A Favela do Aço entra em minha vida no ano de 2005, quando, contratada por uma ONG que atuava junto à Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, desenvolvia oficinas semanais com jovens, do sexo feminino, “envolvidas com a exploração sexual”. Propositalmente, coloco entre aspas “envolvidas com a exploração sexual”
porque assumimos como diretriz de trabalho, o plano nacional de enfrentamento a violência sexual infanto-juvenil, que indica a necessidade de um olhar diferenciado para crianças em situação de rua, que pressupõe uma condição de vulnerabilidade frente à exploração sexual.
Foram 18 meses de projeto, e nesse tempo, tive a oportunidade de acompanhar e refletir como as medidas protetivas podem se transformar em medidas punitivas, principalmente quando falamos de famílias pobres. Incontáveis foram as visitas domiciliares realizadas, todas elas motivadas pelo acompanhamento das famílias das crianças e adolescentes atendidas pelo projeto – eixo principal de atuação da assistência.
Com isso, conhecer as favelas do Rio de Janeiro aconteceu de forma natural aos integrantes da equipe, pois, muitas crianças encontradas nas ruas são moradoras das favelas cariocas. Vidigal, Ladeira dos Tabajaras, Manguinhos, Mangueira, Vila Kennedy, Vila Cruzeiro, Baixa do Sapateiro, Morro da Formiga, Vila do João, Vila Pinheiros, Jacarezinho, Antares, Favela do Aço, dentre muitas outras - zona sul, zona norte e zona oeste, todas elas cobertas pelo projeto “Me cansei de
Lero-Lero”, executado pela Secretaria Municipal de Assistência Social, gerenciada pelo Núcleo de Direitos Humanos dessa secretaria.
O convívio com a população mais empobrecida da cidade, especialmente aqueles que possuíam a vivência das ruas, fez com que eu entrasse em contato com uma política de assistência social no seu caráter mais higienista, onde se privilegiava a retirada desses indivíduos das ruas e das calçadas da cidade, principalmente quando inseridos na zona sul da cidade. A cobrança pela retirada dessas pessoas chegava diariamente à ouvidoria da SMAS. Foram muitos plantões andando por Copacabana. Quilômetros e quilômetros de calçadão cobertos por nossas equipes. Crianças, jovens e idosos eram abordadas e encaminhadas para os equipamentos públicos: central de triagem de adultos e de crianças; abrigos; conselhos tutelares; delegacias... Infindáveis fichas preenchidas.
Números, metas, política da visibilidade. Só de lembrar, já fico cansada!
Tínhamos, como já falado, a cidade inteira para trabalhar. Éramos uma equipe de aproximadamente 25 pessoas. Contávamos com cerca de 20 educadores sociais, cuja função era abordar crianças e adolescentes em situação de rua, priorizando as áreas mapeadas e identificadas como ponto de prostituição.
Convencê-las a conhecer o projeto e finalmente, retirá-las dessa situação a partir de um contato mais contínuo, era a nossa tarefa primeira. Os educadores eram profissionais geralmente selecionados de outros projetos da prefeitura, ou seja, pessoas que em algum momento foram usuários de projetos executados pela Secretaria de Assistência Social. Em alguns poucos casos houve seleção externa de currículos. Além dos educadores sociais, a equipe era constituída de dois psicólogos, uma assistente social, um coordenador administrativo e um coordenador de campo.
Nas abordagens dos educadores sociais, cumpria-se o procedimento de preenchimento de uma ficha, que tinha três objetivos: cadastrar a pessoa abordada, identificar sua origem, e, por fim, verificar a possível relação com a prostituição/exploração sexual. Com essa ficha, conseguíamos mapear a cidade inteira e saber os lugares com indicativos de exploração sexual.
Obviamente que a política da visibilidade comumente assumida pelas ações públicas privilegiou a concentração dos educadores na zona sul, reduzindo nosso contato com pontos mais centrais e periféricos da cidade. A equipe, com isso, ficava
posicionada, preferencialmente, na zona sul da cidade2, principalmente nas proximidades da princesinha do mar3, Copacabana – com grande apelo turístico e onde encontramos um significativo quantitativo de pessoas vivendo e esmolando nas ruas e praças do bairro. De fato, Copacabana é referência para muitas coisas na cidade, é o bairro que não dorme, é o cartão postal da cidade, e onde, naturalmente, as pessoas procuram oportunidades, mesmo que estas se dêem a partir da esmola.
Diariamente, o trabalho de abordagem era realizado pela a equipe do projeto que, juntamente com outros projetos da Secretaria, concentravam suas ações nos bairros da zona sul da cidade. Além dos educadores do projeto “Me Cansei de Lero-Lero”, o bairro contava com os educadores do projeto “Trupe da Criança” – com sede no Arpoador – e os educadores do 2º CRAS (Centro de Referência da Assistência Social), atualmente denominada de 2ª CAS (Coordenadoria de Assistência Social).
O dia era dinâmico porque para além da relação de buscar/oferecer subsídios materiais que dessem conta das demandas dos que nos procuravam espontaneamente, éramos obrigados a cobrir as chamadas da Ouvidoria – canal direto da sociedade com a Secretaria. Imaginem a quantidade de ligações que a CRAS da Zona Sul recebia de pessoas descontentes com o Prefeito que não recolhia os mendigos das ruas?! Algumas poucas ligações efetivamente mostravam-se preocupadas com as situações precárias presenciadas, mas a grande maioria dessas ligações clamava pela “limpeza” das ruas.
Descobrimos a Favela do Aço a partir da análise mais cuidadosa das fichas preenchidas pelos educadores e pela escuta dos pontos que eles identificavam em Copacabana como uma área passível de intervenção.
Uma dessas regiões era a Praça Serzedelo Corrêa, local que concentra(va) grande população em situação de rua, principalmente pela facilidade de se conseguir caridade. Nessa praça temos uma Igreja Católica que comumente distribui comida, roupa e que, aos domingos, por causa da missa, concentra uma grande quantidade de pessoas vendendo velas, fitinhas, santinhos e flores para os devotos.
2 Cabe aqui deixar claro o reconhecimento da prostituição em Copacabana e a importância de um trabalho contínuo. Mas também cabe aqui registrar que a relação estabelecida e mais
significativa era a da visibilidade.
3 Referência de Copacabana imortalizada pelo poeta Vinícius de Moraes.
Estamos falando não só de população adulta, mas de famílias inteiras que desciam para Copacabana para vender produtos religiosos, mas principalmente para esmolar - jovens e crianças acompanhavam suas mães, enquanto estas esmolavam por sua sobrevivência, uma mistura de tutela católica, solidariedade cristã e necessidade concreta advinda da pobreza.
Ao acompanhar suas mães, muitas crianças e adolescentes aproveitavam o encanto da praia e acabavam por perambular pelas ruas do bairro. Essa característica abria uma grande oportunidade para o projeto, pois, como falado, sob a égide do Plano Nacional de Enfrentamento à Violência Sexual Contra Crianças e Adolescentes - que entende que uma das estratégias para se prevenir a exploração sexual de crianças e adolescentes é pela abordagem e cuidado dessas adolescentes “em situação de rua”. Ao abordá-las, pudemos acompanhar algumas dessas jovens em seus locais de origem.
Observamos que muitas das pessoas abordadas na Praça Serzedelo Correa eram provenientes de uma favela localizada em Santa Cruz, periferia da cidade, chamada Favela do Aço. Eu, logo que conheci o local, costumava identificá-la como
“exportadora de população de rua”.
Concomitante à nossa descoberta da Comunidade, a Secretaria de Assistência Social cria uma estrutura política denominada Pólo de Vigilância da Exclusão, que tinha por objetivo a inclusão de projetos sociais e o acompanhamento rigoroso das famílias locais, dada a vulnerabilidade da região:
EXPEDIENTE DE 21/03/2005
RESOLUÇÃO “N” nº 009, de 21 de março de 2005.
O SECRETÁRIO MUNICIPAL DE ASSISTÊNCIA SOCIAL, no uso de suas atribuições que lhe são conferidas pela legislação em vigor e;
Considerando que a equipe de abordagem de pessoas em situação de rua nos bairros da Zona Sul encontrou uma grande parcela originária da Comunidade de Vila Paciência, conhecida como Favela do Aço;
Considerando a necessidade de se implantar um espaço para capacitação para inserção ao trabalho, atividades educacionais e recreativas de cunho ocupacional;
Considerando que a Favela do Aço é objeto de ações sociais por ser considerada área de Risco Social;
Considerando reuniões já realizadas na base do Pólo de Vigilância envolvendo as Secretarias Municipais de Assistência Social; Educação; Habitação; Esporte e Lazer;
Obras; Meio Ambiente Subprefeitura de Santa Cruz e Obra Social.
RESOLVE:
Art. 1º - Criar o Pólo de Sistema de Vigilância da Exclusão Social na Comunidade de Vila Paciência, conhecida como Favela do Aço, com o objetivo de implantações de projetos sociais e demais atividades ocupacionais.
Art. 2º - A base do Pólo é a Escola Municipal Haydea Vianna Fiuza de Castro, localizada na Rua São Gomário s/nº, Comunidade de Vila Paciência, na Zona Oeste.
Art. 3º - Esta Resolução entra em vigor na data de sua publicação.
(D.O.U. 21/03/2005)
Assim, incluir jovens com o perfil de população em situação de rua em nosso projeto uniu-se perfeitamente com os objetivos do Pólo, uma nova política adotada pela Secretaria.
Conviver semanalmente com os moradores dessa Favela serviu não só para deixar evidentes os contrastes sociais e os dramas vivenciados por estas famílias - segregadas e ao mesmo tempo imersas em nossa lógica social de dominação –, como para vivenciar e pensar as práticas profissionais, que muitas vezes reproduzem a lógica da opressão, da exclusão e da captura.
Sabem aquela expressão: “serviu como bucha”, comumente utilizada quando nos referimos a pessoas ligadas à ilegalidade? Pois em muitos casos, percebi que essas famílias serviam como bucha. Serviam para justificar alguns atos do poder público e, principalmente para justificar a condição de periculosidade engendrada por nossa sociedade.
E falando em bucha...
Quarta-feira, 28 de dezembro de 20054, um dia claro, sol a pino, praia lotada, Praça Serzedelo Correa repleta. Nesse dia uma grande operação nos arredores de Copacabana aconteceu. No atual governo municipal (gestão 2008-2012) chamamos esse tipo de operação de “choque de ordem”, anteriormente, nomeávamos por
“operações de abordagem”.
Justiça Especial Criminal (Jecrim), Conselho Tutelar, Guarda Municipal, Secretaria Municipal de Assistência Social, Comlurb e o Xerife5 de Copacabana eram os órgãos/personalidades envolvidos nas “operações”.
Segundo as boas línguas (promotores, educadores sociais, assistentes sociais, conselheiros tutelares, pedagogos, psicólogos, enfim, a engrenagem da operação), duas atitudes poderiam ser facilmente visualizadas: uma voltada para os moradores em situação de rua que acolhiam as intervenções feitas, pois aceitavam
4 Data indicada pela mãe como sendo a data do abrigamento de seu filho.
5 Figura da Sociedade, indicada pelo então juiz da Infância, que representava os moradores de Copacabana e que tinha atrelado, pelo menos dentro da prefeitura, esta denominação, o Xerife.
Tratava-se na verdade de um cargo de confiança, não oficializado e por isso, não publicizado.
ir para o equipamento da Prefeitura de pronta ordenação; a outra, mais difícil de ser resolvida, era a dos moradores que não aceitavam as intervenções sociais praticadas no dia-a-dia, por isso precisavam de uma intervenção mais estruturada que concentrasse diferentes atores sociais.
Naquele dia, uma das mulheres abordadas se encontrava no perfil daqueles que não aceitava a intervenção cotidiana, o que significa dizer que comumente poderíamos encontrá-la na Praça Serzedelo em desobediência as orientações/ordens da equipe que faziam as abordagens no local. A solução dada no dia da operação foi encaminhamento de seu filho de cinco anos para um abrigo.
Este caso chegou ao conhecimento da equipe onde trabalhava, pois, uma das filhas dessa mulher, pertencia ao grupo de meninas realizado semanalmente na Favela do Aço e coordenado pelo nosso projeto – chamávamos esses encontros como oficinas terapêuticas.
O grupo de meninas foi formado a partir da demanda reconhecida dentro da Secretaria de um número significativo de adolescentes que perambulavam por Copacabana e que indicaria a necessidade de práticas preventivas com essas que estão em situação de rua - entendida pelo Plano nacional como prevenção secundária.
As reverberações desse caso foram por mim, pessoalmente acompanhadas.
Costumo fazer uma síntese desse caso: “estamos falando de uma mulher negra, semi-analfabeta, manca, alcoolista, que sequer tinha registro de identidade, mas que todos os técnicos diziam ter esgotado as possibilidades de intervenção”.
Chocada por essa percepção, defendi no ano de 2007, no curso de especialização em Psicologia Jurídica da UERJ, a monografia intitulada Muitos e Muitos Silvas: o poder da escuta do lado B da história. Os técnicos e as políticas públicas.
O acompanhamento desse caso me fez experimentar outra forma de agir possível, considerando as implicações que permitiram produzir/inventar/experimentar o social na mão dupla das relações/interações e fazer com que esse caso saísse da esfera do privado e pudesse reverberar para outros atores sociais que estão no campo de trabalho em contato direto com essas famílias marginalizadas. Por isso, não me canso de contar essa história!
As observações defendidas neste trabalho monográfico de longe se esgotaram e serviram para trazer não só subsídios teóricos, mas para potencializar
as questões já observadas no contexto dessa favela, agora discutidas nesta dissertação de mestrado.
Assim sendo, nosso objeto de pesquisa focalizou o contexto da Favela do Aço propiciado pela vivência profissional ocorrida no período de 2005 a 2007, que buscou analisar as práticas das políticas sociais ali implementadas, sobretudo nas gestões da Secretaria de Assistência Social – 2000-2004 e 2004-2008 -, contemplando as políticas sociais no cenário brasileiro.
Uma pergunta ainda reverbera. O que a Psicologia tem a ver com isso?
A Favela do Aço, localizada na periferia da cidade, não difere de muitas outras favelas da periferia da cidade, apresenta características que poderíamos identificar como “padrão periférico de urbanização”, que, segundo Ribeiro e Lago (1994), se caracterizam pela “permanência das camadas populares de menor renda, autoconstrução das moradias e a precariedade das condições de consumo coletivo”
(RIBEIRO; LAGO, 1994, p.3).
Os estudos sobre favelas cariocas puderam demonstrar a partir de uma análise classificatória que usou cada um dos componentes do setor censitário – infra-estrutura, condição de ocupação, renda, e outros –, que tais favelas apresentam proporcionalmente uma situação nada desprezível com relação ao acesso à água, saneamento e coleta de lixo, dos setores bem equipados da cidade - dados os investimentos realizados desde a década de 50, ainda que se mostrem descontínuos e sem qualidade. (VALLADARES; PRETECEILLE, 2000).
Entretanto, esses mesmos autores mostram que as favelas centrais da cidade do Rio de Janeiro são, em geral, concentradoras de uma população, do ponto de vista socioeconômico, mais próximas de outras áreas não faveladas da cidade do que populações dos assentamentos situados na periferia metropolitana.
A observação quanto à relação socioeconômica dos moradores da Favela do Aço serve para reafirmar o nível de segregação dessa população, além de caracterizar um padrão da região. Segundo o último relatório das Nações Unidas, Santa Cruz representa o pior Índice de Desenvolvimento Humano (IDH)6 da cidade do Rio de Janeiro e, de certo, a Favela do Aço contribui com esse índice, já que o
6 Criado pelo Programa das Nações Unidas pelo Desenvolvimento, na década de 90.
local se caracteriza pelo esvaziamento das políticas públicas, altos índices de analfabetismo e de desemprego. Outro dado importante a ser mencionado é a observação da migração temporária de moradores para regiões mais ricas da cidade, com grande freqüência para a Praça Serzedelo Correa e outros locais da zona sul, na condição de pedintes – os ditos casos cronificados – identidade oferecida pelos servidores que atendem essa população.
Apesar do esvaziamento das políticas públicas dentro da comunidade, devemos nos lembrar do mecanismo existente na favela, o Pólo de Vigilância da Exclusão -, um aparato político criado a partir da Resolução Municipal no 009/2005, que tem por objetivo a implementação de projetos sociais e demais atividades ocupacionais, estando sob responsabilidade de um CRAS (Centro de Referência da Assistência Social). Essa resolução abrange três outros locais da cidade: Fazenda Modelo7, Favela do Aço e Pedra de Guaratiba, e a motivação pela implantação desse mecanismo, a meu ver, é pouco clara.
Num exercício crítico, proponho que peguemos o termo vigilância nos textos de Foucault onde encontramos que “a vigilância permanece sobre os indivíduos por alguém que exerce sobre eles um poder […] e que, enquanto exerce esse poder, tem a possibilidade tanto de vigiar quanto de constituir, sobre aqueles que vigia, a respeito deles, um saber” (FOUCAULT, 1996, p.88).
Decerto que, com base nas considerações até agora apresentadas, não podemos considerar o Pólo de Vigilância como um mero investimento governamental. Na realidade, a constituição desse modelo político parece privilegiar e intensificar um forte processo de “confinamento” social, ratificado e justificado pelas camadas altas e médias da população que prefere ver a população mais miserável longe de suas vistas.
A constituição desse aparato político e sua proposta junto aos seus moradores merecem nossa atenção, principalmente se nos apropriarmos das discussões oferecidas pelo sociólogo Loïc Wacquant, que discute a questão da guetificação americana e européia - caracterizada por ele, principalmente pela
7 A Fazenda Modelo, o maior abrigo do mundo, criada em 1947 pelo governo federal, destinada inicialmente para funcionar como um centro de ressocialização para gente desgarrada, excluída da sociedade formal, onde seus moradores encontravam hortas comunitárias e oficinas de aprendizagem. Depois de sucessivas políticas equivocadas, tornou-se num imenso repositório de população de rua. Foi desativado na gestão 2004-2008 pela Secretaria Municipal de Assistência Social.
“brutal dilapidação física das instituições [nos locais estigmatizados] e no caráter separado e profundamente inferior de suas instituições” (WACQUANT, 2005, p.144)
No livro “Os Condenados da Cidade: notas sobre a marginalidade avançada”, Wacquant debate a relação do estigma nas sociedades americana, francesa e inglesa. Nessa discussão, o autor aponta as características dos guetos e de como essa ordenação acaba por atravessar a vida individual e coletiva dos moradores locais, transformando espaços sociais em meros espaços de sobrevivência e luta.
Assim, o autor discute a relação da guetificação territorial com os estigmas que se abatem sobre estas populações, evidenciando como os moradores desses espaços acabam por reafirmar uma situação de desqualificação local e social, desenvolvendo sentimentos de vergonha por morar nesses lugares. E deixa claro que:
A pobreza muitas vezes é (equivocadamente) igualada à privação material ou a renda insuficiente. Contudo, além de ter de enfrentar falta de condições adequadas e de meios de sobrevivência, quem é pobre numa sociedade rica tem o status de anomalia social e perde o controle por sua representação e sua identidade coletiva, servindo para realçar a desapropriação simbólica que transforma seus habitantes em verdadeiros proscritos sociais. (WACQUANT, 2005, p.139).
Com isso colocamos uma questão para discussão: estaria o Pólo de Vigilância da Exclusão servindo como contenção de fluxo de migração dos moradores da Favela do Aço para a Zona Sul da cidade?
Mais ainda, estaríamos lidando com um processo de guetificação dissimulada?
No decorrer do trabalho, poderemos analisar de forma mais detida às características dessa comunidade, sua interferência na cidade do Rio de Janeiro, bem como o uso de práticas públicas voltadas para os moradores da favela do aço, no intuito de construir uma linha de raciocínio que possa nos dar subsídios para pensar as ações dos técnicos envolvidos, que com certeza servirão como parâmetros para pensar outras formas de agir.
Estamos falando da Favela do Aço, mas poderíamos estar falando de qualquer outra favela do Rio de Janeiro. Uma população estigmatizada pela pobreza e oprimida pela falta de políticas públicas efetivas de nosso país.
E isso tudo também para pensar que nós psicólogos, como participantes desse cenário de implantação de políticas sociais, comumente produzimos formas
sutis de exclusão na própria possibilidade de criação de indivíduos autônomos.
Esse cerceamento, comumente se presentificada em nossos atos, pensamentos, intervenções, nos documentos “técnicos” (relatórios, anamneses e entrevistas, dentre outros), que reafirmam as noções de carência, deficiência e anomalia social a serem controladas.
Por tudo isso que foi apontado, afirmo que temos muito a ver com isso!
1.2 Delimitação teórico-metodológica
Iniciei essa proposta de trabalho pensando perspectivas metodológicas que incluíam uma seqüência de entrevistas com técnicos (assistentes sociais lotados no
Iniciei essa proposta de trabalho pensando perspectivas metodológicas que incluíam uma seqüência de entrevistas com técnicos (assistentes sociais lotados no