3. A construção ou a ciência da travessia
3.3. Procedimentos de investigação
3.3.1. Sobre as entrevistas e os documentos consultados
Inicialmente, foi realizada uma análise documental, tendo como referência as edições dos jornais da cidade que circulavam na época da implantação da Unidade do CEFET-MG22. As publicações feitas nessa mídia a respeito da implantação do CEFET na cidade datam de meados do ano de 1991 e seguem até que a implantação se efetive e todas as que se referem ao tema foram consultadas e analisadas. Os documentos e Atas das Sessões da Câmara Municipal de Araxá, do mesmo período e referentes à implantação, também foram consultadas e analisados, embora fizessem apenas breves menções ao tema. No desenvolvimento da pesquisa, a partir das falas das pessoas envolvidas, outros documentos foram descobertos e se constituíram em fontes importantes, a exemplo da Proposta de Grade Curricular para o curso de Mineração23 e o Projeto de Criação da UNED ARAXÁ, onde constam, dentre outros documentos, os Projetos de Reelaboração dos Cursos nos moldes do
22 Foram consultados todos os jornais locais que estiveram em circulação: o CORREIO DE ARAXÁ, o
JORNAL DAS GERAIS e O TEMPO. Foram analisadas, especificamente, as edições publicadas durante o
ano de 1991, anterior à implantação da UNED ARAXÁ, e nos primeiros meses de 1992, quando se deu efetivamente a implantação. Além disso, foram consultadas as Atas das Sessões da Câmara Municipal de Araxá referentes ao mesmo período.
CEFET-MG24 eas cartas de apoio à criação da Unidade, enviadas ao Diretor Geral do CEFET-MG, pela Associação Comercial e Industrial de Araxá (ACIA) e pelas principais empresas mineradoras da cidade.
As consultas a esses documentos alimentavam a expectativa de que fosse possível identificar, nos registros oficiais, nos relatos e nas falas das pessoas, os sinais do movimento decorrente da implantação da Unidade CEFET-MG, que teria supostamente se estabelecido na cidade. Essa procura teve continuidade com as entrevistas realizadas, o que proporcionou a possibilidade de que as pessoas expressassem mais diretamente suas expectativas em relação à educação profissional (mais especificamente a do tipo que é ministrado pelo CEFET-MG), seus posicionamentos acerca de questões pertinentes ao trabalho, ao trabalhador e o que presenciaram durante o processo de implantação da UNED ARAXÁ..
As entrevistas se deram a partir de roteiros específicos, mas articulados entre si25, de modo que fossem contemplados elementos da temática comum, considerando, no entanto, as particularidades e a realidade vivenciada pelos entrevistados: ex-alunos, na condição atual de trabalhadores; gestores de políticas públicas, representantes, na época, do poder público municipal, da direção geral do CEFET-MG (e o primeiro diretor da Unidade); da Câmara Federal, com representação no município; empresários, representantes das empresas e principais empregadoras dos alunos formados na Unidade; professores, preferencialmente os que ministraram aulas na EMINAS e na Unidadedo CEFET,desde a sua implantação; um informante- chave, que não cursou o CEFET, mas militava no sindicato na época da criação da Unidade e que representa os trabalhadores; um outro informante-chave, representando a comunidade, que havia acompanhado, como expectador, o movimento que se deu na preparação e instalação do CEFET-MG/UNED ARAXÁ.
As entrevistas foram gravadas mediante permissão dos entrevistados e o compromisso da manutenção do anonimato em relação às falas expressas. Antes do início das gravações, foram feitos os esclarecimentos a respeito dos objetivos, do caráter e da dimensão do estudo e, principalmente, a respeito dos vários nomes
24 Cf. CEFET-MG/PMA (1991).
comumente utilizados para designar a educação profissional26, além de alguns procedimentos preparatórios, a fim de que os entrevistados se sentissem à vontade ao fazer suas exposições. Alguns deles solicitaram, previamente, mais esclarecimentos a respeito do caminho do roteiro, a fim de que pudessem se preparar, mentalmente ou por meio de um esquema esboçado no papel, no que foram atendidos.
Nas entrevistas, a intenção foi “reconstruir o itinerário de construção do pensamento do outro, tratando de não desfigurá-lo” (OLIVEIRA, Paulo. 2001, p. 26), um caminho construído de forma apropriada, se consideramos que “a tarefa do pesquisador das ciências humanas é compor o quadro da lógica alheia” (CHARLOT, 2005) (informação verbal)27. Dessa forma, ao associar essa lógica às relações resultantes da realidade social vivida, é possível perceber e apreender grande parte das contradições presentes. Em função disso, como forma de garantir que as expressões exatas das entonações, das reticências, das dúvidas e das ênfases utilizadas fossem preservadas e fielmente transcritas, foi adotada, como forma de organização, a transcrição integral das falas dos sujeitos, tão logo a entrevista fosse realizada.
O foco das análises seguiu uma dinâmica na qual se procurou a inter-relação entre as falas dos entrevistados, aproximando e confrontando-as, de modo a identificar as contradições, os pontos comuns, as continuidades e os destaques dados aos temas tratados e/ou outros que surgissem. Esse movimento aponta a existência de concepções e preocupações semelhantes para os sujeitos, como também a existência de temas e preocupações que se manifestam de modo específico e significativo para um determinado grupo, não tendo nenhum significado para um outro.
26 Embora haja designações específicas, algumas elaboradas até pela própria legislação referente à
educação profissional, não raro se utilizam termos distintos para uma mesma modalidade. As distinções variam conforme concepções de educação adotadas por estudiosos e/ou pelas instituições que ministram a modalidade, de modo que formação técnica, ensino técnico, formação profissional, ensino profissionalizante, educação profissional de nível técnico, ensino profissional, formação tecnológica, educação técnico-profissional são termos utilizados em parte da produção acadêmica como similares.
27 Trecho da conferência de CHARLOT, Bernard. Relações com os saberes, relação com a escola. In:
COLÓQUIO INTERNACIONAL. História, políticas e saberes em educação escolar. Uberlândia, Universidade Federal de Uberlândia, 15 mar. 2005.
No que se refere ao número de sujeitos ouvidos em cada grupo, houve acréscimos de pessoas a serem entrevistadas à medida que a pesquisa ia se desenvolvendo, pois alguns interlocutores do período de implantação do CEFET- MG/UNED ARAXÁ foram sendo descobertos, principalmente durante as entrevistas e a leitura dos jornais e das atas de sessões da Câmara Municipal, seja quando algum relato os apresentava, seja quando havia algum outro tipo de referência a eles. Assim, dava-se conta de que esses novos sujeitos poderiam ser possíveis colaboradores de tal empreitada e constatava o valor da técnica de análise documental, no sentido de complementaridade, de desvelamento de novos aspectos de um tema, como salienta Lüdke (1996).
Dadas a solicitude e a receptividade dos sujeitos entrevistados, buscou-se facilitar ao máximo essa contribuição, de modo que as entrevistas foram realizadas em lugares que variaram conforme a vontade e disponibilidade daqueles. Assim, umas ocorreram nas empresas, nos órgãos públicos, outras nas moradias dessas pessoas e/ou da pesquisadora e algumas na própria UNED ARAXÁ.
O fato de trabalhar na instituição e conhecer, profissionalmente, todos os colegas entrevistados, além da familiaridade com o tema educação profissional, não podia ser desconsiderado. Ao contrário: impôs atenção redobrada em relação a eles, inclusive pelo fato de que meus posicionamentos políticos, profissionais e pessoais eram conhecidos dos colegas entrevistados e vice-versa, o que denota que a análise não abordaria um material apenas descoberto pela pesquisadora, mas um material do qual ela também é parte constituinte.
Finalmente, como recurso auxiliar da memória, foram adotados registros de idéias, de falas consideradas significativas, de nomes, enfim, reminiscências, algo de que a pesquisadora lançou mão, ao longo de todo percurso e nas reflexões posteriores/conclusivas.
Isso posto, é bom lembrar que este é um texto datado e, em decorrência disso, tem as marcas históricas de um tempo e de seus interlocutores. Seriam também marcados os escritos sobre qualquer tema e são, mais ainda, pelo fato de tratar, entre outras, de questões do trabalho e da educação que se encontram intimamente ligadas ao homem e à sua formação social. Mesmo que tenham sido tomados cuidados para que não fossem colocadas, no centro da pesquisa, as vontades e as concepções da pesquisadora, o fato de tal estudo ter sido elaborado por alguém cujo referencial foi construído ao longo do tempo, entre outros
elementos, pela experiência de vida como filha de trabalhadores e como trabalhadora, contribuiu sobremaneira para os posicionamentos assumidos, os autores de referência e o desenho político e histórico que o estudo apresenta. Essa característica particular de leitura, não autoriza dizer que este trabalho não pode ser questionado e que não demanda novos esforços de investigação e de novas fontes complementares. Sendo assim, fazem-se pontuações sobre o tema e não afirmações definitivas.
Enfim, esta é uma pesquisa que problematiza a educação profissional, seu processo de formalização, as expectativas dos sujeitos envolvidos e os impactos do capitalismo monopolista.