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SOBRE O PROGRAMA DE RESIDÊNCIA PEDAGÓGICA

No documento Residência Pedagógica.pdf (3.391Mb) (páginas 135-142)

DA CAPES 2018

José Erimar dos Santos3

INTRODUÇÃO

Discute-se, neste trabalho, a relação entre fe- deralismo, regime de colaboração e sua influência na efetivação das políticas públicas de formação de pro- 3 Doutor em Geografia pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Professor Adjunto do Departamento de Ciências Humanas (DCH) da Universidade Federal Rural do Semi-Árido (UFERSA). Coorde- nador Institucional do Programa de Residência Pedagógica da UFERSA. E-mail: [email protected]

fessores no Brasil, através do Programa de Residência Pedagógica da CAPES, a partir do Edital nº. 06/2018. Dessa forma, objetiva-se analisar como os regimes de colaboração e cooperação do federalismo nacional ar- ticulam-se às políticas de formação de professores e quais as influências disso nos desdobramentos, do ponto de vista prático, da atual política de formação de professores encabeçada pelo Ministério da Educação, a partir do ano de 2018, no Brasil.

A metodologia adotada valeu-se da pesquisa bi- bliográfica e da pesquisa documental. A primeira de- correu da necessidade de se discutir a forma como o território nacional é usado pelo Estado no processo de implementação das políticas de formação de profes- sores, bem como discutir o federalismo e as relações federativas no âmbito dos regimes de colaboração e cooperação inerentes a este programa. A segunda foi no sentido de buscar coletar dados e informações que pudessem convergir com a efetivação e operacionali- zação da atual política de formação de professores no país, tendo como representação os sistemas de ações normativas relacionadas ao Programa de Residência Pedagógica.

O trabalho se justifica da abrangência espacial articulada pelo programa e em função de na Consti- tuição Federal de 1988 a normatização referente ao fe- deralismo no Brasil ter reforçado a estrutura tripartite (União, Estados e Municípios) ao reforçar o município como condição de ente federado na implementação de políticas públicas, fato que impacta diretamente nos

sistemas de ações do Estado quando dos processos re- lativos às suas ações, no caso deste trabalho, naquelas relativas à formação de professores. São nos municí- pios onde efetivamente as políticas públicas produzem seus resultados, pois é na escala local onde os proces- sos efetivamente se realizam e se empiricizam em siste- mas de objetos e em sistemas de ações, organizando o espaço para determinados usos do território. Tal como Bonavides (2016), percebe-se pontos positivos na as- censão dos municípios como condição relevante para o federalismo nacional, estando a eles ligados os desdo- bramentos das políticas públicas, dentre elas, aquelas para a Educação, no sentido de que estas passaram a ser desdobradas mediante os regimes de colaboração e cooperação entre os entes federados. No caso do Pro- grama de Residência Pedagógica, o regime de coope- ração está assentado num conjunto de competências normatizadas pelas portarias internas que legitimam os processos de colaboração, ou seja, nas competên- cias legadas às Instituições de Ensino Superior (IES) e às secretarias municipais e estaduais de educação e o Governo Federal, na figura da CAPES, legitimando o processo de descentralização da efetivação da referida política para a Educação, ou pelo menos deveria assim acontecer.

No contexto da reconfiguração das políticas de formação de professores do Brasil, em 2018, foi cria- do, no âmbito da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), o Programa de Re- sidência Pedagógica, regulado pelo regime de colabora-

ção “[...] efetivado por meio da formalização de Acordo de Cooperação Técnica (ACT) firmado entre o Governo Federal, por meio da Capes; o Conselho Nacional de Secretarias de Educação (Consed) e a União Nacio- nal dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime)” (BRASIL, 2018, p. 2). A participação dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios evidencia o caráter da ação federativa envolvida na execução do progra- ma, formalizado por meio de Termo de Adesão ao ACT, firmado por suas respectivas secretarias de educação (BRASIL, 2018).

Os objetivos desse programa, segundo o Edi- tal CAPES nº. 06/2018, de 28 de fevereiro de 2018 são: I. Aperfeiçoar a formação dos discentes dos cur- sos de licenciatura, por meio do desenvolvimento de projetos que fortaleçam o campo da prática e que conduzam o licenciando a exercitar de forma ativa a relação entre teoria e prática profissional docente, utilizando coleta de dados e diagnóstico sobre o ensi- no e a aprendizagem escolar, entre outras didáticas e metodologias; II. Induzir a reformulação do está- gio supervisionado nos cursos de licenciatura, ten- do por base a experiência da residência pedagógica; III. Fortalecer, ampliar e consolidar a relação entre a IES e a escola, promovendo sinergia entre a entidade que forma e a que recebe o egresso da licenciatura e estimulando o protagonismo das redes de ensino na formação de professores; IV. Promover a adequação dos currículos e propostas pedagógicas dos cursos de formação inicial de professores da Educação Básica

às orientações da Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Ainda conforme esse edital, “a residência pe- dagógica é uma atividade de formação realizada por um discente regularmente matriculado em curso de licenciatura e desenvolvida em uma escola pública de educação básica, denominada escola-campo” (BRA- SIL, 2018, p. 1).

Ao se buscar compreender como essa confi- guração do federalismo envolvida no Programa de Residência Pedagógica tem influenciado a operacio- nalidade do referido programa, faz-se necessário com- preender como têm se materializado os sistemas de ações políticas através da materialização dos regimes de colaboração e cooperação perante as políticas de Educação no Brasil. Nisso, não se pode deixar de lado a reflexão que envolve os impactos promovidos pelos regimes de colaboração e cooperação sobre o Progra- ma de Residência Pedagógica e seus reflexos na vida de bolsistas residentes. Essa configuração tem como fundamento um conceito e/ou categoria de análise o território usado, território praticado, proposto por

Santos (1998). O território usado, ainda segundo esse geógrafo, é o território de todos os agentes, de todas as instituições, de todas as firmas, não apenas um instrumento de uso exclusivo dos agentes hegemô- nicos da política e da economia, embora aqui se use essa categoria de análise geográfica para se referir aos sistemas de ações do Estado em relação à Educa- ção Nacional na política de formação de professores da qual o Programa de Residência Pedagógica é parte.

Numa perspectiva geográfica, isso implica em tratar, de maneira indissociável, as materialidades e as ações (SANTOS, 2009), isto é, território e política. O uso político do território vai de encontro ao sentido da expressão território político, o território exclusivo da ação do Estado, circundado por fronteiras bem de- limitadas e ausente das ações sociais. Assim, “é o uso do território, e não o território em si mesmo, que faz dele objeto da análise social. Trata-se de uma forma impura, um híbrido, uma noção, que por isso mesmo, carece de constante revisão histórica. O que ele tem de permanente é o nosso quadro de vida. Seu enten- dimento é, pois, fundamental para afastar o risco de alienação, o risco da perda do sentido da existência individual e coletiva, o risco de renúncia ao futuro” (SANTOS, 1998, p. 15).

Essa abordagem possibilita compreender que, no federalismo brasileiro, impera articulações que são mais competitivas do que cooperativas e lideradas pela União. Se não fosse esse descompasso, através do ca- ráter federativo envolvido no Programa de Residência Pedagógica, seria possível uma contribuição signifi- cativa ao enfrentamento das desigualdades educacio- nais entre as instituições educativas de formação de professores no país. O federalismo enquanto “[...] um arranjo político que permite que cada ente e cada lu- gar tenham uma participação solidária no conjunto da nação” (CATAIA, 2013, p. 1137), no caso aqui, relati- vo à política de formação de professores do MEC no Programa de Residência Pedagógica, possibilita o exer-

cício da formação docente significativa, ao promover impacto nas infraestruturas de formação, que estão intimamente ligadas aos recortes estaduais e munici- pais, respectivamente representados pelas secretarias estaduais e municipais de educação e suas respecti- vas unidades escolares. A formação docente não pode ser plenamente usufruída e construída sem uma forte base infraestrutural estadual e municipal e isso inclui, dentre outros aspectos, uma relação mais consistente e comprometida com a formação docente entre a uni- versidade, secretarias de educação e escolas, articula- da pela União e demais entes da federação.

Dessa forma, o texto reflete acerca dos nexos en- tre território usado, federação e políticas de formação de professores evidenciando a dimensão espacial desse processo. Ele está organizado em duas partes. A pri- meira, – “federalismo e relações de colaboração e coo- peração nas políticas de educação no Brasil” – discute noções do federalismo e sua relação com as políticas de educação no país tomando o uso do território como categoria de análise. A segunda, – “o programa de re- sidência pedagógica e a efetivação dos regimes de co- laboração e cooperação” – reflete sobre a relação entre o Programa de Residência Pedagógica e os regimes de colaboração e cooperação, na perspectiva de eviden- ciar que, nas políticas públicas de educação no Bra- sil, convivem processos simultâneos de centralização e descentralização, evidenciando os impactos disso na operacionalidade e efetivação do Programa de Residên- cia Pedagógica.

FEDERALISMO E RELAÇÕES DE COLABORAÇÃO E

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