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Sobre este trabalho e princípios de análises

No documento Não - Palavras (páginas 79-81)

5 PERCURSO METODOLÓGICO

5.1 Sobre este trabalho e princípios de análises

Não somos todos iguais, ao contrário do que tentam nos convencer. Somos todos diferentes e ao mesmo tempo semelhantes e, por isso, temos a capacidade de reconhecer no outro aquilo que também sentimos, fazendo desse reconhecimento o fio que nos liga. A diferença-semelhante nos une, a igualdade nos anula.

Por mais que durante este trabalho tenhamos tratado as pessoas com deficiência como um grupo, não concordamos com essa divisão e a utilizamos, porque sabemos que o mundo e todo universo literário nos categoriza de alguma forma, como: normais x anormais, brancos x negros, mulheres x homens, etc. Pois acreditamos que essa categorização tão sistemática e absoluta pode contribuir com a criação de diferenças superiores e diferenças inferiores. Mas isso é uma opinião pessoal que não interfere diretamente nesta pesquisa, tanto que tratamos o tempo todo como grupo de pessoas com deficiência.

Entendemos que cada ser traz sua unicidade, mas embora seja único não carrega em si mesmo a capacidade una e como já discutimos no capítulo segundo, bem como em Kaspar Hauser, entendemos que todo ser único é povoado de outras vozes, mas entrega ao mundo seu olhar singular e seu ponto de vista único a partir de tudo aquilo que interage. Vimos também o papel da memória quando traz para o presente, sentidos do passado que são constantemente parafraseados por meio de pontos de vista únicos e simultaneamente consensuais.

Já vimos ainda que para Bakhtin (2010) não existe verdadeiro sentido. Isto é, a noção de verdade universal e tida como natural, chamada de Istina em contraposição com a verdade temporária, sempre em construção, chamada de Pravda. “A inclusão responsável na singularidade única reconhecida do ser-evento é o que constitui a verdade” (Bakhtin, 2010, p. 95). A verdade em uma relação pode ser outra verdade, em outra relação.

Tudo está ligado ao dialogismo. Inclusive acabamos de apresentar um exemplo desse pensamento no capítulo anterior, uma vez que em algumas partes da História, povos valorizaram e se beneficiaram dessas diferenças únicas das pessoas com deficiência, enquanto outros nem tanto. Por isso, levando em consideração a memória consensual parafraseada podemos perceber que, se as pessoas com deficiência estão nesse ponto da história na sociedade atual, possivelmente o motivo seja que a grande maioria dos nossos antepassados optaram por

desvalorizar essa diferença. Poderíamos inclusive dizer que guerrearam simbolicamente contra eles ao custo de suas vidas, sua dignidade e liberdade. Pois já compreendemos também que é o colonizador que sempre narra a história e os discursos ideológicos estão sempre impregnados de suas versões.

E aqui, em relação as pessoas com deficiência na contemporaneidade, nos caberia reproduzir a mesma pergunta que permeia a obra de Geraldi (2015): com que palavras se farão esses novos atos? Uma vez que os sentidos são sempre produtos dos sujeitos carregados de interpretante e suas histórias. É preciso que elas surjam das vozes outras.

E assim podemos acrescentar outras perguntas: haverá liberdade para eles na história futura? Uma pessoa com deficiência poderá desfrutar da plenitude de ser apenas única? Onde sua diferença não seja menor ou maior que a minha, a sua ou as nossas? Sem aparatos, arranjos ou justificativas?

Acreditamos que olhar o passado é uma forma de iluminar o futuro, então, buscamos um caminho metodológico que também pudesse mover-se na mesma direção em que temos trabalhado até aqui.

Por isso ainda sob a perspectiva de Bakhtin (1997) temos no autor o cotejo como percurso metodológico.

O cotejo que é uma forma de investigar e relacionar possíveis semelhanças e diferenças de uma determinada realidade nos ajuda na constituição desse trabalho. O cotejo bakhtiniano faz exatamente a compreensão de um texto com outros textos, pois, desde o início desta dissertação, partimos do pressuposto que em todo tempo, onde colocamos dois autores se margeando já estamos realizando um exercício de cotejo e não apenas deles, mas também minha enquanto autora, pois, de algum modo, estou dando vida a tantos autores com minhas próprias palavras, trazendo a expressão deles para dentro de mim e logo depois devolvendo em escrita e novos pensamentos em um processo “eu-outro” a partir também da perspectiva das pessoas com deficiência e da leitura que faço do universo deles, a qual de forma identitária não participo. E, por isso mesmo, me propus, neste trabalho, a fazer um cotejamento também, neste sentido, investigando e catalogando as leis federais do Brasil (ver apêndice), que citassem de algum modo este grupo de pessoas, (não apenas dentro do Estatuto das Pessoas com

Deficiência), a fim de buscar dentro delas as mudanças nas vozes das leis. Após a realização

deste levantamento, que durou cerca de 3 meses entre coleta e análises, escolhemos um só termo dentre tantos que surgiram, porque sabíamos que novas leis, muitas vezes, exigem novas palavras. E, a partir da escolha deste único termo, acompanhamos seu trajeto e observamos as

mudanças que essas vozes foram trazendo e alterando o universo de todos. Ou seja, as lutas do grupo chamado de pessoas com deficiência também causaram importantes alargamentos na realidade dos considerados “normais” e isso só pôde ocorrer por meio do dialogismo que tanto temos falado aqui utilizando o pensamento bakhtiniano.

Neste levantamento, demos mais atenção ao século XX, pois foi neste período que as grandes mudanças aconteceram como observamos no capítulo anterior - onde palavras precisaram nascer a partir de demandas que antes não existiam. Como essas lutas simbólicas foram necessárias para que essas palavras emergissem e acudissem essas pessoas, como por exemplo, a expressão “Terapia Ocupacional6”, pois, até antes da guerra, ninguém esperava se deparar com cenários que demandassem novas palavras, novas possibilidades ou novas carreiras. Mais sobre essa profissão poderá ser visto na nota de rodapé.

A ideia foi, portanto, fazer um levantamento das leis voltadas para o grupo de pessoas com deficiência em diferentes períodos e entender um pouco de seus contextos e, posteriormente escolher um único termo para acompanhá-lo de forma ainda mais estreita.

A seguir, veremos uma tabela com leis voltadas excepcionalmente para o grupo de pessoas com deficiência - contendo parte do levantamento que fizemos em março, abril e maio de 2018 - fruto também de guerras simbólicas que ocorreram entre esses sujeitos dominantes e dominados e, depois disso, pontuaremos com algumas observações essas tabelas aqui postas e no capítulo seis, iremos desdobrar nossa análise sobre o termo escolhido: “acessibilidade”.

No documento Não - Palavras (páginas 79-81)

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