“Aí eu disse que caberia sim, porque Lei Maria da Penha não é só bater. Aí eu abri o artigo lá, da Lei Maria da Penha, no artigo sétimo, que fala sobre a agressão moral, essas coisas. Aí eu fui provar para ele, porque se ele não desse medida protetiva... Porque muitas vezes os casos acontecem, porque a gente pensa que não vai acontecer e acaba acontecendo” Ana Clara.
No capítulo anterior, estive preocupada em apresentar a trajetória da pesquisa e o processo de construção de dados. Neste capítulo, privilegio os relatos das entrevistas e me dedico à análise das diversidades presentes nas trajetórias que elas relataram. Aqui, apresento minhas anfitriãs, as mulheres que aceitaram participar desta pesquisa me recebendo e compartilhando as histórias e experiências de suas vidas, durante o trabalho de campo necessário para a construção desta dissertação.
Minhas anfitriãs relataram as experiências que viveram quando decidiram ir até à delegacia acionar o atendimento previsto pela Lei Maria da Penha para mulheres em situações de violência. Porém, essas mulheres passaram por experiências muito diferentes. Esse capítulo tem como fio condutor a diversidade de atendimento que essas mulheres relatam sobre como foram tratadas pelo sistema de justiça criminal ao recorrerem à LMP.
Com o campo, percebi que o atendimento que elas disseram ter recebido ao acionarem o sistema de justiça criminal e utilizarem o serviço prestado por policiais militares e/ou pelos diversos servidores que atuam nas delegacias foi bastante diverso. A maneira como elas foram atendidas por policiais militares chamados ao local em que houve a ocorrência e/ou nas delegacias, a duração do processo e a trajetória que elas percorreram até o julgamento final é fundamental para compreendermos as frustrações, satisfações e modo como minhas anfitriãs compreendem a atuação do sistema de justiça nos processos em que elas eram requerentes. São dados que considero importantes, pois contribuíram, efetivamente, para que as expectativas e percepções das minhas interlocutoras sobre à Lei 11.340/06 fossem bastante variadas.
Compreendo que quando as mulheres decidem ir até à delegacia, elas estão “judicializando” as situações de violência vivenciadas, já que nesse momento procura-se o auxílio do Estado, mais especificamente do sistema de justiça criminal, para a resolução dos conflitos. Desta forma, utilizo a interpretação proposta por Rifiotis (2012:32) que compreende
“judicialização” como “um conjunto de práticas e valores pressupostos em instituições como a Delegacia da Mulher e que consiste em interpretar a violência sofrida por mulheres a partir de uma leitura criminalizante”.
3.1 — Ana Clara — “Aí da segunda vez eu levei a gravação, passei para um CD e deixei na delegacia”
Ana Clara foi uma das mulheres que afirmou ter pouco tempo para me encontrar. Por isso, escolheu me receber no seu emprego, durante o período matutino, em um horário pouco movimentado. Ana Clara nasceu em Minas Gerais, tem cerca de 30 anos, é pedagoga e frequenta, no período noturno, o curso de Direito em uma faculdade localizada no Plano Piloto. Ela trabalha em dois empregos, um durante toda a madrugada e outro no período da manhã até o início da tarde. Na época em que decidiu denunciar o ex-companheiro, Ana Clara morava na Candangolândia77.
Minha anfitriã conheceu o ex-marido na primeira vez em que ela foi à boate, quando tinha dezoito anos, em 2006. Ele foi o seu primeiro namorado. Ana Clara conta que os dois se envolveram com rapidez, principalmente porque não tinham família em Brasília. Pouco tempo depois que se conheceram, decidiram morar juntos. Entre idas e vindas, o relacionamento durou cerca de três anos.
Em menos de um ano morando juntos, Ana Clara engravidou. Minha anfitriã diz que os problemas do casal começaram no final da gravidez. Durante esse período, o companheiro começou a ficar distante e viajar sem a companhia de Ana Clara, seja com amigos ou para visitar a família dele, que morava em outro estado.
Ana Clara conta que a pior briga que tiveram foi quando ela estava grávida de nove meses, em uma festa que o casal ofereceu na casa em que moravam para comemorar o aniversário dela. Naquele dia, ela descobriu que ele iria viajar sem tê-la avisado. O casal começou a discutir e ela conta que começou a quebrar objetos da casa por estar muito nervosa. Durante a briga, ele atirou em Ana Clara um ferro elétrico, mas felizmente ela conseguiu se desviar. Ela conta que essa foi a única vez que o ex-companheiro tentou agredi- la fisicamente. Ela não prestou nenhuma queixa contra o ex-marido, mas pouco tempo depois o casal decidiu se separar. Após o bebê completar um mês de vida, o pai da criança saiu de casa.
77 Na ocasião da entrevista, Ana Clara havia mudado de endereço e não morava mais nessa Região Administrativa.
Algum tempo após o nascimento da criança, Ana Clara foi diagnosticada com depressão pós-parto. Ela conta: “Eu estava depressiva... A palavra ali passa, mas tem coisas que a pessoa fala com você e que assim... Ele falava muito sobre a minha família”. Esse era um aspecto importante para minha anfitriã, pois Ana Clara tinha um relacionamento complicado com a família dela e seu então companheiro costumava se referir a isso quando o casal discutia. Nesta época, Ana Clara avaliou que não possuía condições de cuidar do bebê e permitiu que a sogra, que morava em outro estado, viesse buscar a criança, que à época estava com quatro meses de vida.
Antes de a criança completar um ano de idade, Ana Clara havia se recuperado e trouxe o nenê novamente para Brasília. Minha anfitriã relata que mesmo após o casal ter se separad,o o ex-marido frequentava a casa dela para visitar a criança e eles sempre brigavam. Embora o ex-companheiro de Ana Clara tenha começado um relacionamento com outra mulher, frequentemente ele a assediava para que retomassem o relacionamento e ela nunca aceitava.
Com o tempo, as ameaças, ofensas e xingamentos proferidos pelo ex-companheiro, principalmente através do telefone celular, tornaram-se mais recorrentes. Ana Clara notou que essas ações aumentaram principalmente quando o ex-companheiro percebeu que, após a separação do casal, ela havia conseguido ter acesso a diversos bens de consumo e maior independência financeira.
Em 2013, Ana Clara ajuizou uma ação cível contra o ex-parceiro para regulamentar a pensão alimentícia e as visitas ao filho do casal, o quê, segundo ela, irritou-o profundamente. Por cerca de três meses, ele passou a ameaçá-la e a proferir diversas ofensas e xingamentos, através de ligações ou pessoalmente. Ana Clara conta que uma das ameaças mais marcantes foi quando o ex-companheiro disse que iria “colocar fogo” no carro que ela havia comprado.
Ana Clara não compartilhou com ninguém as primeiras ameaças efetuadas pelo ex- companheiro. Minha interlocutora conta que quando recebeu a quarta ligação do ex-marido estava na faculdade e ficou tão perturbada que comentou com uma amiga do curso de direito sobre as ameaças e o medo que sentia de que elas pudessem ser concretizadas. Essa amiga recomendou que Ana Clara fosse à delegacia e utilizasse a Lei Maria da Penha para denunciar o ex-companheiro, mas que antes disso ela gravasse as ameaças.
Minha anfitriã diz que essa conversa foi fundamental para que ela acionasse a LMP: “Na minha visão, Maria da Penha era só para lesão corporal, porque eu sempre via na TV essas coisas. Depois eu pesquisei, comecei a ler a lei, os artigos e aí eu achei o Art. 7º falando sobre violência física, verbal e tal. Aí que eu procurei ajuda, porque antes eu achava que era só a questão da lesão”.
Nesse caso, a rede afetiva de Ana Clara foi fundamental para que ela acessasse a LMP. Foi a amiga de Ana Clara, que conhecia mais detalhes sobre a legislação, que a encorajou a denunciar as ameaças, dizendo que a LMP também poderia ser acionada nessas situações. Logo, o fato de, na época da denúncia, Ana Clara cursar a graduação em direito foi fundamental para que ela registrasse ocorrência contra o ex-companheiro. Esse acontecimento da margem a diversas especulações: Será que se Ana Clara não frequentasse aquele espaço, ela continuaria pensando que a LMP só poderia ser acionada em casos em que há violência física?
Esse é um aspecto importante. Algumas das minhas interlocutoras relataram que somente na delegacia ou no Fórum descobriram que a LMP poderia ser acionada em situações de violência que não fossem agressões físicas. Outras só acionaram a LMP quando passaram por situações de agressão física porque não conheciam as formas de violência doméstica e familiar contra a mulher previstas na legislação. Já Ana Clara só conheceu detalhes sobre a legislação porque, após a conversa com a amiga, “foi procurar e estudar a lei”.
Minhas interlocutoras conheciam, ao menos parcialmente, a Lei Maria da Penha, devido a toda publicidade que surgiu desde 2006 com a promulgação dessa legislação. Entretanto, apesar de a lei ter sido amplamente divulgada, elas sabiam apenas que se tratava de legislação cujo objetivo é coibir a violência doméstica, mas não estava claro para muitas delas que existiam outros tipos de violência previstos na lei. Algumas conseguiram acessar esse conhecimento quando procuraram a delegacia. Porém, outras só descobriram esse aspecto da legislação no encontro com a equipe de atendimento multidisciplinar, já no Fórum. Ana Clara traz uma terceira situação: ela conheceu detalhes sobre a LMP porque foi pesquisar e estudar sobre o assunto78.
Assim que Ana Clara compreendeu que a Lei Maria da Penha também poderia ser acionada em situações de ameaça e de agressão verbal, decidiu ir até à delegacia circunscricional que atendia a região que morava para denunciar o ex-companheiro. É importante destacar que Ana Clara foi à mesma delegacia que Carolina, outra interlocutora. Como veremos, elas receberam atendimentos muito diferentes.
Voltando ao relato de Ana Clara, ela conta que “achou estranho” não ter recebido nenhuma comunicação do Fórum, após ter registrado o boletim de ocorrência (BO), acerca
78 Esse aspecto pode nos ajudar a refletir sobre as maneiras pela qual a LMP foi divulgada. Muitos dos materiais de divulgação da LMP que acessei, ao me informar sobre a lei, privilegiavam imagens em que mulheres haviam sido agredidas fisicamente. Porém, essa é apenas uma percepção pessoal sobre a divulgação da legislação, tendo em vista que não conheço pesquisas ou dados relevantes que contribuam para esse debate. Talvez, essa seja uma lacuna a ser preenchida por pesquisadores que se interessem sobre a temática.
das medidas protetivas de urgência79 que ela havia solicitado. Ana Clara me explica que, com a sua pesquisa sobre a LMP, descobriu que a legislação previa que as medidas protetivas de urgência fossem concedidas em poucos dias. Além de não ter recebido nenhuma notificação sobre as medidas protetivas, ela também não sabia se o inquérito havia sido encaminhado para o Fórum.
Neste intervalo de tempo, minha anfitriã conta que continuou sendo ameaçada pelo ex- marido pelo telefone. Ela relata que alguns dias após ter feito a denúncia, decidiu fazer uma nova visita à delegacia, pois começou a desconfiar que o inquérito pudesse ter ficado “parado”. Desta vez ela gravou o áudio de uma ligação efetuada pelo seu ex-companheiro. O áudio em questão continha insultos e ameaças proferidas contra minha interlocutora: “Ele disse que ia tacar fogo no meu carro porque eu estava me achando demais, e nem que ele fizesse alguma besteira, que ele não estava nem aí, nem que para isso ele tivesse que tirar minha própria vida”. Cito Ana Clara:
O meu processo ficou parado. Tipo assim, eu acho que não chegou nem a descer para o juiz. Porque, no dia que eu fui falar com o agente... Bom, porque não é o delegado que te atende, é o agente, é o escrivão que te escuta. Aí depois eu voltei, fui e falei para o delegado: - Olha, minha medida protetiva não saiu e isso, isso e isso e ele está me ameaçando... E expliquei o caso de novo. Aí eu falei: - Está aqui a gravação. Aí o delegado parou e escutou a gravação. (...) Eu acredito que eles não me deram assistência (na primeira vez que ela foi à delegacia) porque eu só cheguei e falei. Aí, da segunda vez eu levei a gravação, passei para um CD e deixei na delegacia. Aí o delegado escutou e viu que realmente era grave, porque nesse momento ele já havia me ameaçado de morte.
Muito provavelmente, a suposição de Ana Clara estava correta e a ocorrência que ela registrou não tinha sido levada adiante por ser considerada, por quem a atendeu, como um “caso sem relevância” (SOUZA, 2007:09). Erika Giuliane Andrade Souza (2007), que fez trabalho de campo em delegacias localizadas no Rio de Janeiro, explica que estes são os chamados “casos de feijoada”.
Segundo Souza, além do arcabouço jurídico, o trabalho policial também é baseado em “valorações culturais e costumes compartilhados entre os policiais em que são estabelecidas trocas simbólicas (de bens materiais, serviços), entre os atores, que influenciam o tratamento dos casos” (p.01). A partir de etnografia feita em delegacias de polícia, Souza analisou
79 Procurei ao longo de toda a pesquisa e escrita ser honesta com minhas interlocutoras e com tudo que elas me contaram. Porém, devido ao espaço, formato e ao que se espera de uma dissertação de mestrado, é totalmente inviável apresentar com detalhes todas as histórias que me foram contadas. Por isso, destaco que embora várias interlocutoras tenham falado sobre as Medidas Protetivas de Urgência uma das minhas escolhas nesta dissertação foi escolher casos emblemáticos, que ajudassem a refletir sobre todo o atendimento oferecido.
avaliações de policiais sobre o que seria ou não considerado um conflito válido para ser atendido com registro de ocorrência e levado adiante através de investigação policial.
Um ponto importante é que a classificação dos casos leva em consideração vários aspectos, tais como status social do envolvido, se é homem ou mulher, se a pessoa está acompanhada de advogados, se está chorando, nervosa etc. O bairro em que a delegacia está localizada também é um fator importante para classificação dos casos. De acordo com Souza, em delegacias localizadas em regiões periféricas, os policiais eram tratados como “autoridades”. Por outro lado, em regiões valorizadas do Rio de Janeiro, era comum que a população atendida tratasse os policiais como “empregados particulares”.
De acordo com Souza, os policiais civis utilizam o termo “casos de feijoada” para classificar, por exemplo, “brigas entre marido e mulher, brigas entre vizinhos, brigas que ocorrem em bares e com profissionais do sexo” (2007:09) etc. No entanto, Souza (2007:08- 09) explica que a “feijoada” possui diversas definições: casos sem relevância; casos que poderiam ser resolvidos entre as partes; casos de pequeno potencial ofensivo que poderiam ser resolvidos através de conversas; confusões que passam por xingamentos até lesões corporais leves etc. Em suma, são casos que os policiais não atribuem muita importância.
Esse é um aspecto que chama muita atenção no relato de Ana Clara. Ela utilizou a LMP como recurso para que ela conseguisse romper com uma situação de violência que a colocava em riscos. Pasinato (2007:11) relata que pesquisas demonstraram que para algumas mulheres o empoderamento “pode estar representado na possibilidade de romper a relação violenta e construir uma nova vida longe do parceiro agressor”. Este era o desejo de Ana Clara, utilizar a LMP como um instrumento que a permitisse viver uma vida sem as ameaças e agressões do ex-companheiro.
A questão aqui é que o sistema de justiça que deveria auxiliá-la através dos mecanismos previstos na legislação para coibir e prevenir situações de violência doméstica, funcionou como mais uma barreira para minha anfitriã enfrentar. O registro de Ana Clara só foi adiante porque ela resolveu insistir. Sobre esse aspecto, ela relata que além da gravação, levou para a delegacia uma versão impressa da Lei 11.340/2006, para ser utilizada caso a contestassem sobre a legalidade da legislação para situações em que não houvesse agressão física. Assim que foi atendida, Ana Clara pediu para que os servidores ouvissem o conteúdo do áudio e diz que ainda assim foi questionada:
Mas o delegado não me deu suporte. Tanto que no dia que eu fui prestar queixa, eu levei a gravação com ele me xingando, me ameaçando, tudinho, e aí ele disse que não caberia a Lei Maria da Penha. Aí eu disse que caberia sim, porque Lei Maria da
Penha não é só bater... Aí eu abri o Art. 7º que fala sobre a agressão moral, essas coisas. Aí eu fui provar para ele, porque se ele não desse a medida protetiva... Porque muitas vezes os casos acontecem, porque a gente pensa que não vai acontecer e acaba acontecendo.
Minha anfitriã relata que 24h após a sua segunda ida à delegacia, foi concedida medida protetiva de urgência contra o seu ex-companheiro. Na trajetória que Ana Clara percorreu quando judicializou a situação de violência que passava, o conhecimento que ela adquiriu sobre a legislação ao longo de todo esse processo foi fundamental para o prosseguimento da sua denúncia. Aqui, a legislação e os serviços oferecidos pelo sistema de justiça não foram suficientes para atender as demandas da minha anfitriã. Sobre esse aspecto, cito Pasinato (2015:535): “Dia após dia se fortalece o entendimento de que o sucesso da Lei está ameaçado pelas muitas falhas que se identificam em sua aplicação”. A seguir, apresento Alice, que viveu situação parecida com a de Ana Clara, embora tenha ido à uma delegacia diferente.
3.2 — Alice — “Praticamente viraram para a minha cara e me mandaram ir para casa. Se tivesse que acontecer alguma coisa, tinha acontecido”.
Alice tem pouco mais de 30 anos e se relaciona há 13 anos com o companheiro que conheceu quando cursava o Ensino Médio. Quando nos conhecemos pessoalmente, em outubro de 2014, ela havia acabado de sair do emprego de vendedora em um shopping para se dedicar aos estudos e à família. Com o tempo livre que passou a ter, Alice cursava aulas para tirar a habilitação e poder utilizar o carro que ela e o marido compraram, o que, em suas palavras, iria "facilitar mais a vida".
À época da entrevista, além de frequentar as aulas de direção e realizar atividades domésticas, durante o dia Alice também cuidava dos seus cinco filhos, a mais velha com 11 anos e a mais nova com 7 anos de idade. Durante a noite, Alice frequentava, com o auxílio de um programa do Governo Federal, os últimos semestres do curso de Administração em uma Instituição de Ensino Superior localizada em outra Região Administrativa, diferente do local em que ela residia. Alice disse que, no futuro, o marido também pensava em cursar o Ensino Superior, mas que naquele momento ele ficava em casa à noite para cuidar das crianças.
Minha anfitriã conta que, em 2010, o marido começou a mudar de comportamento, tornando-se mais agressivo com ela. A briga que gerou o processo através do qual eu a conheci ocorreu após o marido de Alice discutir com o garçom do bar em que estavam sobre a temperatura da cerveja. Após esse momento, Alice voltou para casa. Quando o marido chegou
em casa, a discussão recomeçou, porém mais intensamente, com o casal proferindo ofensas e xingamentos. Ela conta que neste segundo momento, ambos permaneceram alterados e que ela recorda que os dois estavam alcoolizados.
Alice relata que conforme ela e o companheiro ficaram mais exaltados, ambos começaram a falar cada vez mais alto. Nesse momento, minha interlocutora e o marido foram apartados pela cunhada e pelo sogro, já que Alice e o companheiro residiam no mesmo lote que a família do marido. Mesmo assim, o casal continuou se agredindo verbalmente. Alguns minutos após o pai de seu companheiro tê-lo segurado, o marido conseguiu se desprender e, imediatamente, agrediu Alice com chutes, tapas, puxões de cabelo e socos, além de ameaçá-la de morte. Após esse acontecimento, Alice foi à delegacia.
Outro aspecto importante presente na fala de Alice relaciona o período em que ela considerava denunciar o companheiro pelas agressões que esse cometia, mas não o fazia devido a situação econômica na qual se encontrava. Minha anfitriã relatou que, inicialmente, tinha receio de denunciar o marido porque a renda dele era fundamental para o sustento econômico da família. Alice disse que “era meio que forçada” a não denunciar o marido. Eu a questionei sobre os motivos que a “forçavam” a continuar na relação e ela argumentou dizendo que “era totalmente dependente dele”. Nas palavras de Alice: “Como é que sustenta uma família com cinco crianças? Querendo ou não, eu trabalhava, mas eu ganhava muito