SUGESTÃO DE LEITURA
3. Há limites para o conhecimento divino?
5.1. Sobre os limites do conhecimento sensível
Tomás inicia o artigo 5 da questão 84 por meio dos seguintes argumentos:
Quanto à sexta, argumenta-se como se segue. Parece que o conhecimento intelectivo não é recebido das coisas sensíveis.
1. Diz Agostinho no livro das Oitenta e três questões que “não se deve esperar a integridade da verdade dos sentidos do corpo”. Prova isto de dois modos. De um modo, pelo fato de que “tudo que o sentido corpóreo atinge, muda ininterruptamente; ora, o que não permanece, não pode ser percebido”. De outro modo, pelo fato de que “de tudo o que sentimos pelo corpo, mesmo quando não estão presentes aos sentidos, recebemos suas imagens, como no sono e na loucura; ora, não somos capazes de distinguir pelos sentidos se sentimos os próprios sensíveis ou suas imagens falsas; mas, nada pode ser percebido se não for distinguido do falso”. Assim, conclui que a verdade não deve ser esperada dos sentidos. Ora, o conhecimento intelectual não deve ser esperado dos sentidos.
2. Ademais, Agostinho diz no livro XII do Comentário literal sobre o
Gênesis: “Não se deve pensar que o corpo produz algo no espírito,
como se o espírito estivesse submetido a modo de matéria ao corpo produtor; com efeito, de toda maneira, aquele que produz tem mais
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valor que a coisa da qual faz algo”. Donde, conclui que “o corpo não produz a imagem do corpo no espírito, mas o próprio espírito a produz em si mesmo”. Portanto, o conhecimento intelectual não é derivado dos sensíveis.
3. Ademais, o efeito não se estende além da virtude de sua causa. Ora, o conhecimento intelectual se estende além dos sensíveis, pois inteligimos algo que não pode ser percebido pelo sentido. Portanto, o conhecimento intelectual não é derivado dos sensíveis.
EM SENTIDO CONTRÁRIO está que o Filósofo prova no livro I da
Metafísica e no final dos Analíticos Posteriores que o princípio de
nosso conhecimento é a partir do sentido.
O primeiro argumento parte de um problema proposto por Agostinho na medida em que ele aponta o que parece ser uma dificuldade para a defesa do conhecimento sensível: “não se deve esperar a integridade da verdade dos sentidos do corpo”. Em questão, está o fato de que os sentidos não parecem ser uma fonte segura de conhecimento, afinal, os sentidos lidam com aquilo que é mutável. Levanta-se, aqui, o fato de que, sendo a principal característica das coisas materiais a mutabilidade, parece que temos um problema para a descrição da apreensão própria do conhecimento sensível: ela sempre apreende “um instante” dessa mutabilidade, ou seja, o que é apreendido sobre uma coisa material num dado momento pode já não mais pertencer a ela no momento posterior à apreensão. Do mesmo modo, uma característica que deixa de ser presente à coisa no momento anterior ou posterior à apreensão pode deixar de ser apreendida e, assim, talvez, algo essencial para a compreensão daquilo que foi apreendido pode deixar de ser percebido. Além disso, Tomás apresenta outro argumento de Agostinho segundo o qual os sentidos “enganam”: uma vez algo apreendido, temos na nossa capacidade sensível a imagem dele, isto é, seu conhecimento. Ora, essa imagem, porque apreendida, passa a ser algo distinto daquela coisa da qual é imagem. O problema que surge daí é o fato de que essa imagem é conservada pelos sentidos mesmo a coisa não estando mais presente. É assim, defende Agostinho, que somos capazes, por exemplo, de sonhar com aquilo que, de fato, não está presente senão em nossos sonhos. Mas, continua o argumento, por vezes não parecemos capazes de distinguir o sonho da
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realidade, seja no próprio momento em que sonhamos, seja, num caso mais grave, na loucura, numa alusão muito próxima ao que parece ser uma alucinação. Ora, se nem sempre há um bom critério por meio do qual podemos separar aquilo que é “real” daquilo que é uma falsa percepção sensível, parece sensato concluirmos que “o conhecimento intelectual não deve ser esperado dos sentidos”, na medida em que não nos parece ter sido dado qualquer outro critério, além dos próprios sentidos, para que nos seja possível emitir qualquer juízo acerca das percepções sensíveis.
Tendo mais uma vez Agostinho como referencial, o segundo argumento inicial traz um segundo problema para a defesa do conhecimento a partir dos sentidos: o inferior não deve mover o superior. Como já explicamos, o princípio de movimento no composto é a forma, na medida em que é ela que dá as definições daquilo que será unido à matéria formando, por exemplo, um indivíduo. Ora, a forma tem esse papel “definidor” porque, obviamente, está mais em ato do que a matéria, que, isolada, é pura potência. Sendo assim, a forma, tal qual a forma exemplar, é princípio de movimento para a matéria, mais uma vez, na medida em que a atualiza. Assim, parece estranho admitir que aquilo que, comparado a outro, tem em si mais potência que ato, isto é, o inferior, mova aquele outro que comparado a ele tem mais ato que potência, ou seja, o superior. Esse é certamente o caso da diferença entre o corpo e o espírito, ou seja, entre o corpo e a parte intelectual do homem: “Não se deve pensar que o corpo produz algo no espírito, como se o espírito estivesse submetido a modo de matéria ao corpo produtor; com efeito, de toda maneira, aquele que produz tem mais valor que a coisa da qual faz algo”. Sendo o corpo mais potencial que o espírito, se há no espírito alguma imagem/espécie daquilo que é corporal, tem-se, como consequência, que não pode ser o corpo o princípio de movimento que produz no espírito aquela espécie. O próprio espírito deve produzir em si mesmo a espécie da coisa material, portanto, “o conhecimento intelectual não é derivado dos sensíveis”.
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Note-se, ainda, que esses dois argumentos visam, então, alvos diversos. No primeiro, o problema é saber se é possível para o intelecto alcançar qualquer certeza a partir do conhecimento obtido dos sentidos. No segundo, o problema passa a ser algo ainda mais fundamental: parece impossível que os sentidos afetem de algum modo o intelecto, ou seja, parece que não é partindo dos sentidos que podemos ter o conhecimento de qualquer coisa e, em especial, da coisa sensível.
O terceiro e último argumento inicial tira ainda uma segunda consequência da proposta, vista no segundo argumento inicial, que põe em xeque a relação entre o superior e o inferior. Uma nova razão para defender o impedimento do conhecimento intelectual a partir do sensível é o fato de que, por estar mais em ato que os sentidos, o conhecimento intelectual se estende além deles. Afinal, nem tudo o que inteligimos tem, de fato, alguma relação com a matéria: é o caso de Deus, as substâncias separadas, os princípios da metafísica como a própria relação ato/potência, etc. Os sentidos, porém, não são capazes de perceber nada além dos sensíveis. Portanto, o mesmo princípio aplicado no argumento anterior, de que o inferior não afeta/move o superior, vale agora: o conhecimento intelectual não pode ser de algum modo subordinado ao conhecimento sensível porque “o conhecimento intelectual não é derivado dos sensíveis”.
Dada a extensão dos argumentos iniciais, surpreende a brevidade do
Sed Contra, no qual Tomás não faz mais que citar a opinião de Aristóteles
como uma autoridade: segundo o Estagirita, “o princípio do conhecimento é a partir do sentido”. No entanto, dada a discrepância e a aparente força das conclusões obtidas a partir dos argumentos iniciais, talvez, Tomás, de fato, não tivesse outra escapatória senão a de tratar longamente dessa posição no Corpo da Resposta, o qual analisaremos a seguir.
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