3 A TEORIA DAS VIRTUDES COMO PARADIGMA DE RACIONALIDADE ÉTICA
4.2 SOBRE AS VIRTUDES E A QUESTÃO DO RELATIVISMO
133 “Quando Frankena afirma, corretamente, que, às vezes, emprego argumentos provenientes da filosofia analítica para decidir se determinada teoria ou conjunto de teorias fracassou, ele não me atribui nada que seja incompatível com meu historicismo ou com a minha rejeição da tese de que a filosofia analítica não pode nunca oferecer fundamentação suficiente para a afirmação de qualquer opinião positiva na filosofia moral” (MacINTYRE, 2001, p.452; cf. 1984, p.269).
Na segunda área dos esclarecimentos, as críticas estão mais centradas na parte substantiva de sua teoria, no caso, na elaboração do seu conceito de virtude para a contemporaneidade. O primeiro questionamento feito é sobre a crença macintyriana de que só é possível alcançar os bens internos referentes a uma determinada prática se o agente moral tiver como prioridade o exercício das virtudes envolvidas.
Em sua resenha, Scheffler está questionando que, ao contrário do que afirma MacIntyre, é possível para um jogador de xadrez não virtuoso alcançar os bens internos dessa prática:
Embora MacIntyre negue que se deduz dessa teoria (sobre a ligação entre as virtudes e as práticas) que grandes jogadores de xadrez não possam ser viciosos, não estou totalmente convicto de que ele tenha o direito de negá-lo e, de qualquer maneira, ele parece satisfeito ao dizer que algo que a mim dificilmente me soa mais plausível, isto é, que um grande jogador de xadrez que é vicioso não pode alcançar os bens internos do xadrez. (SCHEFFLER, 1983, p.446). 134
Nesse ponto, MacIntyre argumenta que Scheffler não tem razão, pois confunde bens internos com bens externos: o jogador de xadrez competente, mas vicioso, não almeja os bens internos da prática; almeja apenas vencer (a fama, o reconhecimento), que são bens externos (poderiam ser alcançados por qualquer meio).
Pensamos ter ficado claro, no terceiro capítulo, de que modo as virtudes são indispensáveis para obtenção dos bens internos às práticas. O exercício de cada virtude correspondente a cada bem interno – por exemplo, a virtude da coragem que faz com que o jogador saiba arriscar-se na medida certa, ou a virtude da justiça que faz com que o jogador não trapaceie mesmo se esse for o caminho mais curto para a vitória – e não é possível conduzir uma
134“Although MacIntyre denies that it follows from this account that great chess players cannot be vicious, I am not entirely convinced that he is entitled to deny it, and in any case he does seem happy to say something that strikes me as hardly more plausible, namely that a great chess player who is vicious cannot achieve any of the internal goods of chess”.
prática, seja ela qual for, de modo a alcançar os seus bens internos, senão pelo exercício de um ou mais virtudes.
O ponto central da argumentação de MacIntyre é que as práticas devem ser consideradas apenas o primeiro estágio do desenvolvimento lógico do conceito de virtude, pois, ficando apenas no âmbito das práticas, não é possível evitar o choque, ou conflito, entre as virtudes, tópico que já trabalhamos.
A relação das virtudes com as práticas [...] não implica nas consequências infelizes que Scheffler está inclinado a lhe atribuir. [...] Eu deveria ter deixado claro que não pretendia afirmar que a explicação inicial das virtudes em termos de práticas nos dá uma concepção adequada da virtude que é, então, meramente enriquecida e complementada ao ser vinculada às noções de bem de toda uma vida humana e de uma tradição continuada. Pelo contrário, não se deve considerar virtude nenhuma qualidade humana, a não ser que satisfaça as condições especificadas em cada um dos três estágios. (MacINTYRE, 2001a, p.460; cf.1984, p.274-275).
Logo, a admissão dos dois últimos estágios resolve o problema, pois a unidade narrativa da vida humana proporciona uma relação de interdependência entre as virtudes, assim como a inserção do agente moral numa determinada tradição estabelece normas de conduta que dificilmente excluiriam a justiça ou a coragem da sua lista de principais virtudes a serem cultivadas. Desse modo, a objeção de Scheffler só é pertinente se os dois últimos estágios forem ignorados. Por outro lado, é exatamente a admissão do terceiro estágio (a referência à tradição) que torna possível a crítica seguinte.
Ainda na mesma área de esclarecimentos, o segundo questionamento feito é sobre caráter relativista da teoria das virtudes de MacIntyre135. Em sua resenha, Wachbroit julga ser esse o mais relevante. Contudo, adiantamos que a resposta à acusação de relativismo não pode ser suficientemente desenvolvida apenas em Depois da Virtude. Para um tratamento satisfatório do tema, precisaríamos levar em conta toda a trilogia. Como esta dissertação concentra-se apenas na primeira das três obras, intencionamos fazer aqui uma abordagem introdutória do tema, visando apenas à ilustração do problema.
A acusação do caráter relativista feita à teoria das virtudes de MacIntyre é grave. Primeiro, porque o que ele critica e reprova na moralidade emotivista é, justamente, que ela cai no relativismo; segundo porque ele, naturalmente, está tentando evitar o relativismo ou a falta de referenciais para a moral através da sua reconstrução de um conceito de virtude apropriado para ética contemporânea. Acusá-lo nesse sentido é considerar mal sucedida a sua tentativa de superação dos desafios impostos pela sua crítica à moralidade moderna e contemporânea136.
Wachbroit constata que o relativismo é inevitável137 na teoria macintyriana em dois sentidos. O primeiro é que, ao admitir a existência de diversas tradições morais sem que haja nenhum critério externo a essas tradições, resta a cada tradição conduzir a moralidade de acordo com os próprios critérios. O segundo sentido é que, mesmo dentro de uma determinada tradição,
135 “Various critics have claimed that MacIntyre‟s theory locks its adherents into the very same kind of moral
relativism that MacIntyre claims to have overcome through his theory of rationality” (LUTZ, 2004, p.65).
136“There are more serious problems with MacIntyre‟s work; perhaps the most important involves moral relativism, a view that has recently received a number of different formulations in the philosophical literature. [...] Like emotivism, relativism holds that moral disagreements between individuals cannot be resolved rationally. […] Thus, if MacIntyre‟s position amounts to a moral relativism, he has not succeeded in providing us with a genuine alternative to emotivism” (WACHBROIT, 1983, p.575-576).
137
Martha Nussbaum, compartilha da opinião no seguinte sentido: “[…] the position of all this writers [Alasdair MacIntyre, Bernard Williams e Philippa Foot], where relativism is concerned, is complex; none univocally endorses a relativist view. But all connect virtue ethics with a relativist denial that ethics, correctly understood, offers any transcultural norms, justifiable by reference to reasons of universal human validity, by reference to which we may appropriately criticize different local conceptions of the good. And all suggest that the insights we gain by pursuing ethical questions in the Aristotelian virtue-based way lend support to relativism” (NUSSBAUM, 2001, p.200).
ocorrem mudanças ao longo do tempo e, desse modo, também não há nenhum critério fora de cada tradição que permita escolher entre as posturas mais antigas e as mais recentes.
Apesar da sua familiaridade com a história, sociologia e antropologia, MacIntyre não trata de forma alguma deste problema [o relativismo gerado pela pluralidade das tradições]. E também não trata bem do problema similar da mudança da moralidade no decorrer do tempo. Claramente os referenciais morais mudam quando mudam as tradições; disputas entre estas visões modificadas também parecem insolúveis. Ao que menos que MacIntyre possa especificar uma tradição que nós todos partilhamos (o que é duvidoso), parece haver apenas duas linhas de réplica. (WACHBROIT, 1983, p.576). 138
Para MacIntyre, a acusação de Wachbroit é legítima139, contudo, as duas réplicas apresentadas por Wachbroit são tendenciosas. De acordo com este, num debate entre duas tradições morais rivais e incompatíveis, restariam apenas duas opções para MacIntyre (2001a, p.462; cf. 1984, p.276) 140: “[...] ou será possível apelar a algum conjunto de princípios racionalmente fundamentados e independentes de ambas as rivais, ou não é possível nenhuma resolução racional de suas discordâncias”. A primeira alternativa é impensável, pois vai de encontro à avaliação que MacIntyre fez do projeto iluminista da moralidade. A segunda alternativa, apesar de ser mais coerente com a teoria macintyriana, não resolve o tipo de problema que surge na sua avaliação da moralidade emotivista.
138“Despite his familiarity with history, sociology, and anthropology, MacIntyre does not address this problem at all. Nor does he address the similar problem of the change of morality over time. Clearly moral standpoints change as traditions change; disputes among these changed views also seem unresolvable. Unless MacIntyre can specify a tradition we all share (which is doubtful), there seem to be only two lines of reply”.
139“É, em parte, o modo como caracterizei esse terceiro estágio na minha explicação sobre as virtudes que pareceu a mais de um crítico servir de base para uma acusação de relativismo. Robert Wachbroit argumentou que a minha caracterização do bem humano nos termos da busca do bem, mesmo com as restrições impostas pelos dois primeiros estágios, é incompatível com o reconhecimento da existência de tradições das virtudes distintas, incompatíveis e rivais. E nisso ele está certo” (MacINTYRE, 2001a, p.462; cf. 1984, p.275-276).
140 “Se for escolhida a primeira alternativa, porém, há realmente um conjunto de princípios ao qual apelar com relação a questões morais fundamentais cuja fundamentação racional seja independente das particularidades sociais das tradições; se for escolhida a segunda, não há racionalidade moral que não seja interna e relativa a determinada tradição. Mas, nesse caso, não podemos ter boa razões para aderir a qualquer uma dessas tradições e não a qualquer outra. E já que a minha rejeição do projeto do Iluminismo me obriga a negar o que se segue das duas alternativas acima, parece que não posso deixar de aceitar as consequências da segunda alternativa” (MacINTYRE, 2001a, p.463; cf. 1984, p.276).
Quanto a esse impasse, MacIntyre argumenta que não é possível apresentar a priori uma resolução para uma suposta incomensurabilidade entres duas tradições rivais. Enquanto solução provisória, seria recomendável escolher uma entre as diversas tradições que, num determinado contexto, seja capaz de proporcionar um maior número de soluções, de esclarecer um maior número de problemas, tal como no historicismo proposto por Kuhn. Essa solução não é
definitiva, mas pode ser considerada “a melhor teoria até o momento”.
Como comentei anteriormente, se em tais confrontos sucessivos, uma determinada tradição moral conseguiu reconstituir-se quando assim o exigiam ponderações racionais impostas a seus adeptos de dentro ou de fora da tradição, e ofereceu, em geral, explicações mais convincentes dos defeitos e fraquezas dos adversários e de si mesma do que esses rivais conseguiram oferecer [...] então, os adeptos daquela tradição terão direito, racionalmente, a uma grande dose de confiança que a tradição em que habitam e à qual devem a substância de sua vida moral, encontrará os recursos para resolver com êxito os desafios para o futuro. (MacINTYRE, 2001a, p.464; cf. 1984, p.277).
Na passagem acima, MacIntyre alia história (referência a uma tradição) e racionalidade e, embora não supere absolutamente o relativismo, afirma que há modos racionais de julgar as tradições. O fato de não superar totalmente o relativismo é assumido plenamente por MacIntyre
Diante disso, Wachbroit poderia replicar que não respondi à objeção dele, pois nada do que eu disse serve para demonstrar que não poderia surgir uma situação na qual se provou que não era possível descobrir uma maneira racional de resolver as discordâncias entre duas tradições morais e epistemológicas adversárias, de modo a fazer surgirem fundamentos positivos para uma tese relativista. Mas isso não me interessa negar, pois a minha posição acarreta não haver argumentos a priori bem-sucedidos que garantam antecipadamente que tal situação não poderia ocorrer. (MacINTYRE, 2001a, p.464-465; cf. 1984, p.277).
O risco de incomensurabilidade parece ser um preço que MacIntyre está disposto a pagar, ao menos enquanto a acusação de relativismo não for esclarecida suficientemente. Essa parece
aristotélica é o melhor exemplo que possuímos de uma tradição cujos adeptos têm racionalmente o direito a uma dose maior de confiança em seus recursos epistemológico e moral” (MacINTYRE, 2001a, p.465; cf. 1984, p.277).
CONSIDERAÇÕES FINAIS: UMA ÉTICA DE VIRTUDES PARA A