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CAPÍTULO I – Pensando a proteção animal

1.2 Os percursos da norma

1.2.1 Sobre os limites da norma

Acompanhar o dia-a-dia do estado em ação permitiu visualizar os meandros, nem sempre retos, certeiros e objetivos do processo de transpor a norma escrita para a realidade prática. Esta etapa fundamental das políticas públicas, de fazer adquirir movimento à letra da norma, é marcada por questões que não necessariamente são previstas no momento da elaboração das políticas públicas, ou seja, o contexto em que determinada lei é colocada em prática incide no que esta lei poderá vir a ser, não somente em termos de sua eficácia, mas também na própria forma como ela é atualizada

em um contexto específico. O fato de existir um arcabouço legislativo referente a alguma temática não quer dizer necessariamente que a respectiva aplicação será realizada numa direção linear, “de cima para baixo”, conforme destaca Shore (2010:36):

(...) las políticas tienen efectos que sobrepasan los diseños e intenciones de sus autores (si en verdad un “autor de políticas” puede ser identificado) Una vez creadas, las políticas entran en una compleja red de relaciones con varios agentes, actores e instituciones, tinglado que puede a menudo generar consecuencias imprevistas e inesperadas.

Como já anteriormente mencionado, boa parte do que se passa no Departamento de Fauna não possui relação direta com a legislação federal, mas com diretrizes políticas da gestão municipal. Uma das particularidades de seu atual funcionamento está relacionada à maneira como a gestão de governo vigente na prefeitura concebe políticas para animais. A ênfase que o Departamento de Fauna dirige às ações voltadas para a proteção dos animais domésticos através dos programas da Rede de Proteção Animal não é oriunda somente de um programa partidário, mas também de inclinações pessoais tanto do prefeito e da respectiva primeira dama, quanto do diretor à frente do departamento. A posição do prefeito Gustavo Fruet simpática a “causa animal” é responsável, segundo o diretor do Departamento, pelo incremento nas atividades da Rede Animal. Talvez mais importante que o fato de o prefeito ter firmado uma agenda política em sintonia com a causa, tem sido a constante presença da primeira dama nos eventos que promovem ações para animais abandonados.

Conhecida por muitos como uma “cachorreira” – isto é, uma pessoa que gosta muito de cães e que se comove com a situação dos cães abandonados, mobilizando meios para tirá-los desta situação –, Márcia Fruet, além de participar de feiras de adoções, fomenta e divulga nas mídias sociais as iniciativas da Rede Animal. Esta posição da primeira dama produz efeitos, o fato de publicamente gostar de cachorros e se engajar na causa produz um fortalecimento na associação da prefeitura com o trabalho da Rede Animal e também de ONGs44 voltadas para cães e gatos e de protetoras independentes (sem vínculo direto com ONGs).

44 Estas ONGs são aquelas preocupadas com cães e gatos de ruas. Elas promovem diversos tipos de ações para angariar fundos para a manutenção dos animais que resgatam, como bingos beneficentes, rifas, divulgação na internet, etc. São formadas por pessoas preocupadas com a situação destes animais e que acabam por exercer alguma pressão política no município. Geralmente as pessoas envolvidas nestas atividades são chamadas de protetoras. É possível também que uma pessoa seja considerada protetora, sem, no entanto, ter vínculo com alguma instituição ou ONG. Neste caso, são chamadas protetoras independentes.

Figura 4: Gustavo Fruet e sua esposa Márcia Fruet em

campanha eleitoral. FONTE:

http://www.zoonoses.agrarias.ufpr.br/?p=1119. Acesso em 14/04/14.

Tradicionalmente associadas à assistência social, o papel das primeiras damas, no caso de Curitiba, desde a gestão de Jaime Lerner iniciada em 1988, vem sendo ligado ao funcionamento da Fundação de Ação Social (FAS) 45. Não foi diferente no caso de Márcia Fruet. Com formação em jornalismo, foi indicada para ocupar a presidência da FAS. Encabeçando a secretaria de Ação Social, sua posição parece falar de um lugar muito específico atribuído ao tradicional papel reservado às esposas de prefeito. Ao serem vinculadas a FAS é tentador pensar que nesta ação poderia estar embutida uma ideia, ultrapassada, de que as mulheres carregam consigo uma potencialidade da maternidade, característica que por si só atribuiria à mulher um temperamento mais voltado ao cuidado, a um zelo mais especial às questões relativas à proteção social da família. Associando dois lugares, um “oficial” (a presidência na FAS) e outro “afetivo”

(cachorreira), a atual primeira dama parece concentrar duas funções associadas ao âmbito familiar, e por isso ao âmbito do doméstico, o zelo das famílias humanas da cidade e também o zelo das famílias que envolvem humanos e cachorros.

45Cabe à FAS “coordenar e implementar a política de assistência social no município, para a proteção social de famílias e indivíduos em situação de risco e vulnerabilidade social”. Fonte:

http://www.fas.curitiba.pr.gov.br/conteudo.aspx?idf=54. Acesso em 18/04/14.

Há o reconhecimento por parte do diretor do Departamento de Fauna, Alexander Biondo, deste caráter mais ou menos pessoal e doméstico da relevância conferida nesta administração a questões relativas aos animais, transcrevo um trecho de uma entrevista que realizei com ele:

“O que eu acho que tem de mais importante na política não é o investimento.

Eu acho que o investimento materializa, é necessário, mas é a postura, na política pública é a postura do gestor que é o mais importante, porque é ele quem vai definir para onde nós vamos. Então, tem prefeito que fala assim

‘ah, cachorro, lá vem com esse papo...’ e que não se preocupa com a situação desses animais na cidade em relação aos maus tratos, por exemplo. A posição da atual gestão é muito importante nesse ponto, é uma preocupação levada a sério. A primeira dama, por exemplo, que é a presidente da FAS, é uma pessoa que acaba se envolvendo com a causa animal por questões pessoais, ela gosta de animais e isso imprime uma diferença no jeito que as coisas vão sendo conduzidas.” (Trecho de entrevista com o diretor do Departamento de Fauna em 18/06/13).

Se a ênfase das políticas atuais toca na questão da proteção animal, prioritariamente daqueles “mais próximos”, temos aqui uma parcela que compõe o termo “fauna”, que inicialmente parecia amorfo e que adjetiva o Departamento “de Fauna”.