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A vida das sociedades politicamente organizadas caracteriza-se e é configu-rada pela concepção e implementação de estratégias que permitem a satisfa-ção das respectivas necessidades através do acesso sustentado aos recursos que permitem concretizar objectivos. No entanto, os critérios de identificação dos recursos, o valor atribuído e os próprios recursos alteram-se, na medida em que a percepção dos interesses e as perspectivas da sociedade também evoluem. Assim, se, por um lado, o recurso continua a ser um elemento ins-trumental indispensável ao processo de satisfação dos interesses e da concre-tização destes objectivos, por outro lado, a evolução destes implica que certos novos elementos sejam identificados como recursos.

A identificação de um elemento material ou imaterial como recurso, de-pende da função que esse elemento desempenha no processo de concretização dos interesses dos indivíduos e das sociedades. Na sua forma mais simples, o recurso articula-se directamente com a percepção de uma necessidade e com a capacidade humana de utilização de um determinado elemento no sentido da satisfação ou do preenchimento dessa necessidade. A articulação que se estabelece entre o elemento e a necessidade resulta na identificação do ele-mento como recurso, no desenvolviele-mento de uma relação de interesse, e na atribuição de um valor a esse mesmo elemento.

A sua posse, preservação, reprodução, etc., tornam-se, então, interesses do indivíduo e do grupo social. Quando, da satisfação da necessidade, depende a sobrevivência, o recurso é considerado vital, e o valor que lhe é atribuído permite identificar uma escala valorativa e uma hierarquia de interesses, ori-ginando o conceito de bem comum ou colectivo.

Estes factos encontram-se na base de uma organização social que deter-mina prioridades, justifica hierarquias, formações e configurações políticas, formas de domínio e de gestão do poder, ao mesmo tempo que origina e

se-dimenta matrizes sócio-culturais, e que define espaços de domínio territorial em articulação com grupos sociais, separados entre si pelas ordens políticas e jurídicas da soberanias.

Neste contexto, a evolução do conceito de recurso articula-se com a per-cepção/consciencialização sobre a relação que se estabelece entre necessi-dade, recurso elementar, interesse e valor, num processo inerente à comple-xificação progressiva dos relacionamentos sociais. Neste sentido, a evolução do conceito de recurso traduz o alargamento das áreas de interesse dos indiví-duos, frequentemente influenciadas pela distribuição espacial dos elementos identificados como recursos, e definidoras das relações inter-grupais inerentes à satisfação das novas necessidades induzindo, designadamente, o apareci-mento de novas áreas, factores e modalidades de expressão de relacionaapareci-mento conflitual.

Sendo essas áreas de expressão material, implicam que se atribua um va-lor ao recurso que é assim associado à noção de “bem”. No entanto, as áreas de interesses, podem não ter expressão material, permitindo perspectivar áreas de interesse e recursos intangíveis, aos quais também se atribui um valor, que podem ser preservados e reproduzidos, mas que não podem ser possuídos. O conceito de “common concern” reflecte o interesse das sociedades em relação a certos “bens naturais”, ou seja, a recursos que adquirem expressão identificá-vel em contextos de equilíbrios elementares e em “processos essenciais” que, entre outras funções, permitem de forma sustentada a “viabilidade genética”

do planeta, que podem ser afectados pela acção humana, que são intangíveis e que não são apropriáveis, mas que foram consagrados pela Carta Mundial da Natureza, aprovada pela Assembleia Geral das Nações Unidas, em 1982.

Neste sentido, o conceito de recurso evolui, desde os bens materiais e vi-tais para a sustentabilidade primária e para a sobrevivência da espécie humana e da viabilidade económica e social do grupo, até aos referidos bens intangí-veis como o conhecimento, passando pelo equilíbrio interactivo entre elemen-tos e contexelemen-tos naturais, dos quais dependem a vida e a sustentabilidade de muitos outros recursos e espécies ecológicas e ambientais, a biodiversidade, o património genético, a atmosfera, os solos, as zonas húmidas, o clima, mas também os legados e os patrimónios culturais, espirituais, identitários, etc.

A preservação destes contextos de equilíbrio constitui um interesse co-mum da humanidade, mas é frequentemente dificultada pela partilha territo-rial dos espaços segundo o princípio da soberania, pelos interesses dos agentes

económicos e das economias dependentes da exploração desses recursos, que interferem, assim com a preservação daqueles equilíbrios.

Neste contexto, poderemos considerar três aspectos. Em primeiro lugar, a atribuição de valores aos recursos mantém-se, mas os recursos a que atri-buímos valores variam à medida que os objectivos mudam. Em segundo lu-gar, os interesses de acesso sustentado, domínio, preservação e concretização mantêm-se, mas as hierarquias e as prioridades alteram-se e manifestam-se em relação a recursos e objectivos diferentes. Finalmente, o conceito de re-curso evolui e interfere através de formas diferenciadas, com os princípios da territorialidade e da soberania dos estados, bem como com os interesses políticos e económicos inerentes.

Com efeito, a identificação de novos recursos como oespaçoe o conhe-cimento, os equilíbrios ambientais e climáticos, por parte das populações, representa a percepção e a consciencialização da sociedade civil para novas problemáticas e questões que se evidenciam como interesses comuns globais, sugerindo novas perspectivas sobre a necessidade e a correspondente exigên-cia de satisfação, através da elaboração e da implementação de soluções in-ternacionalmente coordenadas. Estes desenvolvimentos acentuam o carácter inequivocamente evolutivo, dos critérios de identificação dos interesses, da alteração das respectivas hierarquias e prioridades, da atribuição elementar dos valores, e da evolução das próprias identidades dos actores individuais e colectivos.

Envolvidos num processo globalizante de gestão integrada das interde-pendências crescentes, múltiplas e complexas, os estados são pressionados pelos actores da sociedade civil no sentido de uma coordenação de acções de governação, frequentemente evidenciadas através de políticas públicas, com o objectivo da concretização das referidas soluções. No entanto, e sem pre-tenderem substituir-se às instâncias do poder político, os actores sociais da sociedade civil passam agora, a atribuir legitimidade, tanto à acção política, como aos decisores, a partir de critérios de verificação efectiva da capacidade de desempenho funcional das soberanias.

A sociedade civil torna-se, assim, numa realidade complexa, multiface-tada, com dinâmicas próprias, aleatórias e evolutivas, suscitando atitudes, comportamentos, lógicas e estratégias diversificadas, cujos efeitos, os esta-dos tentam controlar ou, pelo menos influenciar, através de enquadramentos

regulatórios, normativos, institucionais, instrumentais e de processos adapta-tivos.