9. ATOS LIMITES: A SUPERAÇÃO DAS SITUAÇÕES-LIMITES
9.1 Sobre o Processo de Conscientização Docente e Discente
Nesse capítulo descreverei os atos limites, ou seja, as atitudes e os comportamentos docentes que manifestei em busca da superação das situações-limites enfrentadas pelos alunos. Assim, essa seção será organizada da seguinte forma, a saber: 1) Sobre o processo de conscientização docente e discente: a) A produção de suporte didático para realização das tarefas; b) Aprendizado musical ao longo do GTD: Investigando casos particulares; c) Evolução Musical dos Grupos ao longo do GTD; e 2) Do caos à aprendizagem: a) Síntese da seção e considerações parciais.
9.1 Sobre o Processo de Conscientização Docente e Discente
Aos poucos fui conscientizando-me de que era necessário alterar a minha atuação frente aos alunos, pois se eles não eram capazes de conduzir a própria aprendizagem, tal como requer a proposta de aprendizagem informal de música na escola. Por isso, eu deveria criar estratégias para que os alunos começassem a exercer a sua própria autonomia e liberdade musical em sala de aula. Os comportamentos e atitudes docentes que relatarei nesse capítulo respondem diretamente a meu instinto docente e musical, ao invés de serem resultado de estudos ou tentativas de aplicação teórica de algum pensamento ou estratégia educacional. Portanto, para superar as situações-limites presentes na pesquisa tive que, igualmente, forjar atos limites. Ou seja, tive que manifestar comportamentos que me tirassem da zona de conforto e que estavam na esfera de minha capacidade de compreensão, consciência e atuação docente do momento.
Diante deste panorama a minha primeira necessidade de ordem musical foi fazer com que os alunos escolhessem as músicas que queriam tocar e depois fazer com que eles as escutassem em sala de aula. A sala de música em que realizamos a proposta possuía um aparelho de som, mas não possuía acesso a internet. Este fato dificultou a escuta e escolha das músicas durante a aula. As músicas escolhidas pelos grupos na primeira etapa do projeto foram: Grupo 1A - “Ela só quer paz” (Projota); Grupo 1B - “Paisagem da Janela” (Beto Guedes); Grupo 2A - “Parabéns para você”; Grupo 2B: “À sua Maneira (Capital Inicial). Na segunda etapa do projeto eu selecionei o repertório para os alunos, contendo as seguintes músicas: “Shape of you” (Ed Sheeran), “I’m yours” (Jason Mraz), e “Somewhere over the rainbow”.
Vale lembrar que um dos aspectos mais importantes presentes nas práticas musicais dos músicos populares é a realização de atividades com alto nível de motivação, prazer e divertimento (GREEN, 2008b, p. 9). A motivação para os músicos populares parte de si mesmo e do próprio grupo musical em que estão inseridos. Em meu GTD, de alguma forma, quando as atividades musicais foram propostas dentro do espaço escolar elas deixaram de ser percebidas como atividades ‘legais’ ou ‘interessantes’ para serem consideradas apenas atividades escolares a serem cumpridas.
Na aula 08, após perceber que os alunos não estavam ouvindo as músicas que escolheram para tocar em sala de aula, decidi observar qual era a real capacidade de escuta dos alunos. Será que eles não ouviam as músicas em sala por que não tinha se organizado para isto, ou não ouviam as músicas porque tinham dificuldade em tirá-las de ouvido’? Organizei a turma para tocarem em conjunto instrumentos de percussão por cima das gravações das músicas Ana Júlia (Los Hermanos); Smoke on the Water (Deep Purple); e We will Rock You (Queen).
A atividade consistia em ouvir as músicas e seguir seu ritmo com instrumentos de percussão. Segue abaixo nosso registro de campo acrescido de elementos colhidos durante a análise de vídeo da aula:
Nesse dia estavam reunidos os Grupos 1A e 1B. No início da aula organizei os instrumentos de percussão no centro da sala e aguardei a chegada dos alunos. Eles tinham à sua disposição tarol, tambor, meia-lua, tam-tam, tamborim e pandeirolas. Os alunos chegaram fazendo a ‘arruaça’ de sempre, mexendo e batendo em todos os instrumentos de maneira caótica. Demorei algum tempo organizando a turma. Iniciei a aula dizendo que hoje faríamos uma atividade diferente, ouviríamos algumas músicas e depois tocaríamos os instrumentos de percussão por cima das gravações. Na primeira parte da aula deixei os alunos tocando com a gravação sem nenhuma orientação minha. O Grupo 1B se engajou nas atividades e assumiram a frente dos trabalhos, conseguindo pegar sem nenhuma dificuldade o ritmo de todas as músicas. Eles basicamente tocavam as pulsações das músicas. Como todos tocavam ao mesmo tempo havia dentro de sala de aula um imenso barulho, eles tocavam tão alto que ultrapassava o som da própria gravação. O Grupo 1A não se envolveu nas atividades. Os alunos permaneceram tocando por 30 minutos sozinhos, experimentando os timbres e investigando como poderiam fazer para soar semelhante ao ritmo da música que escutavam. No segundo momento da aula me aproximei dos alunos e disse que estavam tocando bem, mas era preciso aprender a ouvir os colegas e ouvir a gravação ao mesmo tempo. Assim, coloquei as músicas novamente e pedi que observassem os detalhes das ‘viradas’ da bateria, pois a pulsação eles já haviam assimilado. Peguei uma baqueta e fui tocar junto com eles. Ao invés de dizer como deveriam fazer eu apenas toquei com eles, deixando que eles imitassem o ritmo que executava. É interessante observar que estavam tão engajados nas atividades que não percebiam o tamanho do barulho que faziam em sala - este barulho simplesmente não os incomodava. Um aluno pediu para colocar o som de percussão no teclado, assim ele poderia contribuir com um timbre diferente no grupo. Depois de 50 minutos de ensaio, como os alunos já estavam cansados peguei o baixo elétrico e toquei a música ‘We will rock you’ para os alunos me acompanharem. No começo eles me acompanharam buscando o ritmo da melodia da
música, depois perceberam que deveriam tocar apenas o ritmo que estavam fazendo na bateria, o ritmo que a define pulsação com um som grave e outro agudo. Eles parecem animados e ao me verem tocando o baixo percebem que eu também sei tocar, algo que ainda não haviam visto desde as primeiras aulas. A aula transcorre bem e percebi que os alunos são capazes de tocar a pulsação das músicas sem nenhuma dificuldade.
(Diário de Campo, Aula 08, 11/05/17) Nessa aula percebi que os alunos do Grupo 1B estavam engajados na atividade, pois ficaram ativos durante toda a aula que durou aproximadamente uma hora e meia. Observei que em uma mesma sala de aula havia dois níveis de motivação, o Grupo 1A achando a atividade ‘super barulhenta’ e desestimulante e o Grupo 1B totalmente integrado na realização da tarefa. Isto mostra que alguns dos problemas que enfrentei em minha pesquisa não foram apenas falhas na condução metodológica, mas respondem também à falta de motivação dos alunos frente à proposta.
Ficou claro para mim durante esta prática que os alunos podiam e conseguiam ouvir as músicas perfeitamente em nível de pulsação, letra e ritmo melódico, semelhante à proposta realizada por Green (2008b, p. 49). Os alunos tinham totais condições de ouvirem as músicas e aprenderem de ouvido alguns elementos musicais de forma independente. Porém, a dificuldade residiu na falta de organização interna dos grupos para trazerem as músicas para sala de aula e mobilizarem os colegas para escutarem e tocarem em conjunto durante as aulas.
Outro elemento importante que ocorreu nesta aula foi o início de minha atuação como um modelo musical para os alunos. Esta foi a primeira vez que os alunos me viram tocar de maneira mais livre, de fato estava tocando com eles e não tocando apenas versões simplificadas das músicas. Ao manifestar a minha musicalidade me senti mais presente na aula e isso repercutiu positivamente no ânimo dos alunos. Assim, recuperava, pouco a pouco, minha posição em sala de aula após tê-los deixados quatro aulas sozinhos. Penso que o exemplo do professor como músico é muito importante para os alunos, pois eles sentem confiança quando percebem que o professor realmente possui os conhecimentos e habilidades musicais que eles devem adquirir.
9.1.1 A produção de suporte didático para realização das tarefas
No segundo estágio da proposta formulada por Green (2008b) os alunos trabalham a partir de “repertório e material curricular pré-selecionados (repertório familiar), e algumas demonstrações por parte do professor” (GREEN, 2008b, p. 26). Assim, ao longo do GTD procurei me aproximar dos alunos e oferecer instruções musicais mais diretas sobre como
tocar os instrumentos e como tirar as músicas de ouvido. Passei a tocar com eles e mostrar nos instrumentos as possibilidades para executar as músicas que escolheram.
Para facilitar este processo produzi algumas folhas com orientações didáticas, com base em simplificações de cifras e tablaturas, para que os alunos pudessem guiar sua audição durante as atividades. Embora os alunos pudessem seguir a pulsação da música com os instrumentos de percussão eles ainda não tinham condições de perceber as variações melódicas e harmônicas das músicas. Neste material estavam ilustrados acordes de violão e teclado de forma simplificada, as letras das músicas e as notas musicais para piano e xilofone. A tarefa que tinham que realizar auditivamente era descobrir o ritmo da melodia da música e escolher a melhor digitação a ser executada. Apesar das músicas e das notas estarem escritas no material eles somente poderiam tocar se ouvissem a música. Utilizando esta abordagem me aproximei dos alunos e promovi neles uma reativação do ânimo durante as aulas. Este material didático funcionou como verdadeiros ‘botes-salva vidas’ para os alunos, pois lhes deram as orientações necessárias para que pudessem superar as suas situações- limites37.