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3.3 A COMPREENSÃO JURÍDICA DO AMBIENTE

3.3.1 Sobre o Conceito Jurídico de Meio ambiente

Pode-se dizer que existe uma certa dificuldade de estabelecer-se um consenso entre os que se arriscaram em propor um conceito para o meio ambiente. De início, o próprio significado semântico do termo meio ambiente, provoca algumas discordâncias entre os doutrinadores. Para Machado (1998, p.69), trata-se de palavras sinônimas, ao passo que para Leite (2004, p. 69), o termo meio ambiente é um pleonasmo, por serem termos equivalentes.

Na opinião de Milaré (2001, p.63) o termo meio ambiente não chega a ser um pleonasmo uma vez que, a expressão, é formada por dois termos equívocos (mesma palavra com significados diferentes), onde o primeiro pode significar: aritmeticamente a metade de um inteiro; um dado contexto físico ou social; um recurso ou um insumo para se alcançar ou se produzir algo. E o segundo termo pode representar um espaço geográfico ou social, físico ou psicológico, natural ou artificial. A questão mais relevante sobre o assunto, na realidade, não é a discussão semântica acerca da expressão meio ambiente, já consagrado na língua portuguesa, e sim, os aspectos jurídicos e filosóficos que se encontram embutidos no referido conceito.

Na realidade, o estabelecimento de um conceito sob determinado objeto é resultado da compreensão e da valorização do mesmo. Assim, não seria diferente com o conceito sobre o meio ambiente, que variou ao longo do tempo, a depender dos interesses e do entendimento das pessoas.

O meio ambiente foi conceituado de várias maneiras, desde a forma fragmentada, reflexo do paradigma racionalista, que não percebia o meio ambiente ainda como um valor em si, mas como recurso a ser utilizado em benefício do homem. Evoluindo, ao longo do tempo, para um conceito em que assume um sentido amplo, não restrito a elementos exclusivamente naturais, em que o cuidado com os mesmos não configura-se como um fim, mas como um meio de possibilitar o desenvolvimento e a melhoria das condições de vida na sociedade.

Este conceito amplo foi adotado pela Declaração da ONU, aprovada em 1972, e que serviu de inspiração para a elaboração do conceito legal no ordenamento jurídico brasileiro.

É importante mencionar que, a normatização de fatos sociais é uma das funções do direito, e a correta fixação dos conceitos jurídicos é de suma importância para que seja assegurada a segurança jurídica da vida em sociedade. Assim, o estabelecimento de um conceito jurídico sobre o meio ambiente, consoante como entendimento da comunidade

internacional foi de suma importância para o estabelecimento de uma nova consciência sobre a questão ambiental no contexto nacional.

O conceito legal de meio ambiente, foi estabelecido no direito brasileiro, de forma ampla, através da Lei 6.938, de 31 de agosto de 1981, que dispõe sobre a Política Nacional do Meio Ambiente, como o conjunto de condições, leis, influências e interações de ordem física, química e biológica, que permite, abriga e rege a vida em todas as suas formas (art. 3o, I da Lei 6.938/81).

Por sua vez, art. 2o, I do mesmo dispositivo legal, atribuiu ao meio ambiente, a qualidade de patrimônio público a ser necessariamente assegurado e protegido, tendo em vista o uso coletivo, onde a noção de patrimônio público deve ser compreendida como um instrumento capaz de possibilitar a defesa do meio ambiente através dos mecanismos do direito público (ANTUNES, 2002, p. 227).

Sintetizando a idéia, Steigleder (2004, p. 99), sobre o conceito de meio ambiente, afirma:

Trata-se de conceito sistêmico que visualiza o meio ambiente como unidade inter-relacionada, integrada pela natureza original, artificial e pelos bens culturais, pressupondo-se uma interdependência entre todos os elementos que integram o conceito, inclusive o homem [...].

A Constituição Federal de 1988, no seu art. 129, inciso III, conferiu ao meio ambiente a característica de direito difuso e o art. 225, caput, mesmo não apresentando claramente um conceito para o meio ambiente, atribuiu-lhe a condição de direito de todos, de bem de uso comum do povo, essencial à qualidade de vida, ainda impondo ao poder público e à coletividade, o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações.

Em face da sistematização dada pela Constituição Federal de 1988, o conceito de meio ambiente dado pela Lei 6.938/81, foi recepcionado, isto porque a Carta Magna buscou tutelar, não só o meio ambiente natural, mas também o artificial e o cultural e o do trabalho(FIORILLO, 2003, p. 19).

O conceito de meio ambiente é amplo e contempla a natureza original e artificial, bem como os bens culturais correlatos, compreendendo, portanto, o solo, a água, o ar, a flora, as belezas naturais, o patrimônio histórico, artístico, turístico, paisagístico e arqueológico”. (MILARÉ, 2001, p. 62).

Para Silva (2000, p. 20), o meio ambiente é, a interação do conjunto de elementos naturais, artificiais e culturais que propiciem o desenvolvimento equilibrado da vida em todas

as suas formas. A integração busca assumir uma concepção unitária do meio ambiente, compressiva dos recursos naturais e culturais.

O legislador brasileiro adotou uma conceituação atual, abarcando vários elementos culturais do ser humano, os quais não podiam ser excluídos da definição, considerando a necessidade de interação destes com os elementos naturais e artificiais (LEITE, 2004, p. 80).

Steigleder (2004, p. 97-98) fazendo uma retrospectiva sobre o conceito de meio ambiente presente em alguns países europeus, afirma que, na doutrina italiana, contemporânea, o conceito ambiente é unitário e sistêmico, o mesmo acontecendo com a legislação de Portugal, que também possui um conceito globalizante de meio ambiente, tendência também presente, segundo a autora, na política ambiental da Comunidade Européia, que apresenta uma compreensão ampla de meio ambiente, incluindo os recursos naturais e os componentes inanimados, bem como o patrimônio cultural e urbanístico.

Como percebe-se, a concepção ampla do conceito de meio ambiente é uma realidade estabelecida em decorrência da evolução da própria visão do homem frente à natureza, e que, de acordo com a visão do antropocentrismo alargado, assume a noção de ambiente em sentido amplo, não restrito aos componentes naturais, e em que o cuidado com os recursos não é um fim em si mesmo, mas um meio para favorecer ou possibilitar o desenvolvimento e a melhoria das condições de vida na sociedade.

O antropocentrismo alargado encontra-se amparado legalmente no Direito brasileiro (art. 225, caput da Constituição Federal de 1988 e na Lei 6.938/81, [...] que coloca o homem como integrante (art. 3o, inciso I, Lei n. 6.938/810) da comunidade biota (LEITE, 2004, p.75).