4- Ampliando o olhar sobre o corpo e o processo saúde/
5.3 Sobre o conceito de virtual, comunidades virtuais e
Para análise do site, busca-se delinear uma definição do ambiente virtual, posto que ele, muitas vezes, é entendido como da ordem do ilusório, do fantástico e, portanto, não passível de traduzir as experiências cotidianas, essas sim vistas como expressões da realidade comum da vida das pessoas.
Algumas considerações do filósofo francês Pierre Lévy são interessantes para se pensar os espaços virtuais, ainda que muitas das conseqüências de suas inferências estejam marcadas por um otimismo exacerbado nas tecnologias, concebendo-as utopicamente como promotoras de um “futuro humano glorioso”57.
Primeiramente, diz Lévy58, diferentemente do que se costumam pensar, o
virtual não se opõe ao real. A virtualização é um processo que desde sempre participa da história da humanidade, e está para além da informatização. Virtuais são as leis, as línguas, as formas de comunicação, entre outros exemplos apontados, e compõem uma dimensão do real. Não se opondo à realidade, o virtual é fatível e seu contrário é a atualização. Neste sentido, o virtual é um devir, movimentando-se para o atual e pressupondo sempre a heterogeneidade.
Em segundo lugar, o autor atribui dinâmica ao processo de virtualização, onde ele mesmo, o virtual, problematiza um determinado atual, em configurações múltiplas que inclui o imprevisível. Tal processo está presente na formação de comunidades virtuais, isto
é, num grupo de pessoas que, embora não se encontrem fisicamente juntas, interagem. O virtual produz efeitos.
Enfim, o que seria característico da nossa época, segundo Lévy58, não é a virtualização, mas o advento da informática como aquilo que chama de tecnologia intelectual. O conceito diz respeito às técnicas que envolvem a criação de computadores, microprocessadores, programas, às estruturas lógicas e formais da linguagem interativa entre o homem e a máquina e, principalmente, à mediação digital que a técnica proporciona entre a percepção e a ação, ou seja, a tecnologia entendida como técnica, conhecimento e o discurso sobre estes saberes proporcionados por meio dela59.
Nesse aspecto, ganham relevância novas formas de comunicação. A mediação digital envolve a linguagem, principalmente a escrita, mas num tempo outro, mais rápido, as frases devem ser concisas, diretas, encerrando em si todo o conteúdo da mensagem, que não pressupõe um conhecimento prévio do que foi dito ou escrito.
A ênfase na tecnologia está naquilo que ela torna possível, no seu efeito dialógico, na interatividade instantânea. Assim, pela mediação digital, indivíduos distanciados fisicamente dividem entre si problemas, experiências, afetos, conflitos, soluções, compondo o que é próprio do cotidiano da vida.
Desta forma, propõe-se a análise dessas experiências no site concebidas como formas de narrativas.
Expostas essas considerações, esclarece-se que foram selecionados os textos da literatura a partir de itens disponíveis no site, que podem ser designados como “problemas da menopausa”. Procedeu-se a leitura textual, destacando-se os temas mais freqüentes apontados na literatura e no espaço interativo do site. Neste momento, procurou-se apreender os significados que os vários termos, principalmente aqueles referentes à definição e sintomatologia climatéricas, têm na biomedicina. Posteriormente, os textos foram relidos e resumidos, demarcando-se as teses apresentadas pelos autores e seus
argumentos, passando-se para a análise temática60.
A análise temática foi realizada como propõe Minayo61, qual seja, buscando-se descobrir os núcleos de sentido dos enunciados, descortinando, qualitativamente, a frequência de certos temas e a conseqüente valorização que assumem como modelos de comportamento encontrados nos discursos.
Em seguida, foram enumerados os temas que apareceram reiteradamente tanto nos textos quanto no site, para classificação e análise. A classificação obedeceu à lógica da separação entre os elementos constitutivos dos saberes sobre o corpo, usualmente divididos em somáticos, psíquicos e sociais. Finalmente, procedeu-se a análise dos temas classificados, distribuídos em categorias gerais tais como menopausa, corpo, envelhecimento, corpo feminino, cuidados e pessoa, interpretando-os à luz das leituras socioantropológicas realizadas, conforme a orientação teórica descrita anteriormente.
Mediante a contextualização do tema e da metodologia precedentes, o presente trabalho se divide em três capítulos.
No primeiro capítulo, contextualizo historicamente o processo climatério/menopausa, explicitando como os conceitos de climatério e menopausa, até certo período da história tomados como eventos corporais independentes, passaram a denominar exclusivamente a etapa da vida feminina em que ocorre a cessação definitiva da menstruação. Vários fatores contribuíram para que a doença do climatério, registrada anteriormente como enfermidade predominantemente masculina, fosse incorporada ao conceito estritamente feminino da menopausa, entretanto, focalizo as mudanças de ordem epistemológica que possibilitaram tal associação nas idéias médicas do século XIX. Essas ideias, que ainda hoje repercutem no conceito médico da menopausa, se encontravam imbricadas na forma nova de conceber o corpo como portador de uma natureza comum e universal, configurada anatomicamente pelas diferenças intransponíveis entre os sexos. A diferenciação sexual fez surgir uma ciência específica para cuidar da saúde e dos problemas femininos, a ginecologia, porta-voz de um saber científico sobre o corpo da mulher,
traçando em diversos momentos, por meio da associação entre aparelho reprodutor e cérebro femininos, o comportamento normal e saudável esperado das mulheres, e o corpo anatomicamente desejável.
No segundo capítulo, analiso o site Menospausa, apontando para a construção e representação biomédicas do corpo menopausado neste espaço da mídia. Vários temas se sobressaem, dentre eles os sintomas e as respectivas explicações, a sexualidade feminina e os afetos neste período, e a associação entre menopausa e envelhecimento. Destacam-se as terapias utilizadas para amenizar os problemas com a menopausa, e as concepções distintas do processo saúde-enfermidade das quais são portadoras, além da valorização do corpo jovem, magro e sexy como símbolo de um ideal de feminilidade.
Por fim, no terceiro e último capítulo, discorro sobre a experiência com o climatério/menopausa, por meio dos relatos das internautas constantes na seção MaisInteração, que indicam representações distintas de tal processo, bem como formas diversas de se conceber o corpo e experimentar esse momento da vida feminina. Nas considerações finais, reitero tal diversidade, apontando o processo climatério/menopausa como evento que, embora comum, é portador de múltiplos significados.