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Sobre imperadores e conquistas, sobre viajantes e narrativas

1. Primeira visada: o olhar contemplativo e a autocontemplação

1.6. Sobre imperadores e conquistas, sobre viajantes e narrativas

Parece oportuno por aqui, discorrer acerca de alguns aspectos que podem

vir a nos auxiliar para um trabalho de análise que se propõe, agora, a iluminar, ainda

que brevemente, dois temas que se mostram relevantes para a abordagem do Livro

do Desassossego.

Trataremos, sobretudo, dos motivos ligados às conquistas e às viagens e,

para tanto, convocamos agora Ítalo Calvino e o seu As Cidades Invisíveis.

Antes de tudo, vale destacar que As Cidades Invisíveis filia-se ao rol das

obras de incerta classificação no que diz respeito ao gênero, o que, de certa forma,

a aproxima, inclusive, do ponto de vista estrutural, do Livro do Desassossego, objeto

privilegiado de pesquisa no presente capítulo desse nosso trabalho de investigação.

Inúmeros estudiosos já fizeram alusão à dificuldade de rotular com precisão

essa obra de Calvino. A título de exemplificação, reproduzimos a seguir uma delas

que, adicionalmente, retoma uma qualificação do próprio autor:

O primeiro obstáculo que se coloca na análise surge na definição do género da obra. Não é percetível [sic] se nos deparamos com um romance, um livro de contos, um tratado filosófico, ou se as pequenas narrativas são fábulas, contos ou poemas-apólogos. Calvino qualifica os seus textos "entre o apólogo e o pequeno poema". A dificuldade em definir o género estende-se à estrutura formal da obra sendo difícil classificar se as nove partes em que se divide são capítulos, secções ou unidades. (SILVA, 2013, p. 15)

Ainda com base no mesmo estudo do qual extraímos a citação anterior, é

oportuno acrescentar que, do ponto de vista formal

A organização dos textos reflete uma ideia de cidade que se transforma num processo contínuo de construção e de desconstrução. A numeração dos textos, crescente e decrescente, também pode ser analisada como o reflexo do império de Kublai Kan, que deambula entre a decadência e a esperança de um futuro. (idem)

No entanto, interessa-nos aqui apenas tecer algumas considerações à talvez

mais emblemática obra de Calvino, fixando nossa atenção ao que se passa no

estado de espírito de um conquistador do porte de Kublai Khan em determinado

momento situado exatamente na tomada de consciência por parte do imperador de

que as suas inúmeras realizações, materializadas na forma de territórios e cidades

conquistadas sofreriam a extrema transformação que o levaria a um sentimento de

vazio, de nulidade, em muito semelhante ao vazio experimentado por Bernardo

Soares ao se dar conta e reler, cuidadosamente, tudo aquilo que tinha escrito.

Não se sabe se Kublai Khan acredita em tudo o que diz Marco Polo quando este lhe descreve as cidades visitadas em suas missões diplomáticas, mas o imperador dos tártaros certamente continua a ouvir o jovem veneziano com maior curiosidade e atenção do que a qualquer outro de seus enviados ou exploradores. Existe um momento na vida dos imperadores que se segue ao orgulho pela imensa amplitude dos territórios que conquistamos, à melancolia e ao alívio de saber que em breve desistiremos de conhecê-los e compreendê-los, uma sensação de vazio que surge ao calar da noite com o odor dos elefantes após a chuva e das cinzas de sândalo que se resfriam nos braseiros, [...] (CALVINO, 1990 [a], p. 9)

No caso do imperador, é como se houvesse o ato de desistência voluntária,

de negação a tomar conhecimento e a tentar compreender a amplitude dos

territórios amealhados e que passaram a compor a grandeza absoluta de um

império que não poderia ser confrontado por nenhum outro existente, dada a

imensidão e o poderio que adquirira.

É como se a tomada de consciência do Khan pudesse ser associada à de

Soares, ao perceber uma obra finalizada: mas será que valera, enfim, a pena? Ou

tudo não passara de uma falsa e ilusória conquista?

O Grande Khan tentava identificar-se com o jogo: mas agora era o motivo do jogo que lhe escapava. O objetivo de cada partida é um ganho ou uma perda: mas do quê? Qual era a verdadeira aposta? No xeque-mate, sob os pés do rei derrubado pelas mãos do vencedor, resta um quadrado preto ou branco. Com o propósito de desmembrar as suas conquistas para reduzi-las à essência, Kublai atingira o extremo da operação: a conquista definitiva, diante da qual os multiformes tesouros do império não passavam de invólucros ilusórios, reduzia-se a uma tessela de madeira polida: o nada... (CALVINO, 1990[a], p. 113)

Acerca do viajante e da narrativa. Em As Cidades Invisíveis, o célebre

viajante veneziano Marco Polo é o interlocutor privilegiado do Grande Khan, que

ouve com redobrado interesse os relatos do jovem explorador, dedicando a ele uma

atenção que não direciona a quaisquer outros dos seus enviados ou representantes.

E é só por meio das narrativas de Marco Polo que o imperador é capaz de

aquilatar a amplitude de suas conquistas de territórios e cidades tão diversos entre

si. É apenas pela mediação das narrativas do veneziano que as fronteiras

monstruosas e indefiníveis de um império imortal e invencível se tornam

apreensíveis ao entendimento do imperador Kublai Khan, que as cidades

improváveis e invisíveis ao seu olhar, adquirem concretude. Apenas pela força das

narrativas do veneziano. E este não se furta, afinal, de dispensar ao imperador um

conselho definitivo que pode ter o dom de proporcionar a manutenção da

concretude de suas tantas e tantas cidades que tantas e tantas vezes aparentam

ter sua existência associada apenas ao campo da irrealidade, da ilusão, da ficção:

as cidades invisíveis.

– Eu não tenho desejos nem medos – declarou o Khan – ,e meus sonhos são compostos pela mente ou pelo acaso.

– As cidades também acreditam ser obra da mente ou do acaso, mas nem um nem o outro bastam para sustentar as suas muralhas. De uma cidade, não aproveitamos as suas sete ou setenta e sete maravilhas, mas a resposta que dá às nossas perguntas. (CALVINO, 1990[a], p. 44)

Em linha com um dos segmentos anteriormente destacados do Livro, uma

vez mais é possível perceber o tom niilista, aparentemente feito de descaso com

que Soares trata suas sensações e impressões diante da vida. O fechamento

dessas impressões – estamos nos referindo ao fragmento 170 – carregado de

reticências, apenas reforça o humor amargo a cobrir a percepção da verdade.

Vejamos:

Mais vale escrever do que ousar viver, ainda que viver não seja mais que comprar bananas ao sol, enquanto o sol dura e há bananas que vender. Mais tarde, talvez... Sim, mais tarde... Um outro, talvez... Não sei... (PESSOA, 1999, p. 183)

A (in)coerência é a tônica que caracteriza o Livro, no qual escrita e leitura vão

dialogando em meio às tensões tramadas por Soares, que sempre exige do

pesquisador, em relação às impressões dispostas no Livro, uma posição de cautela

que o salvaguarde de contradições.

Se viver não é mais do que comprar bananas, qual seria o lugar da presença

da ilusão que cerca indistintamente tanto o prosaico de tal ação quanto qualquer

realização associada à arte, o escrever, por exemplo?

Fechemos, por ora, as considerações que estamos a compor, motivadas pela

análise de impressões lançadas em fragmentos dispersos nas páginas do Livro do

Desassossego, a rigor, um livro eternamente por fazer.

Assim como a incompletude formal e temática do Livro se mostra sempre

aberta a quem se aventure a tentar para ele um novo rearranjo, entendemos

também que a multiplicidade de impressões provocada pelos olhares dispensados

aos espaços urbanos de Lisboa pode vir a fazer surgir uma mesma e diferente

cidade, o tempo todo.

Um espaço urbano comum – Lisboa. Diferentes olhares, sob diferentes

perspectivas. Lisboa, ou uma cidade qualquer? “E tudo quanto faço, tudo quanto

sinto, tudo quanto vivo, não será mais que um transeunte a menos na

quotidianidade de ruas de uma cidade qualquer.” (PESSOA, 1999, p. 418). Isso

reforça o fato de que se trata muito mais do próprio sujeito a autofocar-se do que à

cidade em que vive.

O espaço, nesse caso, parece existir como pré-texto e pretexto para outro e

verdadeiro texto: o do eu-escritor, em sua autocontemplação.

Deixemos, na solidão de uma mansarda qualquer, de alguma rua de Lisboa,

em repouso, o olhar contemplativo de Pessoa/Soares. Ajustemo-nos à busca pela

perspectiva do paralelo. Trilhemos, agora, os caminhos da cidade propostos pelo

olhar desdobrado de Saramago/Raimundo Silva.