quando as instituições surgem. Segundo Freire “[...] é como seres transformadores e criadores que os homens, em suas permanentes relações com a comunidade, produzem, não somente os bens materiais, as coisas sensíveis, os objetos, mas também as instituições sociais, suas ideias, suas concepções” (FREIRE, 1970, p. 52). Ele acrescenta: “Não há realidade histórica [...]

que não seja humana. Não há história sem homens como não há, uma história para os homens, mas uma história de homens que, feita por eles, também os faz” (id., ibid., p.

65). Ainda segundo Freire, “Através (sic) de sua permanente ação transformadora da realidade objetiva, os homens simultaneamente criam a história e se fazem seres históricos sociais” (id., ibid. p. 52). Em outra obra, pode-se buscar a complementação do pensamento contido na citação anterior: [Os homens “(...) encontram em suas vidas pessoal e social, obstáculos, barreiras que precisam ser vencidas.” (FREIRE, 2001, p.

277). A essas barreiras ele denomina “situações-limites”. Nas situações-limites, a opressão se instaura e parece não haver saída para ultrapassá-las. Neste sentido, Freire acrescenta que:

Os homens e mulheres têm várias atitudes para a superação dessas “situações-limites”: ou as percebem como um obstáculo que não podem transpor, ou como algo que não querem transpor, ou ainda como algo que sabem que existe e que precisa ser rompido e então se empenham na sua superação (id., ibid.).

Para a superação das situações-limites, os homens lançam mão de suas criações.

É preciso reinventar. Essa reinvenção é denominada por Freire de “inédito viável”. O conceito de inédito viável encerra “[...] toda uma crença no sonho possível e na utopia desde que os que fazem a sua história assim queiram” (id. ibid.). Numa situação limite o homem pode se projetar para um processo de libertação em que, em um primeiro momento, acredita-se que não se tenha condições para a superação da opressão. Porém, na busca, percebe-se que é possível lançar mão de recursos próprios e criar condições para romper com a situação opressora:

[...] Não são as “situações-limites”, em si mesmas, geradoras de um clima de desesperança, mas a percepção que os homens tenham delas num dado momento histórico, como um freio a eles, como algo que eles não podem ultrapassar. No momento em que a percepção crítica se instaura, na ação mesma, se desenvolve um clima de esperança e confiança que leva os homens a empenhar-se na superação das “situações-limites” (FREIRE, 1970, p. 51).

Surge, então, o inédito viável, que é a mudança que acontece ao longo da história

dos homens e que suplanta a paralisia e produz libertação, enquanto se busca a utopia.

Esperança é prática. Precisa ser vivida. E, para isso, é preciso fazer enfrentamentos das situações-limites. É por meio de atos (que foram denominados por Paulo Freire de atos-limites14) que é possível aos homens transporem dificuldades extremas e se realizarem, ultrapassando as fronteiras entre o ser e o ser mais15. Os atos-limites “[...]

implicam numa postura decisória frente ao mundo” (FREIRE, 1970, p. 52). Enquanto as situações-limites podem provocar paralisia, fazendo o ser recolher seu potencial e passar a ser menos, negando a possibilidade do futuro inovador. Os atos-limites são a ação em relação às situações-limite. É preciso assumir postura crítica diante do mundo para superar as situações-limites e, então, ser mais. Sendo mais, toda pessoa e toda comunidade orgulham-se de si, percebe-se forte e autônomo/a e olha para a sua criação a partir da qual surge o inédito-viável. O inédito-viável é o fim de um processo que engloba percepção e realização:

O inédito-viável é na realidade uma coisa inédita, ainda não claramente conhecida e vivida, mas sonhada e quando se torna um “ percebido destacado”

pelos que pensam utopicamente, esses sabem, então, que o problema não é mais um sonho, que ele pode se tornar realidade (id., ibid., 2001, p. 279).

Todo o processo que abarca o Esperançar em Freire, se apresenta na história da Associação Comunitária Monte Azul. Pode-se perceber o sonho de que uma comunidade mantenha seu próprio trabalho educacional torna-se realidade, sendo antes utopia e, depois, inédito viável, realizado, apesar de todas as situações limitantes durante a história do curso Mainumby.

“Não há mudança sem sonho como não há sonho sem esperança” (id. ibid., p.

126).

14 Aqueles atos que se dirigem à superação do fato limitante, em lugar de implicarem na sua aceitação dócil e passiva.

15 Ou seja, alcançar o patamar de superar a condição de paralisia a princípio estabelecida por uma ou mais situações-limites e assim realizar-se e empoderar-se. Deixar, portanto de render-se ao que está posto, atuarsocial e politicamente, sendo assim mais do que se era, quando em situação de imobilidade social, sendo assim o ser mais proposto em Freire.

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