PARTE III – UTOPIA: PARA UMA FORMAÇÃO DOS PROFESSORES DE ARTES VISUAIS EM PORTUGAL GERADORA DE NOVAS PRÁTICAS EDUCATIVAS
SOBRE O ENSINO BÁSICO DAS ARTES VISUAIS EM PORTUGAL
Nas décadas de 60 e 70, Alfredo Betâmio de Almeida (1920-1985) e Manuel Maria Calvet de Magalhães (1913-1974), professores metodólogos no Liceu Pedro Nunes e na Escola Técnica Elementar Francisco de Arruda, respectivamente, desenvolveram reflexão teórica sobre o ensino das Artes Visuais. Neste âmbito, publicaram alguns artigos que visam traçar retrospectivas históricas sobre este ensino, nomeadamente O Desenho no Ensino
Liceal (Betâmio de Almeida, 1960)3, O Ensino do Desenho (Calvet de Magalhães, 1960)4 –
ambos produzidos aquando da comemoração do centenário do ensino do Desenho – e O
Ensino dos Trabalhos Manuais Educativos (Calvet de Magalhães, 1962)5, que, como
primeiras abordagens a esta temática, proporcionaram-nos uma visão geral da mesma, no nosso país, até essa altura.
As dissertações de mestrado de Margarida Rocha (n. 1950)6, na época, Margarida Grade – A Educação Visual no Ensino Básico (2º ciclo): Os Professores em Início de
Carreira e a Orientação dada ao Programa (1993)7, e de Lígia Penim (n. 1959)8 – Da
disciplina do Traço à Irreverência do Borrão (2001)9foram-nos muito úteis na compreensão
de determinados períodos que se complementam, uma vez que a segunda incide sobre o ensino do Desenho e dos Trabalhos Manuais entre 1836 e 1972, marcado pelas reformas educativas de 1936 e de 1947-48, e a primeira que, para equacionar a relação entre a
3Betâmio de Almeida, “O Desenho no Ensino Liceal”, in Palestra: Revista de Pedagogia e Cultura, n.º 10, pp. 35-66. 4Calvet de Magalhães, “O Ensino de Desenho”, in Revista Portuguesa de Pedagogia, vol. 1, n.º 2, pp. 383-400.
5Calvet de Magalhães, “O ensino dos Trabalhos Manuais Educativos”, in Revista Portuguesa de Pedagogia, vol. 3, n.º 1,
pp. 87-101.
6Margarida Rocha, licenciada em Artes Plásticas – Pintura pela Escola Superior de Belas-Artes de Lisboa (1976),
dedicada à formação de professores de Artes Visuais a partir de 1984, é docente, neste âmbito, na Escola Superior de Educação de Setúbal, desde 1993.
7Margarida [Rocha], A Educação Visual no Ensino Básico (2º ciclo): Os Professores em Início de Carreira e a Orientação dada ao Programa. Dissertação de Mestrado em Ciências da Educação, orientada por Isabel Cottinelli Telmo, e
apresentada à Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa, em 1993.
8Lígia Penim, licenciada em História pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (1982), exerceu docência em
várias escolas do ensino básico e secundário, sendo, desde há alguns anos, professora na Escola Secundária Lima de Freitas, em Setúbal.
9 Lígia Penim, Da Disciplina do Traço à Irreverência do Borrão. Dissertação de Mestrado na área de História da
Educação, orientada pelo Professor António Nóvoa, e apresentada à Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Lisboa, em 2001.
formação dos professores e a orientação dada ao programa de Educação Visual no 2º ciclo, realiza uma breve retrospectiva da disciplina, recuando a 1948 até alcançar 1992, ano da última reforma.
Numa linha de pensamento que segue as teorias à volta do conceito de auto-governo, Lígia Penim em Da disciplina do Traço à Irreverência do Borrão desconstrói a realidade do ensino do Desenho e dos Trabalhos Manuais, no período que medeia a reforma de 1918, de cariz racionalista, e a reforma de 1948, de orientação expressionista, através de uma análise incisiva dos exames de estado e dos relatórios anuais, exigidos aos professores, nessa época em que tudo era minuciosamente controlado, e explora bem o significado de uma liberdade inerente à segunda reforma, de acordo com a autora, aparente. De facto, parece que só em teoria a mencionada irreverência acontecia, tanto que, pelas conclusões a que chega, quase nos atreveríamos a dar um outro nome à sua obra: Da disciplina do
traço à ilusória liberdade do borrão, uma vez que, quando a lemos, temos dificuldade em
perscrutar onde se encontra a “bem fadada” irreverência.
Mais recentemente, a tese de doutoramento de Elisabete Oliveira (n. 1942)10 – O
Desenvolvimento Estético dos Adolescentes em Educação Visual e a Concepção Pedagógica dos Professores (2004)11, foi, para nós, uma ajuda fundamental, uma vez que, para além de todo um enquadramento histórico e conceptual teórico da Educação Estética Visual, como prefere denominá-la, a educadora e formadora, oferece-nos um espólio documental de imagens que representam as práticas de Educação Visual em Portugal desde os anos 40 até 2001, permitindo-nos uma aproximação a este ensino que, de outro modo, seria sempre limitada.
10Elisabete da Silva Oliveira, licenciada em Pintura pela Escola Superior de Belas-Artes de Lisboa (1965), iniciou a sua
actividade como professora do antigo 5º Grupo no mesmo ano. Leccionou no ensino preparatório, em 1965-66 (Lisboa), e no ensino liceal, entre 1965-66 e 1984-85 (Lisboa, Faro, Santarém, Queluz, Coimbra), com excepção do ano lectivo de 1975-76, no qual leccionou nos Magistérios Pré-Primário e Primário (Coimbra). Formadora de Professores para as reformas curriculares de 1970, 1970-1974 e 1991, ingressou como docente na Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Lisboa em 1985, tendo sido responsável, entre 1985 e 2006, pela formação em serviço dos professores de Artes Visuais naquela Universidade. Entre 1988 e 1993 integrou também algumas acções de formação contínua na Associação Portuguesa de Expressão e Cultura Visual (APECV). Foi também planeadora curricular nacional nos âmbitos do 5º Grupo (1970, 1974-1978) e do Magistério Primário (1976), e da formação em serviço da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Lisboa (Metodologias, Didáctica da Educação Visual e Tecnologia Educativa), assim como consultora para a Reforma dos Programas do 5º Grupo (1990-1991).
11Elisabete Oliveira, O Desenvolvimento Estético dos Adolescentes em Educação Visual e a Concepção Pedagógica dos Professores. Tese de Doutoramento na área de Desenvolvimento Curricular e Avaliação em Educação, orientada pela
Professora Doutora Sara Baía, apresentada à Universidade de Lisboa pela Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação, em 2004.
Por fim, a tese de doutoramento de João Pedro Fróis (n. 1957)12– As Artes Visuais na
Educação: Perspectiva Histórica (2005)13, com um capítulo dedicado à “Reflexão sobre a
Educação Estética e Artística em Portugal”, também ampliou a nossa compreensão no âmbito desta temática, quer no passado, nomeadamente através da análise do eixo da racionalidade formal escolar, protagonizado por Calvet de Magalhães e por Betâmio de Almeida, quer na contemporaneidade, para o que contribuíram os desenvolvimentos sobre o Programa Integrado de Artes Visuais: Primeiro Olhar, e sobre o Currículo Nacional do
Ensino Básico: Competências Essenciais, duas propostas de orientação cognitiva para a
Educação Visual, nas quais participou o autor desta tese.
Para além disso, as entrevistas que realizámos no âmbito desta investigação, em especial aquelas dirigidas aos docentes das Escolas Superiores de Educação que foram responsáveis por orientar a Prática Pedagógica, e contactaram com o ensino das Artes Visuais na actualidade, também nos deram uma perspectiva sobre esta realidade.