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SOBRE O ESTADO PRÓXIMO DA IMPASSIBILIDADE CAPÍTULO

No documento Evágrio Pôntico - Tratado Práctico.pdf (páginas 139-147)

Existem dois estados aprazíveis na alma: um provém das sementes naturais, outro resulta da retirada dos demônios. O primeiro é acompanhado da humildade e da compunção, das lágrimas, de um desejo infinito do Divino, e de um zelo desmedido pelo trabalho; no segundo, a vã glória, acompanhada do orgulho, aproveita-se da desaparição dos outros demônios para arrastar o monge à sua perda. Aquele que observa os limites do primeiro estado reconhecerá rapidamente as incursões dos demônios.

Os capítulos 57 a 62 tratam dos “confins” da impassibilidade, ou seja de todos os “indícios” pelos quais podemos reconhecer que nos aproximamos do estado de “paz” (in Ps., CXLIII, 1a; CXLVII, 3b). Este discernimento é tanto mais importante na medida em que os próprios demônios sabem imitar a impassibilidade para confundir.

A impassibilidade é um estado tranquilo da alma racional, feito de doçura e temperança. (Sk., 3)

É a paz, total ou parcial (cf. Pr., 60), que se segue ao final do combate contra os demônios e as paixões. Ela resulta da colaboração entre a graça de Deus e o zelo do homem (cf. in Ps., XVII, 21b), o qual tem suas raízes na “sementes naturais da virtude” (in Ps., CIIIVI, 7), que o Criador semeou no princípio na “terra” da alma (Ep., XVIII, 2 e.a). E como estas sementes são “indestrutíveis” (K.G., I, 40), dependerá inteiramente do zelo do homem oferecer-lhe ou não o espaço para seu livre crescimento.

Que este estado de verdadeira paz provenha em consequência das sementes naturais da virtude, é fácil de constatar por seus frutos. Evagro cita alguns aqui, valendo a parte pelo todo. Mas o mesmo acontece com a contrafação demoníaca dessa paz, que não pode negar seu nome: O “broto da malícia” (Ep., 46). Pois

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após a retirada de todos os outros demônios, vem o demônio da vanglória (Pr., 31), que por sua vez estende a mão ao do orgulho (Pr., 31). A paz que estes demônios oferecem não passa jamais de uma armadilha.

“Eles me dizem palavras de paz, mas cheios de furor ruminam a mentira: vocês serão como deuses, está escrito, conhecedores do bem e do mal” (Gn., III, 5). Eis suas palavras de paz. (in Ps., XXXIV, 20)

CAPÍTULO 58

O demônio da vanglória opõe-se ao demônio da fornicação, e não podemos admitir que os dois ataquem a alma ao mesmo tempo, pois um promete honras e o outro conduz à desonra. Portanto, se um dos dois se aproximar de você oprimindo-o, modele em si os pensamentos do demônio adversário e, se você conseguir, como foi dito, tapar um buraco com outro, saiba que você está próximo das fronteiras da impassibilidade. Pois seu intelecto teve a força para destruir com pensamentos humanos os pensamentos do demônio. Mas afastar pela humildade o pensamento da vanglória, ou pela continência o da fornicação, será a prova de uma impassibilidade profunda. Procure também aplicar este método a todos os outros demônios que se opõem uns aos outros, pois você saberá de uma vez qual paixão o afeta mais. Porém, tanto quanto você puder, procure obter de Deus a capacidade de expulsar os inimigos da segunda maneira.

No capítulo 45 já se tratou do antagonismo entre pensamentos ou entre alguns demônios – antagonismo puramente aparente, a bem da verdade. O fundamento desta oposição fictícia, com diz Evagro neste capítulo, provém não apenas do conteúdo específico desses pensamentos, mas também da natureza do intelecto.

Não é todos juntos que os demônios nos tentam, nem ao mesmo tempo que eles nos inspiram seus pensamentos, porque o intelecto não aceita receber a um só tempo as representações de dois objetos sensíveis. (...)

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E mesmo se nosso intelecto, por ser extremamente rápido, associa os pensamentos uns aos outros conforme seu movimento, não se deve por isto deduzir que eles estejam todos presentes ao mesmo tempo. (M.C.r.l., 23)

Evagro prossegue dando alguns exemplos em apoio a esta posição, depois termina com um conselho parecido ao do presente capítulo:

É preciso, nos momentos em que experimentamos tentações, deslocar o intelecto do pensamento impuro para alguma outra representação, e desta para outra, até escapar deste malvado “capataz” (Ex., V, 6) (M.C.r.l., 23) “Tampar”, desta maneira, “um buraco com outro”, ou melhor, conduzir o intelecto de um mau pensamento para um bom, é um sinal de que estamos próximos da impassibilidade. Mas ainda nos achamos “em terreno inimigo”. Ao contrário, aquele que exorciza o vício pela virtude contrária (cf. in Prov., XVII, 9/G.157), este está de posse da “primeira e mais alta impassibilidade” (M.C., 10), pois ele não peca nem em pensamento nem em ato. Evagro, por conseguinte, dá preferência a este segundo “método”, e com toda razão.

CAPÍTULO 59

Quanto mais a alma progride, mais fortes são os antagonistas que se sucedem contra ela. Pois não creio que sejam sempre os mesmo demônios que permanecem junto a ela. Isto o sabem aqueles que percebem as tentações de modo mais penetrante, e que vêem a impassibilidade adquirida sacudida por seus sucessivos assaltos.

O sábio Jesus Ben Sira já dizia: “meu filho, se você quiser servir a Deus, prepare sua alma para as tentações” (Si. II, 1). E estas tentações não vão diminuindo, mas com o tempo elas se tornam mais e mais violentas (cf. Pr., 45),

...contra a alma que não sabe que as tentações se tornam mais pesadas quando ela começa a penetrar de modo espiritual as palavras vivas de

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Deus e a aplicar-se seriamente aos mandamentos de Deus. (Ant., IV, 3; cf. Ex., V, 22)

Neste capítulo Evagro, com toda simplicidade, conduz ao conhecimento os mais experimentados. Que às vezes as coisas não se passaram tão bem para ele como para aqueles, prova-o a Ep. IV, 1. Também são mencionados os “naufrágios no porto” na carta de conotação biográfica, Ep., LII, 2. Pois “todos aqueles que progridem têm que se haver com numerosos assaltantes” (in Ps., III,2a).

CAPÍTULO 60

A impassibilidade perfeita sobrevem na alma após sua vitória sobre todos os demônios que se opõem à prática; a impassibilidade imperfeita se diz relativamente ao poder do demônio que luta ainda contra ela.

A vida espiritual subdivide-se em duas fases principais: a vida “prática” da ascese e a vida “teórica” da contemplação. Correlativamente, haverá demônios para se opor à primeira fase e outros para a segunda. No capítulo 86 este tema será retomado.

Estas duas fases principais comportam por seu turno muitos degraus, e a subida se faz aos poucos. A “flor da praktiké” (Pr., 81), é a impassibilidade enquanto “saúde” natural da alma (Pr., 56). Esta pode ser “perfeita”, e Evagro a chama então “santa”, porque ela conforma o “homem novo” (M.C., 3), ou então “a primeira e a maior” (M.C., 10), pois daí em diante o homem não peca mais, nem em pensamentos, nem em ações. Esta impassibilidade é a “coroa” do intelecto (M.C., 25), a apatheia do coração que torna o intelecto capaz de “no momento da prece” ver a si mesmo (para falarmos de um modo figurado) “como uma estrela” (M.C., 24). Ela o leva “como sobre as asas” às regiões celestes, aonde ele irá compartilhar “o conhecimento da Santíssima Trindade” (M.C.r.l., 29).

Diante desta impassibilidade “perfeita”, existe também a impassibilidade “imperfeita”: a “que atinge (apenas) a parte concupiscente” da alma (M.C., 16). Ela portanto não liberta o homem – mesmo das paixões desta parte – senão com

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a ressalva: “relativamente ao poder do demônio que luta contra ela”. E mais de um “ancião”, que não conseguiu compor-se com seu estômago, permaneceu ainda bastante vulnerável no tocante à irascibilidade... (cf. Gn., 31). Esta “pequena” apatheia, como a chama Evagro, não deixa de representar perigos para aquele que a adquiriu, como tudo o que se faz pela metade.

Cada vez que o intelecto dos anacoretas obtém um pouco de impassibilidade, então, dispondo de um bocado de vanglória, ele se lança às cidades, buscando todos os louvores da glória. Por um desígnio providencial, o demônio da luxúria vai diante dele e, tendo-o preso em algum chiqueiro, lhe ensina a não mais deixar o leito sem ter recuperado a saúde e a não imitar os doentes indisciplinados que, ainda que trazendo em si os restos da doença, permitem-se prematuramente viagens e banhos e assim recaem adoentados. Permanecendo tranquilos, vigiemos a nós mesmos a fim de que progredindo nas virtudes nos tornemos dificilmente acessíveis ao mal; “renovados no conhecimento” (cf. Col., III, 10), receberemos uma quantidade de contemplações variadas e, elevados novamente pela oração, seremos iniciados em uma luz superior, aquela de nosso Salvador. (M.C., 15)

CAPÍTULO 61

O intelecto não poderá avançar, nem cumprir esta bela emigração e chegar à região dos incorpóreos, se não corrigiu seu interior. Pois os problemas domésticos habitualmente a fazem retornar ao estado de onde ela saiu.

Dois temas se superpõem neste capítulo. Em um, o protótipo do Êxodo: a vida espiritual se desenvolve na tensão entre a “saída” do Egito e a “entrada” na Terra Prometida; no outro, a imagem da casa bem organizada, emprestada aos Provérbios de Salomão. Como não é raro em seus escritos, Evagro trata os dois temas em diversas ocasiões e quase da mesma maneira.

O intelecto não poderá avançar nem chegar à contemplação dos incorpóreos enquanto não houver corrigido seu interior, pois a

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perturbação doméstica o faz habitualmente retornar ao estado do qual saíra. Mas quando ele possuir a impassibilidade, “ele se demorará” na contemplação e “não se preocupará com os que ficaram em casa”, pois sua parte irascível estará “vestida” de mansidão e humildade e sua parte concupiscente, de continência e abstinência. (in Prov., XXXI, 21/G.377)

A pacificação dos “co-habitantes”, o irascível e o concupiscente, significa ao mesmo tempo a “saída, a passagem do vício para a virtude”, condição prévia à “entrada, a passagem da virtude para o conhecimento de Deus” (in Ps., CXX, 8b). É esta “tão bela corrida e esta partida para Deus” (Or., 47) que se produz durante a oração. O pano de fundo dessa linguagem figurada consiste, como dissemos, no protótipo do Êxodo, abundantemente explicitado por Evagro. Pois o “Egito”, aonde os Padres chegaram vindos de suas terras pátrias, é um símbolo “deste mundo”, que se encontra sob o domínio do “Faraó”, símbolo do Diabo (in Ps., CIV, 22). Sair daí significará portanto abandonar os vícios. O objetivo deste “Êxodo”, é a Terra Prometida”, símbolo do conhecimento de Deus. Mas entre os dois estende-se o longo período no deserto, com todas as suas privações e todas as suas tentações, imagem da praktiké (in Ps., CXXXV, 6c). Na subida para a “Terra Prometida”, Evagro distingue ainda diversas etapas:

O Egito significa a malícia, o deserto a praktiké, a terra de Judá a contemplação dos corpos, Jerusalém a dos incorpóreos e Sião o símbolo da Trindade. (K.G., VI, 49)

Nosso capítulo faz parte do grupo de textos “Sobre o estado próximo à impassibilidade”. Ele comporta ainda uma advertência para aqueles que pretendem empreender desde logo a “bela emigração para Deus” antes de terem adquirido a impassibilidade perfeita (cf. Pr., 60): eles serão logo obrigados a “bater em retirada” por causa dos “problemas domésticos”.

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CAPÍTULO 62

Tanto as virtudes quanto os vícios cegam o intelecto; aquelas, para que ele não veja os vícios; estes, para que ele não veja as virtudes.

Estas inversões de conceito são frequentes em Evagro. Normalmente, “estar cego”, ser incapaz de conhecer pela vista, representa uma deficiência: “Ser cego significa estar privado de conhecimento” (in Ps., CLXV, 8c). Mas aqui, isto significa que o homem, de algum modo, “perdeu de vista” o vício. Da mesma forma, a “insensibilidade”, em si, é um vício terrível (cf. M.C., 11); porém, em Or., 120, ela significa a supressão – entendida no sentido positivo – da percepção sensível, no estado de oração. Também pode tratar-se de uma “distração divina”, sinônimo do “conhecimento de Deus” (in Eccl., V, 17/G.42), em oposição a uma “distração passageira” em função dos objetos sensíveis (in Eccl., III, 10-12/G.15), podemos dizer de uma “má distração” da ignorância que “separa o impuro da contemplação” (in Eccl., V, 13/G.40). De modo análogo, a “surdez”, em si, representa uma deficiência, e no entanto a impassibilidade traz consigo uma “surdez” positiva da qual o intelecto particularmente tem necessidade durante a prece.

“E eu, como um surdo, nada ouvi”: na verdade, ele acolheu os pensamentos do tentador, mas não os “escutou”, porque não os colocou em prática. Pois foi graças a uma surdez causada pela impassibilidade que ele não “escutou”. (in Ps., XXXVII, 14)

São ainda os mesmos pensamentos que Evagro expressa por meio de outras variações sobre o tema da saída, que não deixa de ter afinidades com o tema da “via”, aqui vista como praktiké, no decurso da qual nos separamos progressivamente do vício para nos aproximarmos da virtude:

Dizemos das virtudes, que elas estão “à nossa frente”, e, ao contrário, que os vícios se acham “atrás de nós”. É por isso que nos foi ordenado “fugir da fornicação” (1 Co., VI, 18), mas de “perseguirmos [a ocasião de exercer] a hospitalidade” (Rom., XII, 13) (in Ps., XLIII, 11)

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Nos capítulos seguintes, Evagro desenvolverá com mais precisão a idéia de

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