LÓGICA E LINGUAGEM
2.1 Sobre o Modo Formal e o Modo Material de Falar
Ao tratar da sintaxe enquanto método de filosofar, Carnap, em Filosofia e
Sintaxe Lógica, apresenta uma definição cuja análise nos parece extremamente importante para compreendermos o caráter e a função do discurso formal, em vista dos problemas gerados pelo discurso, ou modo material. Assim, a sintaxe lógica é entendida como a teoria formal da linguagem – a metalinguagem:
Chamaremos formais aquelas considerações ou asserções que se referem à expressão lingüística sem nenhuma referência ao sentido ou à significação que ela possa possuir. Uma investigação formal de uma oração determinada não se refere ao sentido da oração ou ao significado de cada palavra, mas exclusivamente ao gênero das palavras e à ordem mediante a qual se sucedem umas às outras. (Carnap, 1963c, p. 25)
Vemos, portanto, que na sintaxe lógica a referência ao significado dos termos é excluída, ficando, desse modo, restrita às regras de formação (símbolos lógicos) e às regras de transformação (regras de inferência). Apenas mais tarde, Carnap passa a considerar os aspectos semânticos e pragmáticos, revendo sua tese da identificação da filosofia com a sintaxe lógica.
Com a utilização do modo formal de falar, os problemas metafísicos são evitados, e muitas confusões filosóficas resolvidas, pois as questões são analisadas a partir de um determinado sistema de linguagem. Assim, o caráter enganoso do modo material de falar é superado, uma vez que os enunciados passam a ser relativizados em relação a um sistema de linguagem definido.
O método de tradução, do modo material para o modo formal, que propõe a solução de problemas originados na própria formulação de sentenças, tem como conseqüência facultar a liberação da análise lógica à referência de objetos extralingüísticos, ou seja, a análise se dá em um sistema puramente lingüístico. Contudo, Carnap chama a atenção para um ponto central de nossa discussão, ao enfatizar que tal conclusão é própria da análise lógica, ou seja, da investigação metalingüística, mas que nas ciências empíricas a referência aos objetos se dá de modo efetivo, de acordo com o sistema espaço-temporal, onde as questões são decidíveis (cf. Carnap, 1963c, p. 45). Ao utilizarmos o termo ‘impossibilidade’, por exemplo, seu sentido dependerá do sistema de referência, seja este lógico ou físico.
Muitas controvérsias filosóficas são causadas pela falta de uma referência lingüística, o que demonstra a incompletude das teses filosóficas;
Muito freqüentemente, surgem controvérsias filosóficas fúteis em razão da incompletude das teses. Essa incompletude se esconde na própria formulação usual do modo material; quando traduzidas para o modo formal, nota-se imediatamente a carência de referência a uma linguagem. Então, mediante o acréscimo de tal referência, as teses se completam e, por conseguinte, as controvérsias se tornam claras e exatas (...) A relatividade de todas as teses
um ou mais sistemas de linguagem particulares, é um ponto essencial a que se deve prestar atenção. Tal relatividade quase sempre passa despercebida devido ao uso geral do modo material de falar. (Carnap, 1963c, p. 48)
Segundo Carnap, este método resolveria uma parte bastante representativa dos problemas que causam controvérsias filosóficas – as sentenças de pseudo-objetos que após a tradução ao modo formal ficam relativizadas em relação a um sistema de linguagem.
Para melhor compreendermos essa questão, é importante retomarmos uma distinção feita por Carnap entre três tipos de sentenças:
(a) Sentenças de objetos autênticos; (b) Sentenças de pseudo-objetos;
(c) Sentenças sintáticas;
As sentenças de objetos autênticos são todas aquelas da ciência empírica, possuindo, então, uma referência unívoca: o sistema espaço-temporal. Um exemplo disso pode ser o enunciado “a lua é esférica”. Tal enunciado não causa controvérsias inúteis por ser decidível. No caso das sentenças sintáticas, estas já estão situadas em um sistema determinado e também são decidíveis de acordo com tal sistema de referência. Assim, uma oração formulada no modo material, por exemplo, “7 não é uma coisa, mas um número”, no modo formal teria a seguinte formulação: “o signo ‘7’ não é um signo de coisa, mas um signo numérico” (cf. Carnap, 1963c, p. 44). Este é um caso típico de uma tese incompleta que, ao ser traduzida para o modo formal, torna-se completa, pois passa a ter uma referência lingüística. Eis a grande importância de ver a filosofia como um método sintático capaz de resolver ou simplesmente dissolver problemas metafísicos, que são problemas lingüísticos. Quanto às ‘sentenças de pseudo-objetos’30, que pertencem ao modo material de falar, a sua tradução para o modo formal de falar
resolve o problema, porque elas passam a ser sentenças sintáticas, tendo como referência um sistema lingüístico. Daí a relevância do princípio de tolerância no que diz respeito às formas lingüísticas, o que não é o caso das sentenças empíricas que dispõem de um sistema único de referência.
Contudo, a tese da eliminação da metafísica feita por meio da análise lógica da linguagem, uma conseqüência da unidade da ciência, não implica a eliminação do modo material de falar. Sobre isso, Carnap afirma que tal modo é usual e até mesmo adequado. Entretanto, se gerar algum tipo de controvérsia devido à sua incompletude, então a tradução para o modo formal se faz necessária, pois, mesmo que tais sentenças sejam muito utilizadas em nossa linguagem, devemos ter o devido cuidado para evitarmos inconsistências e confusões lingüísticas, em razão de que estas ocorrem tanto na metafísica, quanto na lógica da ciência. No segundo caso, de acordo com Carnap, elas são removidas pela tradução ao modo formal de falar.
O uso do modo material de falar leva-nos a desconsiderar a relatividade das sentenças filosóficas a uma linguagem. É deste modo que surge a maioria das controvérsias filosóficas (lingüísticas), ou seja, pseudoteses do modo material de falar. Contudo, em momento algum, Carnap defende a eliminação do modo material de falar, já que este é um elemento importante do uso lingüístico ordinário. Todavia, na construção de uma linguagem científica, livre de ambigüidades, este artifício lingüístico pode ser perigoso, exigindo, deste modo, uma atenção especial quanto ao seu uso, no sentido estrito de evitá-lo, não por ser errado, mas por dar origem a interpretações equivocadas.
Conforme afirmamos acima, o método de tradução resolve uma parte dos problemas, dissolvendo outra. Todavia, em alguns casos, o uso do modo material conduz a um tipo diferente de sentenças, que são os pseudoproblemas, ou pseudoteses metafísicas, as quais, por sua vez, devem ser completamente eliminadas do discurso empírico científico por não possuírem um referencial empírico, ou lingüístico, conseqüência da impossibilidade de tradução para o modo formal, e por não possuírem uma localização espaço-temporal (teses sobre a essência dos objetos). Procedendo dessa forma, e dada a distinção dos elementos psicológicos que tratam do contexto de descoberta, ou seja, dos processos mentais que nos levam a obter conhecimento, a epistemologia é vista como parte integrante da sintaxe lógica. No Aufbau, o termo
‘Reconstrução Racional’ indica que não é função da epistemologia dar conta dos processos reais que levam um sujeito epistêmico a obter conhecimento. Nesse caso, à epistemologia cabe a tarefa de justificação do conhecimento como algo dado.
O modo formal, que é a expressão da própria sintaxe, enquanto método de análise metalingüística, nos proporciona uma forma para expressarmos corretamente nossas sentenças fazendo referência aos próprios termos, não aos objetos que pertencem a outro nível. Com isso, podemos reafirmar, seguindo Carnap (1963c, p. 59), a tese de que o método da sintaxe lógica, que possibilita a análise da estrutura formal da linguagem como um sistema de regras, é o método próprio da filosofia. Uma das conseqüências da identificação da filosofia com o método de análise lógica da linguagem é que a filosofia não pode ser um sistema de enunciados que permita a formulação e defesa de teses, assim como o faz a ciência empírica. Este é o motivo pelo qual Carnap faz questão de afirmar que o Círculo de Viena não é uma escola, ou movimento filosófico. Com isso, não há motivos para se preocupar com a elaboração de uma possível separação ou linha demarcatória entre filosofia e ciência31, pois qualquer enunciado significativo pertence a uma ciência única.