• Nenhum resultado encontrado

ACTORES E TERRITÓRIOS PSICOTRÓPICOS EM GUIMARÃES

NOTA FINAL

1. SOBRE AS RESPOSTAS INTERVENTIVAS

O percurso que fizemos pelos actores e pelos territórios psicotrópicos em que incidiu o nosso trabalho de campo mostra que, em Guimarães, esta realidade não se afasta daquilo que está caracterizado para outras realidades urbanas. A principal diferença em relação a contextos hoje já relativamente bem estudados, como são os casos de Lisboa e Porto, está na escala do fenómeno. Com efeito, nestas cidades existem concentradores espaciais das actividades em torno das drogas – aquilo a que temos vindo a chamar plataformas junkie (cf. Fernandes e Ramos, 2010) – com uma dimensão bem maior do que em Guimarães.

Isto não significa, porém, que devamos descansar sobre o facto de os “males dos outros” serem maiores do que os nossos. Por um lado, não pretendemos ter esgotado com esta pesquisa a caracterização dos consumidores problemáticos, outros trabalhos poderão revelar novas dimensões igualmente difíceis e desocultar novas necessidades. Por outro lado, a caracterização que fizemos, sobretudo a que mostra o tipo de trajectórias, a precariedade do quadro de vida e as práticas de risco dos consumidores problemáticos, evidencia bem a necessidade das respostas aos vários níveis em que tem de se intervir no fenómeno. Se, ao nível do tratamento, nas suas várias modalidades institucionais e terapêuticas, existe uma razoável resposta instalada (até porque o tratamento não tem de ocorrer no território mais próximo), ao nível sócio-sanitário ela deve ser reforçada. Os indivíduos com trajectórias que os colocam em situação de grande vulnerabilidade tanto social como sanitária, aqueles que estão mais longe das oportunidades e dos recursos, aqueles que têm na rua o seu principal cenário de vida, necessitam de respostas de proximidade.

Existe já uma equipa de redução de riscos e minimização de danos, de cujo trabalho demos notícia neste texto. Mas o seu poder operativo, ao nível dos recursos humanos, deveria ser aumentado, de modo a “fazer mais rua” – porque as zonas onde seria desejável intervir não se resumem ao centro histórico. Por outro lado, ao que sabemos, não existe na cidade nenhuma casa-abrigo que funcione como uma alternativa temporária a situações de grande precariedade, nomeadamente quando se está na de sem- abrigo.

Estas duas estruturas – equipa de rua e casa-abrigo – são fundamentais para ter capacidade de actuação na franja mais marginalizada e em situação mais crítica nos consumidores problemáticos, tendo um papel insubstituível no começo duma nova fase da trajectória de vida que possa levar os indivíduos a estruturas de cuidados e aos recursos (de formação profissional, laborais…) que representem uma alternativa reinsersora. O “problema da droga” não é algo que esteja confinado ao toxicodependente e aos cuidados especializados na área. Inflectir os percursos que conduzem às situações de que fomos dando abundante testemunho neste trabalho é uma tarefa de toda a comunidade – porque as determinantes das “trajectórias de exclusão” são múltiplas e intervir nelas envolve muitos agentes, desde os de suporte imediato (por exemplo a Segurança Social) até aos mais proactivos (sem dúvida, o tecido produtivo que possa gerar emprego).

Os dados recolhidos na comunidade (capítulo 8), embora apenas indicativos, já que seria necessário consolidá-los com mais pesquisa, apontam para uma reacção favorável à instalação duma sala de consumo de menor risco em Guimarães. Somos de opinião de que a iniciativa se justificava. Sem entrar, porque não é aqui o lugar, em grandes detalhes, diremos que se justifica por duas razões: uma prende-se com políticas sócio-sanitárias no campo das drogas, a outra com a intervenção concreta numa realidade concreta.

- Políticas sócio-sanitárias no campo das drogas: os países onde se avançou mais decididamente no enfrentar do problema dos toxicodependentes de maior gravidade sócio-sanitária, que marcavam a paisagem de algumas das mais conhecidas cidades europeias nas concentrações de “cenas abertas” – aquilo a que chamamos plataformas junkie – obtiveram resultados claros. O exemplo paradigmático é o da Suíça, que reverteu a “cena aberta” da famosa Spitzplatz de

Zurique, cujas fotografias da degradação a que tinham chegado centenas de toxicodependentes correram mundo, criando uma sala de consumo nas imediações (que incluía também programa de administração terapêutica de heroína, medida que não está contemplada no nosso quadro legal). Expandindo-se para vários cantões do país, a sua avaliação tem evidenciado resultados no controle sanitário de doenças infecciosas como o VIH e as hepatites, a adesão a cuidados mais estruturados por parte de muitos utilizadores das salas e a diminuição da insegurança urbana associada ao crime conexo à droga. O reconhecimento destes resultados está expresso na continuidade destes programas legitimada por sucessivos referendos.

- Intervenção concreta numa realidade concreta: as salas de consumo de menor risco são um dos instrumentos interventivos numa política que integra múltiplas respostas, desde a redução de riscos ao tratamento e à reinserção. A lei portuguesa contempla a sua possibilidade desde 2001. Tem sido argumentado por responsáveis das políticas das drogas que a sua pertinência já foi maior, pois a prevalência dos consumos de heroína está estabilizada desde há alguns anos. Mas diz-se com menos frequência que o número de novos casos de VIH entre os toxicodependentes voltou a aumentar recentemente, e que os consumos em condições impróprias, até pela exposição pública que por vezes assumem, com as consequentes perturbações para a vida das comunidades onde se concentram estas “cenas abertas”, continuam a ser uma realidade das nossas principais cidades. A criação de salas de consumo de menor risco justifica-se enquanto o fenómeno droga continuar a ter a expressão que tem e que, nos seus contornos principais, está hoje bem caracterizada. E o que a nossa pesquisa permitiu conhecer em relação aos actores e aos territórios psicotrópicos em Guimarães é coerente, a nosso ver, com a ideia de que uma estrutura deste tipo seria de utilidade.