4 NOÇÕES DE IDENTIDADE
5.4 SOBRE DISCURSO, CRÍTICA, IDEOLOGIA E PODER
A noção de discurso tem sido amplamente utilizada nas ciências sociais, como parte integrante da ‘virada linguística’, que confere à linguagem papel mais central nos fenômenos
humanos, conforme apontado por Fairclough (2001). Contudo, nesses ramos de conhecimento, o discurso raramente aparece de forma sistematizada e operacionalizada (WODAK, 2008, p. 1). Exceção a isso pode ser percebida na Análise Crítica do Discurso, bem como na sua Abordagem Histórico-Discursiva, em que se verifica preocupação com a conceitualização desse termo.
Podemos afirmar que o discurso é compreendido como uma forma de prática social de uso da linguagem, expressando a ação das pessoas sobre o mundo e sobre os outros (FAIRCLOUGH, 2001). Todo discurso é concebido como entidade semiótica, inserida num cotexto imediato e em contexto intertextual e sóciopolítico (WODAK, 2008). Pode ser escrito, visual ou oral, verbal ou não-verbal, tomado por atores sociais num local específico, determinado por regras sociais, normas e convenções. A materialização do discurso são gêneros e textos. No caso em questão, o discurso será o dos refugiados e imigrantes retratados pela imprensa.
Os conceitos de crítica, ideologia e poder, que serão vistos na sequência, estão sendo considerados sob uma perspectiva multidisciplinar e discursiva, diferenciando-se e distanciando-se assim de habituais abordagens filosóficas e sociológicas. Dessa forma, não serão explorados à exaustão, em todos os seus campos de conhecimento, apenas o suficiente para entendimento das teorias e análises exploradas neste estudo.
Assim, a noção de ‘crítica’ em nossa pesquisa é assumida tal qual posta por Wodak (2004, p. 234) e significa “distanciar-se dos dados, situar os dados no social, adotar uma posição política de forma explícita, e focalizar a auto-reflexão, como compete a estudiosos que estão fazendo pesquisa”. Nesse contexto, estamos cientes de nosso local de fala enquanto diferente da condição enfrentada pelos refugiados e imigrantes ou pelos nacionais dos países de acolhida do movimento estudado, visto nossa vivência no Brasil, que é nosso local de nascimento, e adotamos esse olhar externo sobre a questão. Conforme visto anteriormente, seguimos o princípio da triangulação, com o objetivo de dirimir interpretações falhas ou tendenciosas (WODAK, 2008), entendendo que não existem discursos neutros ou desprovidos de pontos de vista (nem o nosso).
Também nos orientamos pelo método crítico de análise apontado por Fairclough (2001, p. 28) que implica mostrar conexões e causas ocultas (no discurso), além da intervenção para favorecer os que se encontram em desvantagem, sendo exatamente essa questão o centro de nossa pesquisa. Continuando, a AHD segue um conceito de crítica que integra três aspectos (REISIGL; WODAK, 2008, p. 88) que reforçam e aprofundam o que foi apontado por Fairclough:
(i) o texto ou discurso imanentemente crítico, que busca descobrir inconsistências, contradições, paradoxos e dilemas no interior do texto e discurso. No caso deste estudo, as contradições já se mostram evidentes no uso aparentemente indiscriminado e descompromissado dos termos refugiados e imigrantes pela imprensa, conforme visto na seção introdutória;
(ii) o sócio-diagnóstico crítico, para desmistificar o que há de persuasivo ou manipulativo (manifesto ou latente) numa prática discursiva. Faz uso do conhecimento contextual e/ou teorias sociais para essa interpretação. Nesse sentido, vamos confrontar história e realidade dos movimentos migratórios com o que é noticiado pela imprensa; e
(iii) a crítica relacionada à perspectiva futura para contribuir com uma melhoria da comunicação (através, por exemplo, da divulgação dos resultados desta pesquisa através de manual de orientação com especificidades de cada grupo migrante).
‘Ideologia’ é entendida aqui como o ponto de vista unilateral de um determinado grupo, que funciona para estabelecer e/ou manter relações desiguais de poder. “O discurso, enquanto prática ideológica, constitui, naturaliza, mantém e transforma os significados de mundo de posições diversas nas relações de poder” (FAIRCLOUGH, 2001, p. 94). A AHD tem interesse particular em estudar como a ideologia é mediada e reproduzida na língua e em outras práticas semióticas em várias instituições sociais (REISIGL; WODAK, 2008, p. 3 apud PONTES, 2010, p. 45).
Se pensarmos nesse conceito no âmbito do objeto de estudo pesquisado, podemos afirmar que a mídia sobre a migração é um campo essencialmente ideológico, em que apenas o ponto de vista dos grupos dominantes parece ser legitimado nos discursos. Uma evidência disso é a quase total ausência de acesso discursivo dos refugiados e imigrantes na cobertura do fluxo migratório investigado79. De forma empírica, verificamos que estes atores sociais praticamente não opinam sobre a questão e são quase sempre referenciados de forma generalizada. Quando têm voz, de maneira geral, os refugiados e imigrantes falam sobre sua experiência migratória, sem se levar em conta outros papeis que possam vir a assumir.
Na compreensão da AHD (REISIGL; WODAK, 2008, p. 4 apud PONTES, 2010, p. 45), ‘poder, identifica-se com a relação assimétrica entre atores que assumem posições sociais diferentes ou pertencem a grupos distintos. A AHD se interessa não só pelas formas
gramaticais, mas também pelo controle exercido pelas pessoas em determinado gênero textual (ex. as notícias) ou a regulação do acesso a certas esferas públicas (ex. a produção de notícias). Fairclough (2001) complementa esse conceito ao afirmar o interesse da ACD em investigar a luta e a transformação nas relações de força por meio dos usos da linguagem, indo na contramão de uma ‘visão estática das relações de poder’ que concebe a linguagem apenas como local de reprodução das relações de poder existentes.
Sobre a relação desigual de poder no movimento migrante, encontramos em Sayd (2010) passagem que mostra o imigrante como ser apolítico, sem direitos e oportunidades de exercer sua cidadania no país de abrigo, o que se reflete em sua quase ausência no discurso jornalístico.
Excluir da ordem política, mandar o imigrante embora, enquanto estrangeiro, do ponto de vista da nacionalidade, para fora do campo político; relegar o imigrante àquilo que é estrangeiro à política porque ele é politicamente estrangeiro ao político, é uma forma para a ordem democrática de acertar contas com seu ideal igualitário: basta delimitar o campo do político […] para que a ordem e a moral estejam sãs e salvas. (SAYAD, 2010, p. 276).