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SOBRE O CONHECIMENTO DE SI-MESMO E O AUTO-ENGANO

CAPÍTULO III SELBSTWELT – o mundo do si-mesmo

3.2. SOBRE O CONHECIMENTO DE SI-MESMO E O AUTO-ENGANO

como vimos, no estar em débito mais próprio. Neste item refletiremos sobre o conceito de inconsciente e como podemos pensá-lo à luz da ontologia de Heidegger. A perspectiva sobre o conhecimento de nós mesmos ganhou um outro âmbito a partir das descobertas de Sigmund Freud (1856-1939), ou seja, da psicanálise57, sendo que um dos seus principais pilares é o conceito de inconsciente. Com o conceito de inconsciente a questão do autoconhecimento teve novos desdobramentos, uma vez que a crença na racionalidade defendida pelo iluminismo sofreu abalos diante do entendimento de que existem conteúdos e representações que condicionam nossos comportamentos, dos quais o ser-aí em questão nada sabe – são inconscientes. Neste sentido o homem deixa de ser o senhor absoluto de sua própria casa, de estar no controle de tudo que acontece para ter que se haver com um âmbito cujo modelo envolve o recalque, a repressão. Diante da descoberta do inconsciente, Freud desenvolverá modelos explicativos, teóricos para sua explicitação e, posteriormente, uma hermenêutica sustentada por essa metapsicologia para sua prática terapêutica.

Os modelos heurísticos desenvolvidos por Freud, basicamente a primeira e segunda tópica, procuraram explicitar o funcionamento do psiquismo humano a partir da experiência clínica de Freud, em decorrência do acompanhamento das manifestações sintomáticas da neurose58. O fenômeno da inconsciência é basilar para a metapsicologia freudiana, sendo que a tarefa teórica da construção

57 Da metapsicologia de Sigmund Freud.

58 Essa clínica voltava-se mais especificamente para os sintomas histéricos, a obsessão e a compulsão.

metapsicológica deteve-se na explicitação dos mecanismos que interagem tanto nos sintomas como também na explicitação de como tais conteúdos e representações se mantêm velados para o homem. Abre-se com essas noções a perspectiva de acesso terapêutico que, em última instância, é uma leitura, uma análise da alma humana, um processo de conhecimento e de autoconhecimento com fins terapêuticos voltados para a remissão dos sintomas. Esse modelo, inicialmente médico, oferecerá subsídios para a compreensão/interpretação do homem em diferentes níveis de sua existência, como ocorreu posteriormente com a tentativa de se interpretar o sentido de uma produção artística, literária, entre outras expressões, em consonância com a biografia do autor. Chegou-se a, e até hoje ainda é muito presente, um exagero interpretativo das realizações humanas exercido por uma psicologização dessas realizações.

Para o nosso trabalho, creio ser de fundamental importância que nos debrucemos sobre as bases fundadoras da psicanálise para que possamos, através da ontologia de Heidegger buscar compreender como o inconsciente pode ser pensado, desconstruído dessas referências metafísicas. Ainda mais, em detrimento dessa nova compreensão daquilo que se oculta de nós mesmos, que hermenêutica poderia nos auxiliar num acesso compreensivo do homem.

O itinerário metapsicológico de Freud reconhece59 as contribuições significativas do psicólogo e filósofo alemão Theodor Lipps (1851-1914), o primeiro a identificar esse processo, formulando sua compreensão do inconsciente do seguinte modo: “(....)Do inconsciente surge(...) o consciente e mergulha de volta ao inconsciente” (LIPPS, apud HOLZHEY-KUNZ, 2004, p.2). Freud empregará esta indicação de Lipps para a relação existente entre o pré- consciente e o consciente na sua primeira tópica, de modo que ele reservará ao inconsciente o entendimento de que esta instância psíquica se constituirá por “(...) representações que, de maneira alguma, podem se tornar conscientes por mais fortes que elas possam ser” (FREUD, VOL.VIII, p.433). Tal tese mostra-se

59 “No fim da vida, ao refletir sobre a estrutura e a essência da teoria psicanalítica, já plenamente constituída, Freud retorna a Lipps para lembrar esse parentesco e reconhecer uma dívida intelectual” (Loparic, 2001, p.315)

polêmica, pois, como nós poderíamos demonstrar a existência desses conteúdos ou representações se eles não podem ter qualquer manifestação?

“(....)em qual campo deveria ser comprovado que existe um saber do qual o homem nada sabe?” (idem, ibidem). Facilmente poderíamos refutar esta tese por articular em seu bojo uma contradição lógica. Mas Freud, mantendo-se fiel ao fenômeno observado, ou seja, às suas observações clínicas, também assume o entendimento de que os sintomas manifestados pelos pacientes, por mais deslocados e inadequados que sejam, estão suportados por um sentido que se mantém encoberto. A compreensão de que todo e qualquer comportamento humano está ancorado num sentido já estava presente nas contribuições de Franz Brentano (1838-1917), ou seja, a compreensão de que há uma intencionalidade dos atos da consciência.

Freud continuou suas indagações na tentativa de explicitar o fenômeno do ocultamento. Neste sentido, creio que nós podemos seguir o caminho reflexivo com algumas alterações de rumo, empreendido pela psicoterapeuta suíça Alice Holzhey-Kunz60, que procurou explicitar e ressaltar os impasses em que Freud caiu na tentativa de explicar o conceito de inconsciente, mais especificamente, sobre como algo pode se ocultar de nós mesmos. Tais reflexões encontram-se num artigo denominado “O assim chamado inconsciente”, traduzido pela Associação Brasileira de Daseinsanalyse em 2000. O entendimento da autora mostra que a elucidação do conceito de inconsciente torna-se difícil, senão impossível, através dos recursos metapsicológicos elaborados por Freud, a saber, o conceito de inconsciente que tem como modelo o reprimido/recalque e, posteriormente, o conceito de censura como sendo uma instância psíquica que legisla sobre o que deve e o que não deve entrar na esfera da consciência. Segundo a autora, o entendimento do inconsciente, como aquilo que se oculta de nós mesmos pode ser claramente explicitado pelo conceito de consciência não explorado por Freud e, também, pela própria concepção de fenômeno presente em Ser e tempo, no parágrafo sétimo.

60 Trata-se de uma psicoterapeuta Daseinsanalista, filiada à INTERNATIONAL FEDERATION OF DASEINSANALYSIS, com sede em Zurich - Suíça. Alice Holzhey-Kunz foi aluna do prof. Medard Boss e hoje é muito ativa nas suas contribuições para essa abordagem terapêutica vinculada ao pensamento de Martin Heidegger.

Uma outra dimensão importante para a explicitação daquilo que se encobre de nós mesmos é o entendimento de que o existencial da compreensão (Verstehen) constitui-se pelo entendimento de que em toda e qualquer compreensão ôntica do real há uma inclusão ontológica. Tais indicações são suficientemente claras para elucidar o auto-engano ou o encobrimento sem precisar lançar mão das instâncias psíquicas criadas por Freud. A autora não tira obviamente o mérito de Freud de ter permanecido fiel à descoberta de que algo se mantém oculto de nós mesmos e de ter levado a cabo a tentativa de explicitação desse fenômeno, mesmo diante dos impasses lógicos que ele também pôde observar. O que se abre com essas observações de Holzey-Kunz é a possibilidade de uma hermenêutica sustentada pelo entendimento da condição do ser-aí envolto numa condição existencial que se mostra frágil diante da não previsibilidade e de todas as fragilizações a que estamos submetidos como perder, ficar doente, estar sujeito a experiências que possam mudar o rumo de nossa existência, etc. Neste sentido toda tentativa de controle sobre nós mesmos e sobre os acontecimentos de nossa existência somente pode se ancorar numa ilusão de controle e não num controle efetivo. O âmbito desse auto-engano (ilusão) traz conseqüências inefáveis ao ser-aí, impondo restrições no modo como conduzimos nossa existência.

Seguindo o itinerário reflexivo que Holzhey-Kunz empreendeu no seu artigo, chega-se a uma significativa indagação: “(...)em qual campo deveria ser comprovado que existe um saber do qual o homem nada sabe” (HOLZHEY- KUNZ, 2000, p.2). Vimos que este impasse poderia furtar Freud de continuar suas investigações, mas conforme observamos, ele permaneceu fiel ao fenômeno observado, caminhando em direção ao conceito de repressão. A questão agora converte-se em como explicitar o processo de repressão a partir desse modelo psíquico. Como é possível a repressão? É a repressão um processo ativo? Se não for, como nós podemos considerar a repressão?

Se a repressão é um processo ativo, nós deveríamos acessar algo a respeito de nós mesmos, por exemplo, que realizamos a repressão, pois ela já nos foi consciente de algum modo.

“(....)O raciocínio é mais ou mesmo o seguinte. A avó o maltrata

(João). Ele tem ódio disso, mas deseja um contato com ela. Como existe uma censura para tais sentimentos em relação a esse parentesco, o rapaz ‘reprime’ os afetos, tornando-os ‘inconscientes’. Talvez esse mecanismo de ocultar sexo e raiva venha desde a infância. O sonho, como uma das expressões do inconsciente, põe à mostra os desejos proibidos” (CANCELLO,

1991, p.37).

É preciso observar que reprimir tem o sentido de “prensar de volta o desejo para o lugar de onde ele veio” (Idem, p.65). Se o desejo aponta para uma relação temporal com o futuro – projeto, reprimir significa reter a possibilidade de exercer a raiva e entrar em confronto com a avó, porque isto não é licito, porque não devemos odiar a nossa avó, como não devemos odiar nossos pais, etc. Mas se reprimir é um fazer ativo, ou seja, “eu reprimo”, a questão que se coloca é “como isto é possível”? Nós precisaríamos ter entrado em contato com esses conteúdos (sentimentos/afetos) para prensá-los de volta e, ao mesmo tempo, nos enganar a respeito deste fato, tornando, assim, eficiente o processo de repressão, de ocultamento. Na verdade temos que nos auto-enganar a respeito daquilo que foi realizado por nós, mais ainda, para que o auto-engano seja de fato eficiente, nós precisaríamos esquecer que esquecemos. Será isto possível ou recaímos numa nova aporia, num impasse lógico.

Jean-Paul Sartre, na sua obra principal: O ser e o nada (L’être et le néant), publicada em 1943, refere-se ao auto-engano, dizendo:

“Quando eu minto, eu conheço a verdade que estou deturpando,

essa mesma verdade que eu, como enganado, que também sou, não conheço. Como enganador eu conheço a minha intenção de enganar. Quando, porém, sei que quero enganar a mim próprio, não tenho mais a possibilidade de me enganar, pois só posso ser enganado quando quero saber da verdade” (SARTRE, apud

HOLHEY-KUNZ, 2000, p. 7)61.

O engano, a mentira em relação ao outro é perfeitamente plausível, pois no nosso coexistir eu posso furtar o outro da verdade que eu sei ou deturpar seus conteúdos, buscando auferir algum proveito com essa mentira, mas em relação a mim mesmo, conforme nos aponta Sartre, nos encontramos diante de uma impossibilidade.

“(....)a mentira é um fenômeno normal no âmbito do que

Heidegger compreende por mit-sein. Supõe com esta noção a existência do outro, minha existência implicada ao outro e do outro implicada a minha. Assim, não há dificuldade alguma em conceber que o mentiroso deva fazer com toda lucidez e proveito da mentira e que deva possuir plena compreensão da mentira e da verdade que ele altera” (SARTRE, 1972, p.93).

Se o auto-engano mostra-se somente diante da perspectiva de se querer um acesso à verdade, o auto-engano, como condição de quem já esteve diante de uma verdade sobre si mesmo, se tornaria impossível. Freud sabia desse impasse presente na sua metapsicologia e tenta resolvê-lo criando duas pessoas dentro de uma só, tal como vimos na descrição de Sartre, apontando para o co- existir (mit-sein).

“Chamamos de inconsciente um acontecimento psicológico, cuja

existência devemos assumir, porque o deduzimos pelos efeitos, mesmo sem nada dele saber. Temos, portanto, em relação a ele, o mesmo tipo de relação que temos com um acontecimento psicológico em uma outra pessoa, só que (esse) acontecimento se dá dentro de nós próprios” (FREUD, apud Holzhey-Kunz, p.7)62

Neste sentido, observa Holzhey-Kunz, o meu inconsciente me escapa da mesma maneira que o interior de um outro homem, por estar fora do meu alcance. “Este interior do outro me é fechado porque, eu, por mim mesmo, não tenho condições de penetrá-lo” (Idem, p.7). Esta indicação de Freud não resolve a aporia antes observada, pois se há duas instâncias psíquicas comparáveis a duas pessoas, ou seja, um consciente e um inconsciente, quem é que impediria ou deformaria a passagem de certos conteúdos à consciência? Freud, como vimos, fala da censura, mas a censura, por sua vez, para exercer a sua função de legisladora do que deve ou não ser passado à consciência, deveria ser “consciente/inconsciente”, para exercer sua função. Caímos novamente na aporia anterior.

Se porventura seguíssemos um outro caminho, também apontado por nós, sugerindo que o processo de repressão fosse passivo, ou seja, ele se dá sem que eu saiba sequer que estou reprimindo, então o modelo explicativo da repressão torna-se possível, porque consideraria o auto-engano, como ressaltou Sartre, na

observação de que somente posso me enganar se estou em busca da verdade que eu ainda não sei. Neste sentido não recairíamos na aporia antes observada. Mas como explicar a repressão dentro deste novo modelo, ou seja, de que ela ocorre sem que pensemos algo de volta, para o lugar de onde veio. O verbo “prensar” aqui já realiza uma ação em direção a(...). Como podemos pensar a repressão como um processo passivo é um outro e significativo impasse em direção à explicitação do fenômeno do ocultamento.

Freud sabia que as explicações presentes na sua metapsicologia eram embrionárias e sujeitas a revisão, mas com a honestidade de um homem de ciência permanece fiel ao fenômeno observado do ocultamento, vinculando-o ao conceito de inconsciente.

“(....)Quero garantir-lhes que essas suposições grosseiras (...)

contudo, significam uma aproximação bem avançada em direção ao estudo da questão” (FREUD, apud HOLZHEY-KUNZ, 2000,

p.8)63

Os impasses a que nos referimos até aqui poderiam ser resolvidos se Freud não tivesse partido de uma compreensão do consciente como uma instância fundada na evidência, ou seja, na transparência do percebido e, portanto, na incapacidade de se auto-enganar. Em função da aproximação da consciência aos órgãos dos sentidos é que foi necessária a formulação de um in- consciente. Freud assim se refere ao conceito de consciente: “Nenhuma outra senão a de um órgão dos sentidos para percepção de qualidades psíquicas (...) (FREUD, apud Holzhey-Kunz, 2000, p.9) II/III-620). Assim comenta a autora, referindo-se a Freud:

“O consciente é um órgão perceptivo análogo aos órgãos

sensoriais externos. O mundo externo é dado ao consciente através dos órgãos sensoriais. As experiências internas, o consciente percebe de maneira imediata. Devido a este caráter de imediaticidade algo só se deixa perceber assim como ele se mostra de si mesmo. Isto é, o consciente não se engana em relação aos acontecimentos intra-anímicos que ele percebe formulado de outra forma: o consciente é transparente a si mesmo” (FREUD, apud HOLZHEY-KUNZ, 2000, p.9).

A apreensão do mundo exterior ou das experiências internas pela consciência se daria de acordo com as apreensões sensíveis ocorridas pelos órgãos dos sentidos, de modo que o consciente somente poderia se enganar se tais conteúdos já chegassem deformados, alterados ou retidos.

3.3. UMA INTERPRETAÇÃO DO FENÔMENO DO OCULTAMENTO