7 CONSTRUINDO O CAMINHO DE ANÁLISE: o olhar sobre a
7.2 SOBRE OS MOVIMENTOS DOS JOVENS NOS AMBIENTES DE
7.2 SOBRE OS MOVIMENTOS DOS JOVENS NOS AMBIENTES DE EDUCAÇÃO E
SAÚDE: a ética como modo de en-agir
Como pudemos observar nas experiências de crianças e jovens do Programa Ofiicnando em Rede, temos circunstâncias que interagem com as atribuições da Educação e da Saúde Mental. O modo como sujeitos com transtorno mental são acolhidos nos ambientes implica uma ética como modo de fazer-sentir-pensar-conhecer. Há uma questão ética filosófica que está em relevo na experiência que acompanhei, com o apoio de bolsistas do Programa Oficinando em Rede. – Como conhecemos? – Como vivemos? O que nos leva a agir de um modo ou outro quando estamos em uma circunstância de trabalho em Educação, o necessário atendimento que os sujeitos precisam receber?
Ao fazermos a reflexão desde a filosofia, vale ressaltar que esta significa o amor à sabedoria, um campo que discute e estuda as inquietações relacionadas às ideias existentes, ao conhecimento, aos valores éticos, à moral, à estética e à linguagem. Desde a Grécia antiga construímos a socialização dos indivíduos, reunidos em torno das organizações humanas representativas dos interesses coletivos.
No ano de 450 a. C., o centro cultural do mundo grego era Atenas e, paulatinamente, os atenienses foram dando importância ao papel político do homem na sociedade. A partir deste momento, fomos plantando o embrião da democracia na forma de assembleias e tribunais populares na Ágora, praça pública onde se realizavam os debates públicos em prol dos citadinos. A participação na vida política e social da cidade era exercida por cidadãos que recebiam educação pública e gratuita considerada satisfatória para participar do processo democrático.
Hoje, passados séculos de discussões políticas, sociais e democráticas, temos a democracia moderna que carece de aperfeiçoamento, principalmente nas searas da ética e da moral. ―O homem é a medida de todas as coisas‖, afirmava o filósofo Protágoras (487 – 420 a.C.). Em sua interpretação, o amante da sabedoria quis dizer que o certo e o errado, o bem e o mal teriam que ser interpretados segundo as necessidades humanas. As inferências feitas por Protágoras trouxe uma nuvem escura de discussões sobre a verdade das coisas, pois quando
67 perguntado a respeito da existência dos Deuses, ele preferiu dizer que isso oculta o saber, ou seja, do que não é possível dizer algo de concreto ou afirmar de forma categórica, sendo melhor evitar estas classificações, o que definiu como sendo o agnóstico.
Assim, a sociedade ateniense foi abalada pelas discussões e discórdias, quando
um grupo de homens, chamados sofistas, trouxe conhecimentos de terras longínquas e a
oportunidade de conhecer diversas formas de governos, por isso os mesmos decidiram assentar discussões a respeito do papel do homem na terra e sobre o lugar que os mesmos
ocupavam na Polis, ou seja, na sociedade e em suas relações de per si.
Pondo a mão na charrua e levando a termo as discussões nas praças públicas, surge a figura de um dos maiores filósofos e pensadores, o que para alguns, há dúvidas se o mesmo realmente existiu. Fato é que, independentemente da sua real existência, temos a figura de Sócrates (470 – 399 a.C.) e o desenvolvimento de um modo próprio de investigar o que supostamente as pessoas sabiam sobre a vida e o mundo em sua volta. Sócrates mergulhou em seus próprios pensamentos e passou a inquirir os cidadãos de Atenas a respeito do seu passado e sobre como percebiam o futuro. Dessa forma, inquirindo as pessoas e, sem a intenção de ensinar, talvez ele quisesse aprender um pouco com o seu interlocutor.
Quando Sócrates discutia e ensinava, segundo os Diálogos de Platão, ajuda a entender que ele próprio também aprendia. O filósofo Sócrates deixava seu interlocutor em uma situação de inteira perplexidade quando apresentava considerações contraditórias em suas falas. Isso era motivo de irritação, cólera, aborrecimento e mau humor por parte de quem dialogava com o filósofo. Sua intenção parecia não ser a de irritar ou causar aborrecimento, mas mostrar as pessoas que elas pouco sabiam do que realmente falavam, ou consideravam como verdades absolutas.
Assim, ele demostrou que as questões sociais e políticas eram sempre complexas e de difícil obtenção de respostas exatas. Para ele, tanto um escravo quanto um nobre, ambos poderiam trazer respostas e argumentos para questões filosóficas.
Outro grande filósofo importante foi Platão (427 – 347 a. C.), discípulo de Sócrates. Escreveu diversos discursos chamados ―Diálogos‖, nos quais fazia a defesa do seu mestre. Revoltado com a morte do grande filósofo, Platão fundou um grupo de estudos filosóficos nas cercanias de Atenas, chamado de Academia, porém distante da Polis, como forma de mostrar sua indignação com a política ateniense em executar um dos seus mais nobres cidadãos.
A Academia de Platão parece ter sido uma das primeiras organizações que chamamos de Academia, onde se discutia e estudava, era o lugar de reflexão sobre o conhecimento, a
68 reflexão e discutir o conhecimento, na Grécia Antiga parece ter surgido a escola e, por consequência, a educação socrática e platônica.
A educação é uma construção que perpassa os conhecimentos filosóficos, porém, tem sido ao longo da história da humanidade de suma importância para o aperfeiçoamento das discussões nas academias e para impulsionar o desenvolvimento científico.
No período da Grécia clássica, filosofia, educação, antropologia e política coincidem.
A filosofia grega não precisou criar uma nova disciplina chamada Pedagogia, pois a convergência entre os dois pensamentos era algo natural. A filosofia é pedagógica e a pedagogia é filosófica, assim como a filosofia-pedagogia é política e a política é filosófico-pedagógica. A educação de um indivíduo perpassa as finalidades da retórica ou da matemática, pois o objetivo maior concentra-se no desenvolvimento das potencialidades do homem em si e como indivíduo da Polis (BOTTER, 2012).
Em síntese (PAVIANI, 2008, p. 5-25 apud BOTTER, 2012, p. 20), afirma:
Somente na época atual a filosofia e a pedagogia se definem como processos distintos. Na sua origem, a filosofia é propriamente um projeto educativo; num segundo momento, a filosofia fornece os fundamentos do projeto pedagógico e a pedagogia vira uma consequência do progresso filosófico; num terceiro momento, a filosofia assume a tarefa crítica relativa às teorias educacionais.
Com o Contrato Social, temos a formação de uma ordem civil que oferece aos homens a condição de viverem em sociedade, conservando, do ponto de vista do direito político, as mesmas relações que dispunham no estado de natureza. No entanto, paradoxalmente, para realizar o pacto social, os homens devem ser desnaturados. Para formar uma sociedade de homens livres, sob o governo da vontade geral, não servem nem os selvagens e, muito menos, os homens policiados, acostumados ao gosto da servidão. É fundamental romper radicalmente com o estado de natureza – transformar as condições de vida - para que o pacto social possa garantir – preservar – os direitos naturais. Assim, é a própria condição do cidadão – autônomo, sem ser selvagem - juntamente com os princípios do direito político, que determinam como deve ser a educação no interior de um estado legítimo: desnaturar o homem para preservar os seus direitos (FALABRETTI, 2012). O diálogo com a filosofia segue no transcurso da experiência humana e, atualmente, pesquisadores de diferentes campos do conhecimento realizam estudos que os situam na condição de filósofos, pois, mesmo oriundos de áreas como biofísica, computação, educação, ou outras áreas, as questões que se colocam no fazer da pesquisa interagem com esta reflexão permanente sobre como vivemos como seres humanos, como interagimos no social e como vamos produzindo as realidades que queremos conservar no viver.
69 A pesquisa traz uma discussão na perspectiva da filosofia porque o que nos interessa na investigação é analisar a ética como uma estética da existência humana junto a crianças e jovens que apresentam transtornos de desenvolvimento. Nosso propósito é trazer a ética como
modo de en-agir a partir da autonarrativa, isto é, consideramos que linguajeando na forma de
autonarrativas escritas e/ou orais os familiares, os jovens, os bolsistas e a coordenadora do Programa tornam visíveis seus modos de perceber como os jovens experimentam processos de acolhimento e o próprio trabalho estando eles neste movimento entre as instituições de Educação e de Saúde Mental.