3.6 OS TESTES UTILIZADOS PARA DIAGNÓSTICO DE DSF
3.6.4 Sobre os testes mais utilizados e suas características
A grande maioria dos questionários empregados no estudo da DSF são instrumentos de auto-resposta, de fácil compreensão e breve administração (com tempo aproximado de aplicação em torno de 15 a 20 minutos). Em revisão da literatura LIMA SMRR et al, (2010), destaca sete testes breves mais utlizados, multidimensionais com o propósito de avaliar, pelo menos, três fases da resposta sexual humana, são eles: Quociente Sexual Feminino (QS-F), Estudo do comportamento sexual do Brasileiro (ECOS), Brief Sexual Function Index for
Women (BSFI-W), Female Sexual Function Index (FSFI), McCoy Sexual Scale (McCoy) e o Profile of Female Sexual Function (PFSF) e o único unidimensional Female Sexual Distress Scale (FSDS) que foi feito para avaliar o grau de estresse sexual. Diferem entre si na variação
do número de questões (7 a 37) (145). Somente o ECOS integra identificação e saúde geral, além da queixa sexual. O domínio preliminar só é contemplado no QS-F, BSFI-W e ECOS. E os distúrbios de dor não são mencionados no PFSF e no FSDS. O PFSF é para mulheres na menopausa. A composição dos resultados de todos testes pode ser dada por somatória de valores, ou também chamada teoria clássica, exceto o ECOS, que é por análise pontual das questões. Destes, os questionários nacionais eram o QS-F e o ECOS, os internacionais McCoy e FSFI, todos validados na língua portuguesa. Os internacionais não validados eram BSFI-W, PFSF e o FSDS (147)...
Segundo artigo de revisão, organizado pelo Comitê de Normas de membros da Sociedade Internacional de Medicina Sexual (ISSM), foram identificados 27 instrumentos nas
duas últimas décadas, para diagnóstico das DSFs, 13 deles considerados com melhores critérios. Estes, incluíam: ter uma avaliação geral da DSF, avaliação global da função/disfunção da sexualidade feminina, avaliação global do sofrimento sexual e avaliação da satisfação (inclusive sexual satisfação do parceiro, da vida e do tratamento). Entre estes 13 testes melhores, 7 foram classificados como Questionários sobre Função/Disfunção - que são: Derogatis Sexual Function Inventory (DSFI), Derogatis Interview for Sexual Function (DISF/DISF-SR), Female Sexual Function Index (FSFI), Sexual Function Questionnaire (SFQ), Sexual Activity Questionnaire (SAQ-F), Brief Index of Sexual Functioning for Women (BISF-W), Changes in Sexual Functioning Questionnaire (CSFQ) e Golombok–Rust Inventory of Sexual Satisfaction (GRISS) (16).
Estes testes, em geral, demandam um certo tempo, o que pode dificultar a inserção dos mesmos na prática clínica diária. Eles são formulados, geralmente, para especialistas em sexualidade ou para situações específicas, pesquisas ou controles pós tratamento; e muitos, não validados epidemiologicamente. Poucos tem versão de fácil aplicação e há uma falta de padronização internacional (16).
Entre os diferentes instrumentos para avaliar a DSF, um dos mais utilizados é o
Female Sexual Function Index (FSFI) (49). Este teste é um questionário de 19 itens que inclui seis domínios para a medir a função sexual feminina. Demora cerca de 15-20 minutos para completar e os itens são pontuados em escalas de Likert. O FSFI mostrou confiabilidade adequada de teste-reteste (r = 0.75–0.86) e um excelente desempenho de consistência interna. (A de Cronbach = 0,89 a 0,95) (16).
O FSFI foi utilizado neste estudo como padrão ouro porque é um dos mais utilizados no mundo (147)(148) e validado no Brasil (149)(150). As autoras Brotto L e Basson R. (2000) argumentam que uma vantagem do FSFI é o fato de que o instrumento não está vinculado a um conceito teórico específico de desejo, (49)(50) sendo multidimensional e capaz de acomodar perspectivas teóricas alternativas (151).
Porém, a literatura têm destacado diversas limitações do FSFI. Uma, é a ausência de questões para avaliar distress (152); outra, a ausência de questões para definir vaginismo. Face às limitações, a recomendação é de que este instrumento fosse utilizado na prática clínica para medir sintomas gerais de gravidade da disfunção sexual (16). Segundo Forbes (2014), são identificados problemas de mensuração e psicometria, nas dimensões que abordam excitação e desejo(153). Estas colocações são rebatidas por Rosen et cols.(2014), dadas às deficiências da amostra da pesquisa realizada pela internet, não representativa da população australiana, o que impede extrapolação dos resultados (152).
Outras críticas ao teste FSFI, tanto em sua versão longa quanto curta, é o fato de que estes, adotam uma perspectiva heteronormativa (16). Puppo (2012), corrobora ao referir que estes testes avaliam de forma predominante o grau de lubrificação e facilidade de penetração, sem valorizar o orgasmo clitoridiano (154). Este autor reitera que o FSFI-19 e o FSFI-6 não deveriam ser usados para avaliar DSF, visto que suas questões sobre a diminuição do desejo e incapacidade de atingir o orgasmo estão associadas ao coito, valorizando o intercurso sexual pênis-vagina (155)(156) 3
Outros testes breves e validados avaliados pela literatura, com número semelhante ou menor de questões que o FSFI, por exemplo, foram considerados com bons critérios, pois avaliam várias dimensões da sexualidade e são auto aplicáveis, mas nem sempre destinados para qualquer orientação sexual (16)(147).
A saúde sexual deveria ser questionada de rotina e centrar-se na simplicidade, demorar pouco tempo para a execução. Foi pensando nisso que Giraldi et al (2011), desenvolveu um
srcreening para as queixas sexuais, através de um documento padrão, como uma triagem para
mulheres Sexual Complaints Screener for Women (SCS-W), com 10 questões (16). Há ainda, estudos que defendem fazer uma única e ampla pergunta sobre a vida sexual(157)(158).
Kriston et al, (2010) também desenvolveram uma ferramenta de rastreio breve chamado o STEFFI-2 para ser utilizado no atendimento de rotina. Versões curtas e completas foram testadas e mostraram um bom desempenho diagnóstico. Nesse sentido a escala Arizona de experiência sexual (ASEX) também foi desenvolvido com apenas cinco questões que avaliam sobre saúde sexual, mas utilizando para seu desenvolvimento teoria clássica dos testes e como forma de avaliação escala Likert. Ambos sistemas, em teste tão breve, podem inferir importância à uma determinada questão em detrimento de outra e ou trazer imprecisão ou subjetividade nos resultados das respostas, respectivamente. (159) Concluiu-se que o uso de questionários tem valor, mas motivar o médico para usá-los rotineiramente exige mais reflexão. Além disso, testes devem ser elaborados com criticidade e recursos técnicos que ampliem a eficácia dos mesmos. Estudos também indicam, que os médicos ainda precisam ser adequadamente treinados para lidar efetivamente com a descoberta de uma(152).
Sabemos que as DSFs podem ter um impacto negativo sobre o bem-estar das mulheres e também ser um sintoma precoce de uma doença subjacente, daí a relevância dos instrumentos para identificá-las. Segundo esses autores, muitos profissionais de saúde não abordam sobre sexualidade, consequentemente, as mulheres não têm a oportunidade, para expressar suas preocupações sexuais ou acessar serviços adequados. Em contrapartida, a avaliação de questionários para DSF atualmente disponíveis sugere que muitos, são
inadequados para uso na prática clínica rotineira. Isso de dá, porque tomam muito tempo ou porque são focados para especialistas. Em decorrência desta questão, autores do teste STEFFI-2 consideram que um teste rápido, pode ser um ponto de partida adequado. Evidências sugerem que isso facilitaria a discussão de assuntos sexuais entre o profissional de saúde e as mulheres aumentando e a probabilidade de diagnóstico de DSF(153).
Em suma, vários testes de triagem mostraram características diagnósticas promissoras. A constatação de que instrumentos mais curtos podem ser tão precisos quanto os mais extensos não é novidade. Mais de 30 anos atrás Plouffe (1985), já indicou que um questionário simples seria tão eficaz quanto investigação detalhada na detecção de um problema sexual (160).