4. Um Ensaio Metodológico
4.7. A bordo das USB’s: a Segunda Etapa da Pesquisa de Campo e as
4.7.2. Sobre o Acompanhamento dos Casos Atendidos
Além disso, acompanhamos alguns atendimentos psiquiátricos juntamente com as equipes das USB’s do SAMU. O nosso intuito foi vivenciar o processo e, além de investigar as práticas adotadas pelos profissionais, problematizar as possibilidades de articulação entre a Rede de Atenção Psicossocial e a de Urgência. O acompanhamento foi feito nas ambulâncias juntamente com os auxiliares de enfermagem e condutores veiculares. Acompanhamos o processo desde o recebimento da ligação até o encaminhamento do paciente ao serviço que o médico regulador apontava. Para tanto, permanecemos na sala de regulação, a base do SAMU, e as nossas intervenções começavam por lá. O fato de colocarmos que o nosso papel naquele contexto era entender as dificuldades enfrentadas tanto pelos reguladores quanto pelas equipes das USB’s a fim de construirmos juntos as soluções nos abriram várias portas. Além de estarmos em contato direto com os reguladores, rádio-operadores e TARM’s, nas ambulâncias, contávamos os auxiliares de enfermagem e condutores, que de bom grado falaram sobre suas experiências, temores e dificuldades. Com a confiança e pertinência desenvolvida por termos nos colocado a disposição deles, era mais rico pontuar acontecimentos, problematizar certezas, apontar outros caminhos e visualizar o processo.
Assim, expandimos a intervenção para além dos profissionais do SAMU, envolvendo os pacientes atendidos e seus familiares. Quando chegamos aos locais das ocorrências na companhia do auxiliar de enfermagem e do condutor veicular, observamos os procedimentos adotados e procuramos acolher a pessoa em crise, saber se existia algum vínculo com o CAPS
e se não tivesse, encaminhávamos. Percebemos como vários desses técnicos já traziam, de forma muito clara, questões que desenvolvemos neste trabalho.
Com isso, traçamos um mapa das potencialidades do SAMU enquanto um exímio articulador inter-redes, que nos auxiliou na construção de uma nova discussão sobre o funcionamento desse serviço e da própria urgência psiquiátrica, com o intuito de assumir um papel de problematizador e disparador de outros questionamentos. Questionamentos que podem nos lançar em busca de respostas geradoras de movimento. E assim, esculpir inúmeras outras formas de realidade, organização do serviço e de resposta à crise.
4.8. De volta ao campo: a Segunda Etapa da Pesquisa
De início, quando começamos a fazer a análise dos dados da segunda etapa, pensamos em dividir os eventos em três tópicos, analisando separadamente os acontecidos sem, necessariamente, ligar os atendimentos das urgências psiquiátricas nas ambulâncias às entrevistas e às reuniões. Entretanto, percebemos como tudo se atravessava. A política discutida nas reuniões, as falas dos entrevistados, os nós que impedem a articulação entre a saúde mental e a rede de urgência, são forças que perpassam todo o processo e não poderíamos deixá-las de lado.
Assim, tendo em vista que tal “separação” seria artificial a ponto de seccionar o enredo, decidimos analisar os dados em conjunto. Portanto, os tópicos que lerão a seguir se referem à discussão de pontos nodais do campo, perpassados pela discussão de suas três fases: a participação nas reuniões para a construção do protocolo, as entrevistas abertas com os participantes anteriormente especificados e os acompanhamentos dos atendimentos nas ambulâncias.
4.8.1. A construção do Protocolo entre as reuniões e as entrevistas
Em maio de 2007, o SAMU estava fervilhando numa crise decorrente de um processo que se arrastava desde a abertura do serviço, desde o momento em que a Portaria 1864/GM de 29 de setembro de 2003, havia sido escrita e publicada (Brasil, 2003). A portaria estrutura um serviço capaz de resolver as questões mais complicadas, de aplacar o mal-estar nos lugares mais distantes e não importa se pendurados numa corda de rappel para um salvamento vertical ou se embaixo de ferragens resgatando uma vítima. Os técnicos do SAMU devem se tornar agentes programados para enfrentar qualquer situação, com “nervos de aço” construídos sob um considerável alicerce identitário.
Na I Oficina Nacional de Atenção às Urgências e Saúde Mental54 realizada em Aracaju, já citada anteriormente, a questão da identidade fortemente instaurada ficou muito clara, os próprios profissionais se dividiram em categorias: os Samuzeiros, profissionais do SAMU guiados pela objetividade protocolar cotidiana; e os Mentaleiros, trabalhadores da Saúde Mental que miram na subjetividade, mas que, na maioria dos casos, também se recusam a lidar com as imprevisibilidades de uma situação de crise. Duas vertentes que têm no tempo uma das suas mais marcantes diferenças: os Samuzeiros precisam agir em um tempo muito curto para serem eficazes, os Mentaleiros, geralmente, precisam de um tempo maior para desempenharem seu trabalho.
Foi a primeira tentativa de encontro oficial e de larga escala entre os profissionais, um momento emblemático da busca de um diálogo, cujo efeito acirrou uma rivalidade embalada pelas suas diferenças marcantes. O propósito da Oficina era estabelecer uma troca entre os trabalhadores da urgência e da saúde mental com o intuito de pactuar ações e diretrizes para que os serviços pudessem funcionar de fato enquanto circuitos de uma mesma rede,
54 Em 2004, foi realizada em Aracaju – SE, a I Oficina Nacional de Atenção às Urgências e Saúde Mental:
Diálogos sobre a Política Nacional de Atenção às Urgências e a Reforma Psiquiátrica. Esse encontro foi a
primeira tentativa de aproximação entre a Saúde Mental e a rede de Urgência, que gerou um relatório final, citado nessa dissertação, que atesta que os CAPS’s precisam fazer um trabalho de matriciamento junto ao SAMU.