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Sobre os conhecimentos de gêneros e suportes textuais

CAPÍTULO 4 CONHECIMENTOS LETRADOS DOS SUJEITOS: “A VIDA ENSINA

4.1 OS SIGNIFICADOS DA LEITURA E DA ESCRITA

4.1.4 Sobre os conhecimentos de gêneros e suportes textuais

Bakhtin (2004) destaca-se nos estudos da linguagem, discutindo a concepção interacionista de linguagem e propondo os gêneros do discurso como manifestação da língua na sociedade.

Cada esfera de utilização da língua elabora seus tipos relativamente estáveis de enunciados, sendo isso que denominamos gêneros do discurso. A riqueza e a variedade dos gêneros do discurso são infinitas, pois a variedade virtual da atividade humana é inesgotável, e cada esfera dessa atividade comporta um repertório de gêneros do discurso que vai diferenciando-se e ampliando-se à medida que a própria esfera se desenvolve e fica mais complexa (BAKHTIN, 1997).

Para ele, os gêneros são instrumentos que satisfazem as necessidades de comunicação produzidas na sociedade contemporânea. Para que tais necessidades sejam supridas, faz-se necessário refletir quanto à variedade de gêneros textuais que circulam socialmente com diferentes finalidades. Nos gêneros discursivos incluem-se desde os diálogos produzidos oralmente, no cotidiano, até os discursos produzidos em livros. Toda fala, toda intenção de comunicação (verbal ou não) é construída a partir de gêneros textuais que se diferenciam em função das especificidades e das necessidades de cada momento de interação entre os sujeitos.

Para Bakhtin (1997), existem os gêneros primários (simples) e os gêneros secundários (complexos).

Os gêneros secundários do discurso – o romance, o teatro, o discurso científico, o discurso ideológico, etc. – aparecem em circunstâncias de uma comunicação cultural, mais completa e relativamente mais evoluída principalmente escrita: artística, científica, sociopolítica. Durante o processo de sua formação, esses gêneros secundários absorvem e transmutam os gêneros primários

(simples) de todas as espécies, que se constituíram em circunstâncias de uma comunicação verbal espontânea. Os gêneros primários, ao se tornarem componentes dos gêneros secundários, transforma-se dentro destes e adquirem uma característica particular: perdem sua relação imediata com a realidade existente e com a realidade dos enunciados alheios (BAKHTIN, 1997, p. 281).

De acordo com Bakhtin (1997), a comunicação verbal na vida cotidiana dispõe de gêneros do discurso que nos são dados quase como nos é dada a língua materna, que dominamos com facilidade antes mesmo de estudarmos a gramática: adquirimos mediante enunciados concretos que ouvimos e reproduzimos durante a comunicação verbal que se efetua com quem nos rodeia.

Assim, para o autor, os gêneros primários são os tipos de diálogo oral, como a linguagem nas reuniões sociais, dos círculos, linguagem familiar, cotidiana, sociopolítica e etc. E os gêneros secundários são os literários, científicos e ideológicos. Vários são os gêneros produzidos nas relações sociais, surgindo de necessidades que o meio social cria. Nenhum gênero nasce senão a partir de outro e todo gênero carrega em si as diferentes vozes da sociedade.

De acordo com Bakhtin (2004), em um gênero discursivo existe uma heterogeneidade de vozes sociais que se revelam em um único discurso e que nenhum discurso, assim como nenhuma voz social, processa-se na individualidade, ou seja, cada novo discurso produzido provém de outro já existente, de forma que não produzimos discursos novos, mas aprimoramos os existentes com novas perspectivas ideológicas e conhecimentos.

Dessa forma, trabalhamos com alguns gêneros textuais, para analisarmos saberes dos sujeitos frente às atividades de letramento propostas na tese, nas quais eram apresentados materiais escritos para que os sujeitos dissessem o que eram e para que serviam. Deparamo-nos com sujeitos que conseguiam reconhecer os materiais apresentados, destacando o que eram e para que serviam. Os materiais foram: jornal, revista, Bíblia, carta e um boleto de energia elétrica. Todos os instrumentos eram conhecidos pelos sujeitos, conforme mostra a tabela abaixo:

Tabela 6: Sujeitos da Pesquisa: Conhecimento, funcionalidade e pertence dos instrumentos

Jornal Revista Carta Boleto de energia Bíblia

C o nhec e Funci o na lidad e Tem em casa C o nhec e Funci o na lidad e Tem em casa C o nhec e Funci o na lidad e Já escreve u o u re ce b eu C o nhec e Funci o na lidad e Tem em casa C o nhec e Funci o na lidad e Tem em casa

MARTA Sim Sim Não Sim Sim Não Sim Sim Sim Sim Sim Sim Sim Sim Sim ANA Sim Sim Não Sim Sim Não Sim Sim Sim Sim Sim Sim Sim Sim Sim MÁRCIA Sim Sim Não Sim Sim Não Sim Sim Sim Sim Sim Sim Sim Sim Não

ZULMIRA Sim Sim Não Sim Sim Não Sim Sim Sim Sim Sim Sim Sim Sim Sim LEDA Sim Sim Sim Sim Sim Sim Sim Sim Não Sim Sim Sim Sim Sim Sim

Como se pode observar na tabela, todos os sujeitos reconheceram os instrumentos apresentados e souberam explicitar sua funcionalidade, ainda que não tivessem alguns dos materiais apresentados em casa.

Todos conheciam o jornal, mas somente Leda possuía esse material em sua residência. Zulmira conta que alguns amigos levam revistas e jornais para serem lidos para ela, quando acham algo interessante. Ela tinha uma Bíblia em casa, mas não a encontrou, disse ter emprestado a um amigo que não devolveu.

A maioria dos sujeitos já escreveu ou já recebeu cartas, embora isso não tenha ocorrido na época da pesquisa, visto que, como lembraram Márcia e Leda, hoje em dia a comunicação é facilitada pelo celular.

- É... às vezes num é, às vezes é minha irmã, sempre quem escrevia pra mim de primeiro era meu irmão. Agora não, agora que ela tem celular, né? Ela liga sempre pra mim, eu tenho um também

(Márcia, doméstica, 42 anos) - Nunca mandei carta pra ninguém. Não. Nem recebi, hoje em dia é mais telefone. Porque onde tiver, o pessoal liga pro telefone.

Ao dizer para que serve a carta, Ana também lembrou do telefone, e disse que antigamente se mandava carta, hoje em dia isso é mais raro acontecer.

- É pra escrever pra família como primo [...] antigamente não tinha telefone né, era só carta, ai comprava meio mundo de papel e escrevia, botava no correio tudinho, ai esperava um tempão pra depois ver a resposta. Tem deles que recebe e não tá nem aí, né? Aí vai escreve outra, vai e manda, vai pro correio e bota aí, depois é que chega com muito tempo.

(Ana, diarista, 55 anos)

Quanto ao boleto de energia, todos reconheceram ser um boleto de pagamento de alguma conta, entretanto Marta, Márcia e Zulmira ficaram em dúvida se era conta de energia ou de água, já que visualmente são parecidas. Somente Márcia garantiu saber o valor da conta que paga, os demais sujeitos pediam para alguém ver quanto deviam para poder efetivar o pagamento.

Somente Márcia não possuía Bíblia em casa, como também afirmou não ter nenhum livro. A Bíblia que mostramos aos sujeitos, propositalmente (para que eles procurassem), não tinha o nome na capa. Solicitamos que os sujeitos a abrissem e procurassem onde estava escrito ‘Bíblia’, mas muitos tiveram dificuldade em realizar essa tarefa. Somente Márcia conseguiu localizar. Marta se justificou dizendo que não tinha achado porque aquela Bíblia era diferente da que ela tinha em casa, que prontamente trouxe e mostrou onde estava escrito Bíblia no exemplar dela. A diferença de uma para outra era basicamente o nome ‘Bíblia Sagrada’ que tinha escrito na capa do exemplar de Marta, o material da capa e a ilustração.

Determinadas inserções na sociedade correspondem a demandas específicas de leitura e escrita. No meio religioso, a leitura de material escrito é freqüente, sobretudo nas igrejas e nas famílias, sendo mediada pela oralidade. Isso justifica a leitura constante desses materiais religiosos por pessoas com baixo nível de letramento. Muitos trechos são memorizados e repetidos com freqüência, e nessa repetição os sujeitos dão sentido ao que está escrito.