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2 EDUCAÇÃO MATEMÁTICA, INCLUSÃO DE SURDOS E FORMAÇÃO

3.3 SOBRE OS PROCEDIMENTOS DE COLETA E CONSTRUÇÃO DOS

Conforme Triviños (1987), os instrumentos de coleta de dados são essenciais na pesquisa qualitativa devido aos enfoques aprofundados concedidos ao pesquisador. Em relação aos procedimentos metodológicos de coleta de dados, Richardson (2012, p.82) aponta que as “[...] pesquisas qualitativas de campo exploram particularmente as técnicas de observação e entrevistas devido à propriedade com que esses instrumentos penetram na complexidade de um problema”.

No tocante à escolha metodológica aqui adotada, cabe ressaltar que

[...] Embora os estudos de casos e as pesquisas históricas possam se sobrepor, o poder diferenciador do estudo é a sua capacidade de lidar com uma ampla variedade de evidências - documentos, artefatos, entrevistas e observações- além do que pode estar disponível no estudo histórico convencional (YIN, 1994, p. 18).

Diante disto, e ao compreendermos que apenas uma única técnica seria insuficiente para o processo de coleta e construção de dados, buscamos responder as nossas questões de investigação utilizando a triangulação dos seguintes instrumentos de coleta: entrevista semiestruturada, observação livre e análise de documentos, como planos de aula e outros materiais produzidosutilizados pelo professor, uma vez que a técnica de triangulação de dados, como afirma (TRIVIÑOS, 1987, p. 138), objetiva

[...] abranger a máxima amplitude na descrição, explicação e compreensão do foco em estudo. Parte de princípios que sustentam que é impossível conceber a existência isolada de um fenômeno social, sem raízes históricas, sem significados culturais e sem vinculações estreitas e essenciais com uma macrorrealidade social.

A escolha pelo uso de entrevistas se deu pelo fato de ser uma das técnicas de coleta de dados mais utilizadas em pesquisas no campo das ciências sociais e por se constituir como forma de interação social (GIL, A., 2008), cujo objetivo é de “[...] construir informações pertinentes para um objeto de pesquisa, e abordagem pelo entrevistador, de temas igualmente pertinentes com vistas a este objetivo” (MINAYO, 2010, p. 64).

Assim, procuramos abordar, nas entrevistas feitas com o professor e a intérprete de Libras, questões sobre seu processo de formação e de suas ações na prática escolar com estudantes surdos. Para tanto, optamos pela entrevista semiestruturada, que, conforme Triviños (1987, p. 146), “[...] parte de certos questionamentos básicos, apoiados em teorias e hipóteses, que interessam à pesquisa, e que, em seguida, oferecem amplo campo de interrogativas, fruto de novas hipóteses que vão surgindo à medida que se recebem as respostas do informante”.

Neste processo buscamos estabelecer uma relação de confiança com os sujeitos entrevistados, explicando inicialmente o propósito da investigação, o objeto de estudo e a relevância da contribuição deles para o desenvolvimento e propagação da presente pesquisa tanto no meio social quanto no meio educacional.

No tocante à observação, Triviños (1987, p.153), nos diz que:

"[O]bservar", naturalmente, não é simplesmente olhar. Observar é destacar de um conjunto (objetos, pessoas, animais etc.) algo especificamente, prestando, por exemplo, atenção em suas características (cor, tamanho etc.). Observar um "fenômeno social" significa, em primeiro lugar, que determinado evento social, simples ou complexo, tenha sido abstratamente separado de seu contexto para que, em sua dimensão singular, seja estudado em seus atos, atividades, significados, relações etc. Individualizam-se ou agrupam-se os fenômenos dentro de uma realidade que é indivisível, essencialmente para descobrir seus aspectos aparenciais e mais profundos, até captar, se for possível, sua essência numa perspectiva específica e ampla, ao mesmo tempo, de contradições, dinamismos, de relações etc.

Neste contexto, optamos pela observação livre - com anotações de campo, das aulas do professor e da intérprete de Libras com intuito de acompanhar o trabalho destes com os alunos surdos, buscando avaliar se a prática estruturada por estes profissionais condizem com as concepções teóricas apresentadas nas entrevistas, tendo em vista que este tipo de observação “satisfaz as necessidades principais da pesquisa qualitativa, como, por exemplo, a relevância do sujeito” (TRIVIÑOS, 1987, p. 153-154).

Durante as aulas, buscamos observar também aspectos como a sequência didática seguida, os materiais didáticos utilizados, as atividades exploradas, a relação entre professor-

aluno- intérprete, assim como a mobilização dos saberes que consideramos essenciais ao processo de ensino e aprendizagem dos alunos surdos e que aqui foram discutidos. Todas as informações identificadas na observação livre, assim como os demais momentos da coleta de dados foram registrados como anotações de campo, que para Trivinõs (1987, p.154) constituem “todas as observações e reflexões que realizamos sobre expressões verbais e ações dos sujeitos”, ou ainda como “todo o processo de coleta e análise de informações, isto é, [...] descrições de fenômenos sociais e físicos, explicações levantadas sobre as mesmas e a compreensão da totalidade da situação em estudo”.

Foi, portanto, por proporcionar uma melhor compreensão e vivência daquilo que foi dito nas entrevistas, pelo professor, bem como por obter aspectos mais profundos do desenvolver de sua prática pedagógica, que realizamos a observação livredireta de sua prática.

As observações foram realizadas durante os encontros de auxílio no processo de alfabetização em Linguagem e Matemática dos alunos surdos, trabalho realizado pelo professor de Matemática Derick em colaboração com a intérprete de Libras Selma. O período de observação foi de seis encontros com duração de noventa minutos cada, que correspondem a duas aulas, realizadas todas as segunda-feiras.

Tais observações ocorreram de forma sistemática nos horários de aula com início as 13:00hrs e término as 14:30hrs. A observação se deu de forma espectadora, buscando obter informações significativas no contexto em que nosso fenômeno estava inserido.

Sobre os documentos escolares, analisamos os planos de aula, as atividades e os materiais didáticos elaboradosutilizados pelo professor, sujeito deste estudo, durante sua atuação nos diferentes contextos vivenciados ao longo de sua trajetória profissional, com estudantes surdos.

Desta forma, os dados coletados foram analisados e triangulados tendo em vista as categorias temáticas estabelecidas durante o processo de construção do nosso aporte teórico, a saber: Constituição da formação docente, Saberes da cultura surda, Saberes da inclusão educacional, Saberes da atuação do Intérprete de Libras e Saberes da valorização das experiências visuais no ensino de matemática para alunos surdos.